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eleições 2014

Não temos tempo a perder com a banalização da mudança

Quando a grande mídia decadente nos omite informações, tenta roubar nosso direito de ser livres pensadores e cidadãos capazes de fazer conexões e comparações entre passado e presente
por Davi Carvalho, especial para a RBA publicado 23/10/2014 14h04, última modificação 23/10/2014 15h40
Quando a grande mídia decadente nos omite informações, tenta roubar nosso direito de ser livres pensadores e cidadãos capazes de fazer conexões e comparações entre passado e presente
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Conquista: comida na mesa de 50 milhões de cidadãos e redução do desemprego a um dos menores índices do mundo

As discussões sobre as eleições e o futuro do Brasil jogaram nos olhos do eleitor, especialmente os mais jovens, muita desinformação e ódio. Mas nos vacinou com dose cavalar que a elite econômica, o mercado financeiro e a mídia têm um projeto de Brasil em detrimento do nosso. Por diversas vezes o povo caiu na balela da união nacional pelo bem comum. A elite, nunca.

Sempre com visão mesquinha, egoísta, rasa e olhando apenas aos seus interesses, os que comandavam o país até 2002 nunca aceitaram que o povo tomasse as rédeas do seu futuro e se tornasse protagonista de sua história. Mas uma sociedade cansada e cheia de esperança decidiu, há 12 anos, que apostaria na sua força e na capacidade de mudar, construir e reformar um país desigual, injusto, dependente e subserviente.

Foi preciso coragem para destruir barreiras que nos separavam de um processo civilizatório, que vivemos hoje, mas que não se podia esperar dos antigos mandatários do país. Quando a grande mídia decadente nos omite informações, tenta roubar nosso direito de ser livres pensadores e cidadãos capazes de fazer conexões e comparações entre passado e presente.

O primeiro ato da mudança foi criar uma nova articulação que aproximou economia e política social. Antes era preciso escolher entre estabilizar a moeda, fazer a economia crescer ou cuidar do social, ainda que parcamente. Para garantirmos as conquistas que hoje desfrutamos e conhecemos foi preciso preparar o país para crescer, reestruturar o Estado, recuperar a capacidade de investimento, criar emprego e renda, aumentar o salário mínimo e, desse modo, dinamizar o mercado interno de consumo e garantir a ampliação dos direitos. Isso tudo é uma profunda e importante mudança.

Nenhuma das conquistas dos últimos 12 anos são triviais. Beiramos uma revolução democrática ao colocar comida na mesa de 50 milhões de cidadãos, reduzir o desemprego a um dos menores índices do mundo, aumentar a renda dos pobres e dos trabalhadores, tirar da pobreza extrema cerca de 36 milhões pessoas e elevar mais de 40 milhões ao mundo do consumo, criando um mercado interno pujante. Outros dados econômicos e sociais relevantes você pode ver nos 110 gráficos no final do texto que comparam o Brasil de hoje com o Brasil do passado.

Claramente, a escolha foi por uma mudança no curso da história brasileira. Por mais oportunidades para todos, enfrentamento às desigualdades e respeito à condição de cidadãos plenos de direitos, escolhemos, em 2002, o caminho alternativo, a outra opção. Hoje, aqueles que ainda deveriam se envergonhar do governo que fizeram estão à espreita, com unhas e dentes negando tudo o que vivemos, como se o povo tivesse errado nas suas escolhas por incapacidade de conduzir seu futuro. Não, não erramos! Longe de estarmos no país que desejamos, sabemos para onde queremos ir e onde sonhamos chegar.

Sobre os argumentos, ah, os argumentos...! Dá para contar nos dedos de uma mão o que tentam nos fazer reproduzir como justificativa para "mudar de novo". "Fora PT", "pela alternância do poder" e "chega de corrupção". Esses três principais "argumentos" tentam reforçar a ideia de que o povo errou, está há muito tempo no poder e rouba. Por isso, seria fundamental retornar à outra alternativa, aquela fracassada, que fazia os brasileiros terem vergonha de si mesmos por acreditarem, muitas vezes, que eram incapazes e que tinham de andar de cabeça baixa, sem autoestima. Talvez alguns não se lembrem, mas esse Brasil existiu, e há muito pouco tempo.

Por isso, vale contextualizar que os processos de mudanças não são banais e carregam significados fortes de escolhas e determinações. Não podemos cair na armadilha de achar que se muda um país, com as complexidades do Brasil, em quatro ou 12 anos, como nos querem fazer acreditar. Mudança é processo e já começou em 2002.

As duas campanhas que disputam a presidência erram ao apresentar propostas sem contextualizar essa informação. Até a campanha governista à reeleição, somente nesta última semana que antecede o pleito, tem trabalhado mais intensamente, que mudança não acontece, nem aqui nem em país algum, de um ano para o outro, ou de uma década para outra.

Na nossa história vivemos um processo lento por mais de 500 anos de criação e aprofundamento das desigualdades e manutenção dos privilégios. A miséria e a pobreza eram paisagem. Vivemos, no passado, de perder oportunidades de construir um país civilizado, justo e equânime. Como eu, certamente você deve ter aprendido na escola que vivemos uma década perdida nos anos de 1980. Mas a verdade é que foram duas décadas desperdiçadas.

Nos anos 1990 vivemos a corrosão da estrutura do Estado brasileiro. Sem crescimento não desenvolvíamos, destruímos nossa capacidade de investir e planejar, em grande medida, por seguir o que organismos internacionais nos impunham. O povo era obrigado a sobreviver pulando de emprego em emprego, faculdade só para quem podia pagar, cursos técnicos quase inexistiam e vivíamos um apagão, não aquele conhecido, mas um da mão de obra qualificada. Foram anos em que nossos direitos eram negociados ou negados. Investimentos em mobilidade, saneamento, moradia, educação em todos os níveis e saúde para todos eram sonhos. Afinal, nosso Estado brasileiro não tinha dinheiro para os pobres e como governar é fazer escolha e ter lado, eles preferiram governar para pagar juros, que chegou a 45% em 1999, e privatizar.  Resultado: o Brasil não conseguia investir. Planejar já não fazia sentido. Restava esperar a próxima crise para mendigarmos ao FMI, Banco Mundial e outros mais e cumprir suas ordens e, assim, manter nossa inércia social.

É preciso, sim, um longo processo de mudanças, mas com compromisso e visão ampla de futuro, com líderes que tenham a compreensão e sensibilidade sobre as necessidades socioeconômicas dos brasileiros. Não dá para pensar em futuro, democracia e cidadania sem desenvolvimento, não apenas crescimento como tivemos em outros períodos em que o resultado do esforço dos brasileiros ficava nas mãos de poucos. Mas um crescimento que permita ao Estado colocar o seu orçamento a serviço das pessoas, principalmente daquelas que mais precisam.

O Brasil tem que estar preparado, com Estado forte, para as novas demandas que virão à medida que continuarmos nosso caminho rumo a um futuro desejado. O desenvolvimento nos apresenta novas demandas e oportunidades à medida que mudamos de patamar em relação à segurança de direitos e qualidade de vida. O que reivindicamos, hoje, para saúde, educação, transporte, mobilidade, saneamento, moradia e infraestrutura não podíamos nem sonhar num passado recente. Naquela época nós, povo, queríamos emprego, comida e oportunidade. Hoje, já temos. Somente agora, depois de 12 anos de trabalho duro, vencemos os limite do Mapa da Fome e os desafios são outros.

Nos próximos anos o Brasil tem no horizonte imensos desafios e oportunidades para nos aproximar ainda mais do país que desejamos viver. Todas as áreas já citadas, apesar dos avanços, precisam ser aperfeiçoadas. Mais recursos e planejamento são fundamentais. Para se ter uma ideia, ainda hoje cerca de 50 milhões de brasileiros não têm coleta de esgotos em suas residências. Problema típico do século 18. Ao mesmo tempo temos que já tratar de apresentar soluções para questões atuais, do século 21, como mobilidade, meio ambiente e pesquisas e desenvolvimento de tecnologias, que tanto impactam a vida de nossos cidadãos.  É dificílimo realizar mudanças rápidas num contexto como este, mergulhados na maior crise econômica dos últimos 80 anos.

Para atrapalhar mais, elegemos um Congresso mais conservador e amarrado a interesses diversos que não são, necessariamente, os nossos. Por isso, para continuar a desviar das armadilhas que nos afastam do Brasil que queremos, será fundamental uma reforma política, para somente depois enfrentarmos outras questões estruturais e complementar nosso processo de mudanças.

Realmente, não desistiremos do Brasil jamais, independente do resultado das eleições. Mas que fique claro que mudança é trabalho concreto por muitos anos e não apenas uma retórica eleitoral. Diante dos desafios que nos esperam na próxima curva é preciso reiterar que o povo brasileiro já provou que é capaz de se autogovernar. O Brasil não é para amadores nem pode sonhar em retroceder, afinal, mudar por mudar é voltar atrás na caminhada para pegar o outro caminho deixado de lado em 2002. Por isso, não podemos perder tempo, afinal temos um país por continuar a construir.

A economia brasileira nos últimos 20 anos (1994-2014)