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Brasil não olha para a África por conta do racismo estrutural, afirma embaixadora

Em entrevista para o jornalista Rodolpho Gamberini, Irene Gala fala sobre avanços e retrocessos nas relações entre os dois

arquivo/ebc
"Todo mundo está tentando ter uma presença importante na África e o Brasil ausente. Depois que Lula saiu, houve um retrocesso, um andar para trás"

São Paulo – A embaixadora Irene Vida Gala foi a entrevistada da semana do programa O Planeta Azul, comandado pelo jornalista Rodolpho Gamberini, tendo como pauta as relações diplomáticas entre o Brasil e países africanos. Irene atuou por mais de 10 anos em diversos países daquele continente. “A África, no século 21, vem demonstrando imenso potencial de crescimento, uma grande vitalidade para o mundo inteiro. A África é considerada a nova fronteira e o Brasil tem uma história de relações com o continente”, disse.

Gamberini inicia a conversa questionando sobre o pouco destaque dado às relações com o continente que, além de ter aliados estratégicos para o Brasil, possui um forte vínculo de ancestralidade com o país. “Os brasileiros começaram a estudar a África a partir do governo Lula. Houve um empenho muito grande para desenvolver estudos sobre a África em diferentes áreas do conhecimento, na área contemporânea e histórica”, lembrou. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um grande defensor das relações do Brasil com a África, ponto sempre presente em seus discursos e entrevistas.

A embaixadora argumenta que a proximidade de Lula com a África vai além da retórica. Houve uma aproximação em amplos sentidos, cultural, urbanístico, e mesmo econômico. “Tivemos um momento de grande importância com companhias brasileiras que foram para a África durante o governo Lula. Grandes construtoras, assistimos a este crescimento de laços. Foi muito interessante. Por exemplo, quando era embaixadora em Gana, uma empresa brasileira foi construir o maior mercado da África ocidental. Para construir, a empresa precisou levar muita gente do Brasil. Levamos tecnologia neste processo de aproximação, levamos tudo que temos”, disse.

Racismo estrutural

O cenário promissor, entretanto, agora sofre com o descaso de uma política externa voltada para os Estados Unidos. “Todo mundo está tentando ter uma presença importante na África e o Brasil ausente. Depois que Lula saiu, houve um retrocesso, um andar para trás. Nos meus estudos, minha constatação é de que o racismo estrutural no Brasil compromete relações com a África. O Brasil não acredita na África”, disse.

“Vi vários empresários chegando, eu com 28 anos de experiência em relações Brasil – África, vi vários chegando sem ter feito a lição de casa”, destacou. “Esse lado é muito ruim, de não olhar a África com seriedade. Não é que consideramos a África inferior, mas desqualificamos. É quando tem um olhar que não consegue ver. Não se admite um país racista, nunca ninguém se acha racista”, completou.

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