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Indígenas criticam obra e articulam ações contra Belo Monte

Em seminário realizado em Altamira, movimentos e organizações contrárias à construção da usina também reclamam de cobertura da imprensa
Publicado por virginiatoledo
13:07
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São Paulo – O impacto de empreendimentos hidrelétricos nas comunidades indígenas, principalmente na Amazônia, foi o tema que norteou o primeiro debate de seminário realizado em Altamira, no Pará, a 800 quilômetros de Belém. Com críticas à falta de consultas prévias a comunidades indígenas, previstas na Constituição, os participantes criticaram também a manipulação das informações divulgadas pelo poder público.

Lideranças de etnias como os Assurini criticaram a cobertura da imprensa ao relatar que parte dos indígenas seria favorável à construção. A avaliação é de que as reportagens não têm relatado corretamente a opinião das comunidades, contrária à instalação da usina. Eles criticam também o modelo de compensação, que seria baseado mais em itens paliativos, como cestas básicas, do que em ações efetivas para reduzir ou impedir o impacto socioambiental das obras.

Representantes dos povos Araweté, Assurini, Kayapó, Kraô, Apinajés, Gavião, Munduruku, Guajajara, Arara, Xipaya e Juruna das regiões de Altamira e Santarém (PA), do Tocantins, Goiás e Maranhão compartilharam experiências de impactos de grandes empreendimentos em diversas regiões do país, como os projetos de hidrelétricas do Teles Pires, no rio Tapajós (na divisa do Mato Grosso com o Pará), e Tucuruí (PA), a 480 quilômetros de Belém.

Juma Xipaya, representante dos Xipaia, da região de Altamira, que sofrerá impactos pelas obras e pelo funcionamento de Belo Monte, considera que a usina ainda pode ser barrada. “Belo Monte é fato consumado? Não! As máquinas estão aqui, mas a usina só vai sair se nós deixamos sair.” E ressalta: “Já fizemos tantas reuniões, tantos documentos, e deu em quê? O canteiro de obras está sendo construído. Precisamos sair na rua, gritar, e fazer algo diferente. Vamos somar forças, mas não podemos continuar falando, enquanto as máquinas estão destruindo nossa natureza! A natureza está chorando, os rios estão implorando! O que vai ser o resultado desse encontro? Espero que vai ser algo mais, nós somos os defensores do nosso rio. Só nós!”.

A jovem Njrenhdjãm Xicrín, da aldeia Pykajakà, tem outro motivo para participar do encontro. “Vim para aprender mais sobre a usina, apreender a questionar, para poder informar nosso povo e correr atrás dos nossos direitos.” Os Xicrín afirmam terem sido ignorados na discussão. “Até agora sempre falavam que os Xicrín não seriam atingidos. Assim, nem todos eram contra a usina”, ressaltou. Ela acredita que o governo comete uma injustiça ao autorizar o início da obrar antes de que todos os estudos sobre os impactos fosse finalizados.

Pescadores

A segunda parte do encontro, que contou com uma análise conjuntural do sociólogo Sérgio Cardoso, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), discutiu a situação dos pescadores artesanais e ornamentais de Altamira, Senador José Porfírio, Porto de Moz e Vitória do Xingu. “A Norte Energia nunca disse o que vai fazer com os pescadores. E não vai dizer porque não tem o que dizer, porque o que vão fazer é destruir o rio”, enfatizou um representante dos pescadores de Altamira.

As críticas também se voltaram para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente para Recursos Naturais Renováveis (Ibama). “O Ibama cria um monte de regras para a gente pescar, para preservar os peixes. Agora, para destruir o rio, não tem nenhuma dificuldade”, ponderou o representante dos pescadores. Os impactos da usina sobre a pesca ornamental foi objeto de uma de várias ações públicas que pedem a paralisação da obra.

“Tenho certeza de que depois de Belo Monte vou ser obrigado a mudar de trabalho, porque peixe não vai ter. Vai morrer, ou vai migrar. Eu não me calo, estou pronto para brigar. Convido nossos amigos indígenas para somar forças para proteger nosso rio. O Xingu é nosso pai e mãe”, afirmou o pescador Raimundo Braga Nunes.

Com informações do Movimento Xingu Vivo e Conselho Indigenista Missionário