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FHC admite que não tinha dimensão do problema das drogas

Ex-presidente participa de debate em São Paulo, a convite do Ministério da Cultura. Para ele, experiência mostrou que repressão, sozinha, não funciona
por João Peres, da RBA publicado 23/03/2010 19h04, última modificação 23/03/2010 19h05
Ex-presidente participa de debate em São Paulo, a convite do Ministério da Cultura. Para ele, experiência mostrou que repressão, sozinha, não funciona

SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso admitiu que, quando estava no Palácio do Planalto, não se dava conta da complexidade da questão das drogas. Durante debate em São Paulo, ele apontou que há componentes culturais e sociais que passou a ver apenas com o tempo.

“Tratamos de reprimir a produção de maconha em Pernambuco. Aconteceu o que acontece nessas situações: vai lá, erradica, prende quem pode e um ano depois estão plantando de novo e até ampliando. A experiência foi mostrando a inutilidade desse tipo de esforço. Foi mostrando que a repressão em si não resolve”, afirmou.

O tucano lembrou que em sua época na presidência havia uma enorme pressão da Organização das Nações Unidas (ONU) pela erradicação das substâncias consideradas ilícitas. Ao mesmo tempo, admitiu que os Estados Unidos cobraram do Brasil apoio à política de repressão aos cartéis colombianos, medida rechaçada porque o governo considerava que as forças armadas não eram o instrumento correto para lidar com a questão.

FHC aproveitou o lançamento do livro “Drogas e cultura: novas perspectivas” pelo Ministério da Cultura para reforçar que mudou de posição em relação ao tema e agora entende as drogas como uma questão que atinge toda a sociedade e, como tal, não pode ser tratada simplesmente por repressão.

Depois de ouvir políticos colombianos e mexicanos, o ex-presidente entende que a lucratividade gerada pelas drogas é tão grande que a ação policial vai apenas forçar o surgimento de novas táticas e o deslocamento dos cultivos. E observa que mesmo o Departamento de Estado dos Estados Unidos está se dando conta de que a repressão, por si só, não resolve o problema, como o próprio caso colombiano tem tratado de mostrar, e com isso as políticas de redução de danos coletivos e individuais têm conquistado espaço no debate.

No ano passado, pela primeira vez os norte-americanos admitiram no âmbito das Nações Unidas que a distribuição de seringas pode ser uma boa saída para colaborar no impacto dos problemas gerados pelo uso de drogas - e os gastos ao sistema de saúde que surgem como consequência disso.

Descriminalização

Fernando Henrique Cardoso aproveitou sua fala para pontuar que não é a favor da legalização da maconha, mas entende que o ideal é deixar de tratar o usuário como criminoso. Avalia, porém, que o mesmo deve receber algum tipo de sanção para que entenda que a sociedade não “endossa” sua atitude.

Citou como ideal o exemplo português, que dá espaço a esse tratamento, liberando o porte de drogas em pequenas quantidades. “Não há risco de ser estigmatizado. E nem vai para a cadeia, não pode. Pode ser penalizado de outra maneira. (…) Não dá a sensação de que fez coisa certa. Dá sensação de que tem certo risco e, se você assumiu, cuidado, porque se ultrapassar certos limites pode ser penalizado – mas não criminalizado”, destacou.

 

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