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Para Grajew, empresas não têm como ignorar trabalho escravo e desmatamento

por João Peres, da RBA publicado 26/02/2011 09h59, última modificação 15/07/2011 17h02

Oded Grajew avalia que mudanças no Código Florestal são tiro no pé das empresas (Foto: Roosewelt Pinheiro / Agência Brasil)

São Paulo – O empresário Oded Grajew, coordenador da Rede Nossa São Paulo e um dos fundadores do Fórum Social Mundial, acredita que as corporações que ignoram violações em suas cadeias produtivas estão fazendo um mal não apenas à sociedade, mas aos próprios negócios.

Grajew pensa que aqueles que não se importam de comprar produtos oriundos de trabalho escravo ou de desmatamento serão obrigados a mudar de postura. “Ou porque podem sofrer represálias, ações legais, ou recusa de ter consumidores, uma pressão econômica”, resume. 

Na última semana, uma articulação de organizações não-governamentais divulgou o 2º Estudo Conexões Sustentáveis: São Paulo-Amazônia, que mostra como as empresas da maior cidade do país estão envolvidas com corporações que violam regras sociais ou ambientais. A pesquisa, disponível para consulta na internet, indica que Casas Bahia, Marabraz, Bunge e Cargill são algumas entre muitas que têm problemas em sua cadeia produtiva. O interessante é que, na resposta apresenta às ONGs, algumas optaram por dizer que não têm envolvimento com a questão. Para Grajew, um grave erro.

Confira a seguir a entrevista concedida à Rede Brasil Atual.

RBA - As empresas conseguiram avançar no controle da cadeia produtiva delas?

Conseguiram. No primeiro estudo houve um impacto que produziu pactos. Mostrou-se uma realidade, as empresas começaram a assumir compromissos, a montar processos de monitoramento da produção, vários produtores foram descredenciados, outros tiveram de mudar atitudade. Isso ajudou, nos casos da carne e da soja, a reduzir o desmatamento da Amazônia. Mas esse segundo estudo mostrou que pode haver falhas no monitoramento, que precisa avançar e incluir outros setores, como a construção civil. Acho que as empresas avançaram mais que o poder público, tanto na Amazônia, com uma série de falhas, como corrupção, falta de monitoramento, quanto na questão das compras públicas, que aí não avançou mesmo, deveria ter avançado muito.

RBA - De que maneira se poderia avançar nesse sentido?

Introduzir a questão da sustentabilidade nos critérios de compra. Sustentabilidade social, ou seja, o não uso de trabalho escravo nem de trabalho infantil. Não entrar na cadeia de produção que ajude e favoreça o crime ambiental na Amazônia, e introduzir isso na legislação.

Também a questão da corrupção, que é muito importante na fiscalização. O poder público tem a obrigação de, a partir de iniciativas da sociedade ou por processos voluntários, estabelecer políticas públicas que universalizam todo tipo de comportamento, de normas. Essa é a função do poder público, precisa fazer com que a lei seja cumprida, e a lei proíbe desmatamento ilegal e atividades econômicas ilegais, como o trabalho escravo. Na hora de comprar produtos e serviços, precisa ver de quem está comprando, se não está favorecendo o crime.

RBA - Como o senhor vê a recusa de algumas empresas em admitir o problema?

Isso vai fazer mal para elas. Mais cedo ou mais tarde vão ter que aderir. Ou porque podem sofrer represálias, ações legais, ou recusa de ter consumidores, uma pressão econômica. Essas empresas podem ter graves problemas se não se adaptarem tanto do ponto de vista legal quanto do ponto de vista econômico. É importante aderir até do ponto de vista empresarial, porque ganha margem de lucro, ganha clientela.

RBA - A conscientização mais difícil é do empresariado ou do consumidor?

Ainda é do consumidor porque ele não percebe como pode agir. As empresas já sabem como agir, e é monitorando a cadeia de produção. O consumidor, mesmo com vontade de agir, tem dificuldade em saber como faz. Tem de se informar no site das empresas, ver a política de compras, mas ainda não tem esse hábito e muitas vezes tem dificuldade de acesso às informações. Por isso são importantes as políticas públicas, que universalizam normas e comportamentos.

RBA - Nesse momento que se debate em Brasília a mudança do Código Florestal, de que maneira aquelas alterações podem ter impacto nestes esforços por redução do desmatamento?

O que está no cerne da questão do Código Florestal são as atividades econômicas. Aqueles que querem promover a mudança querem fazê-lo para desenvolver atividades econômicas nocivas. É importante ter políticas públicas para preservar nossas florestas e mostrar a importância delas para evitar mudanças climáticas, para evitar desertificação dos solos, para ter uma qualidade de vida futura e inclusive ter atividades econômicas futuras. Se não, acaba dando tiro no pé. Pode inviabilizar as atividades econômicas futuras.