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Para especialista, Daime é “bode expiatório” de assassinato de Glauco

Pesquisadores sobre psicoativos destacam que colocar o Daime fora de contexto para explicar violência de jovem que nem havia consumido a substância é distorção que joga preconceito no debate
por João Peres, da RBA publicado 23/03/2010 19h54, última modificação 23/03/2010 19h00
Pesquisadores sobre psicoativos destacam que colocar o Daime fora de contexto para explicar violência de jovem que nem havia consumido a substância é distorção que joga preconceito no debate

Pesquisadora aponta que olhar o ayahuasca desligado de seu contexto social e religioso leva a distorções

São Paulo - O uso do Santo Daime para rituais religiosos e culturais e a implicação da substância no assassinato do cartunista Glauco Villas Boas continuam em foco. Depois que parte da imprensa apontou o chá, chamado no geral de ayahuasca, como um dos fatores que levaram o jovem Carlos Eduardo Sundfeld Nunes a cometer o crime do último dia 12, entidades e especialistas saíram em defesa de uma exposição de ideias mais aberta e esclarecedora.

O debate organizado pelo Ministério da Cultura  para o lançamento do livro “Drogas e cultura: novas perspectivas” não poderia se esquivar à discussão sobre o tema. Edward MacRae, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e co-organizador da obra, considera que boa parte dos veículos de comunicação não tem ido ao cerne da questão.

O pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Neip) destaca que o tráfico de drogas, que possibilitou ao rapaz juntar o dinheiro necessário para comprar um revólver, precisa ser amplamente discutido. “E, pior, tráfico de armas, isso ninguém abordou. A própria imprensa que está colocando a culpa no Daime, sendo que o rapaz nem tinha tomado Daime na ocasião, tem defendido o livre acesso a armas. Mais uma vez a gente vê que há uma distorção, há interesses em mostrar a questão das drogas de uma forma negativa, o bode expiatório da sociedade”.

Para o pesquisador, isso faz parte da maneira arcaica como a sociedade trata as drogas, mitificadas e distanciadas de um debate amplo. Ele lembra que muitos dos centros de rituais daimistas passaram a ser procurados por dependentes de tóxicos pela falta de políticas públicas que respeitassem a redução de danos e a escolha pelo tratamento.

Histórico

Muitos dos ritos de utilização de ayahuasca têm aplicação fundamental para povos indígenas. No Brasil, os primeiros cultos datam de ao menos dois séculos, e há usos mais antigos por sociedades de onde hoje estão Bolívia, Peru e Equador.

Sandra Goulart, também co-autora do livro lançado pelo Ministério da Cultura e pesquisadora sobre a questão da ayahuasca, lembrou que é na década de 1970 que os cultos daimistas têm expansão para os meios urbanos brasileiros além da região Norte, surgindo como uma tentativa de negação da vida na cidade e de afirmação do encanto com o meio rural. Essa disseminação, em um primeiro momento, coloca novas questões em relação ao consumo da substância, mas regras são estabelecidas gradativamente pelo governo federal e mesmo pelas entidades que fazem uso do chá.

Para a pesquisadora, o problema é olhar para o ayahuasca sob o ponto de vista médico, desligado de outros recortes. “Tanto no caso do uso da ayahuasca como de outros psicoativos, seja em contextos antigos ou modernos, rurais ou urbanos, é preciso necessariamente considerar as condições culturais e sociais de uso em vez de focar simplesmente a droga em si e sua pura ação farmacológica. Uma abordagem sobre as drogas pede uma avaliação multidisciplinar”, afirma.