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Desvio de armas para milícias põe em xeque política de segurança no RJ

por Maurício Thuswohl, especial para a Rede Brasil Atual publicado 25/02/2011 17h22, última modificação 27/02/2011 09h41

Militares durante ocupação, em novembro, do Complexo do Alemão (Foto: Arquivo Agência Brasil)

Rio de Janeiro – A revelação de que fuzis, pistolas, munição e drogas tomados durante a ocupação de favelas no Rio de Janeiro foram desviados para milícias lança uma sombra sobre a política estadual de segurança pública. O provável conhecimento da antiga chefia da Polícia Civil sobre os desvios e sua evidente ligação com policiais que atuam em milícias apontam que o enfraquecimento do tráfico pelas Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) pode estar apenas redesenhando o poder paralelo no estado.

De acordo com as investigações da Operação Guilhotina, que já resultaram na prisão de 39 pessoas (sendo 30 policiais), os desvios de armas associados à instalação das UPPs aconteceram em novembro do ano passado, durante a ocupação da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, e no começo deste mês, durante a ocupação dos morros da Mineira e do São Carlos. A PF aponta o delegado Carlos Antônio de Oliveira, que foi subchefe da Polícia Civil até o ano passado, como o principal organizador do esquema. Preso em Bangu 8, Oliveira é acusado de formação de quadrilha, peculato e comércio ilegal de armas.

Outro preso durante a operação considerado uma peça-chave para a PF é o inspetor Christiano Gaspar Fernandes, lotado no 22ª Distrito Policial, na Penha. Segundo as investigações, o inspetor é um dos principais integrantes de uma das mais ativas e violentas milícias cariocas, que tem sua base de ação nas favelas Roquete Pinto e Borgauto, em Ramos, na zona norte do Rio. Fernandes, de acordo com a PF, atua dentro da Polícia Civil como integrante de um grupo habituado a saquear bens de traficantes. Durante a ocupação do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro, esse grupo teria atuado de maneira organizada para desviar armas e munição para as mãos de milicianos.

Em depoimento prestado à Corregedoria da Polícia Civil na semana passada, o delegado Cláudio Ferraz, titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), afirmou que Carlos Oliveira, quando ocupava a subchefia de Operações da Polícia, comandava uma rede de agentes que mantinha contato permanente com a milícia de Ramos. Segundo Ferraz, os agentes ligados a Oliveira organizaram em abril do ano passado uma operação na favela da Coréia com o único objetivo de roubar armas dos traficantes e entregá-las ao policial militar da reserva Ricardo Afonso Fernandes, o Afonsinho, que é pai do inspetor Christiano e, segundo a PF, chefe da milícia na favela Roquete Pinto.

Além de Afonsinho, outros cinco integrantes das milícias que atuam em Ramos – Roberci Peres Guilherme, Paulo Roberto Sousa, Lenilson Roque Gonçalves, Márcio Gomes da Silva e Ciel Brandão Martins – tiveram sua prisão decretada durante a Operação Guilhotina e são considerados foragidos pela PF. O delegado federal Allan Dias, que conduz as investigações, afirma que os milicianos estão sendo monitorados e que a expectativa da PF é de que as prisões aconteçam a qualquer momento.

Proximidade fatal

Depois da deflagração da Operação Guilhotina, há 15 dias, a proximidade com Oliveira e Fernandes já custou o cargo e um indiciamento por vazamento de informação ao ex-chefe da Polícia Civil, Allan Turnowski. Segundo as investigações, no dia 27 de novembro do ano passado – dia seguinte à ocupação da Vila Cruzeiro e dia da ocupação do Complexo do Alemão – Turnowski ligou cinco vezes para Christiano Fernandes em um espaço de 30 minutos. Em uma das conversas, de acordo com o grampo das ligações telefônicas, Turnowski teria alertado o inspetor sobre as investigações federais: “Caiu na escuta federal”, teria dito.

O secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, afirmou em nota à imprensa que, naquele mesmo dia da ocupação, fora informado pela PF de que agentes da Polícia Civil estariam tentando extorquir traficantes e, em seguida, teria telefonado para Turnowski para cobrar providências. Beltrame, no entanto, afirma que em nenhum momento mencionou a Operação Guilhotina. Turnowski também argumenta que não sabia nada sobre a operação da PF: “Fui indiciado antes que alguém da Secretaria de Segurança Pública confirmasse que me disse algo sobre a operação. O secretário vai ter que depor para provar que eu não sabia”.

Sobre o alerta dado a Fernandes mencionado nos grampos da PF, Turnowski admite a conversa, mas diz que não fez menção a qualquer investigação federal e sim às investigações internas da Polícia Civil: “Disse que a nossa Corregedoria estava de olho nele, que ele ficasse muito atento e procedesse dentro da lei”. O ex-chefe de polícia também não nega possíveis desvios de armas para milicianos, limitando-se a dizer que a organização das ofensivas contra o tráfico era feita por Carlos Oliveira, então subchefe de Operações.

Prefeituras

Nem Beltrame nem a nova chefe da Polícia Civil nomeada pelo governador Sérgio Cabral, delegada Martha Rocha, fizeram qualquer comentário até agora a respeito de uma possível associação entre a expansão das UPPs e o fortalecimento das milícias no Rio de Janeiro. Outra linha de investigação da Operação Guilhotina, no entanto, reforça essa tese ao mostrar que o grupo de policiais que agia sob o comando do delegado Carlos Oliveira expandia seus contatos no interior do estado, onde o crescimento das milícias é evidente. Esses contatos, segundo a PF, estavam sendo feitos inclusive junto a algumas prefeituras.

Junto a essa revelação veio a incômoda constatação de que Oliveira, desde dezembro do ano passado, atuava como subsecretário de Operações da Secretaria Especial da Ordem Pública (Seop) da prefeitura do Rio. Já exonerado pelo prefeito Eduardo Paes, Oliveira, segundo as investigações da PF, estaria “transferindo o seu quartel-general” para a prefeitura, para onde já haviam sido transferidos nove policiais de sua confiança em cargos comissionados (também já exonerados).

Apesar da rápida reação do prefeito, a vereadora Andréa Gouvêa Vieira (PSDB) tenta criar na Câmara uma CPI para investigar as ações de Oliveira durante sua breve passagem pela prefeitura do Rio e durante uma vez anterior – entre janeiro e abril de 2009 – quando o delegado também esteve na Seop. Segundo a vereadora, a CPI poderia comprovar a proximidade de Oliveira com políticos como o vereador cassado Cristiano Girão, que está preso sob a acusação de pertencer a uma milícia em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, acusada de crimes como assassinato, entre outros.