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Mau começo

Marina sinaliza varrer escândalo de avião fantasma para debaixo do tapete

Após acidente que matou Eduardo Campos (PSB), Marina Silva despontou como predileta de grupos de comunicação e empresariais poderosos
por Helena Sthephanowitz publicado 25/08/2014 18h51
Após acidente que matou Eduardo Campos (PSB), Marina Silva despontou como predileta de grupos de comunicação e empresariais poderosos
Tânia Rêgo/Agência Brasil
Destroços

Destroços de avião que matou Campos e outras seis pessoas se espalharam. Muitas perguntas sem resposta

Segundo pesquisas eleitorais recém-divulgadas, Marina Silva vem sendo opção de voto para eleitores que cogitavam anular voto ou estavam descontentes com as outras candidaturas. Hoje, tem dois bônus eleitorais. O primeiro é o recall das eleições de 2010, quando ela recebeu votos de protesto. O segundo é o desconhecimento profundo pelo eleitor sobre as forças políticas e econômicas que ela representa, e que é o que define como será o governo de fato. Marina surfa no populismo da antipolítica, escondendo do eleitor o(s) projeto(s) de poder que há por trás de sua candidatura.

Em 2010, ela foi poupada pelos outros oponentes de ter que explicar seus ônus ao eleitor – pois todos queriam o voto de seus eleitores no segundo turno. Muita gente votou nela no escuro, sem cobrar posições claras, por ela não representar expectativa de vitória. Para muitos, o voto em Marina foi apenas um desabafo de protesto, foi o voto “do contra” os outros candidatos, e não a escolha de quem iria governar de fato. Fenômeno semelhante aconteceu com Enéas Carneiro em 1994, mas aquele eleitorado que votou em Enéas cresceu muito em 2010 e parece que estará presente em 2014, pelo menos no primeiro turno.

Marina é hoje uma nuvem. O eleitor não a conhece. Cada um que a olha vê o que quiser imaginar. Quem quiser ver uma madre Teresa de Calcutá da política pode fantasiar à vontade, por enquanto. Suas declarações simplistas procuram agradar todo mundo, tal como ser a favor do que é bom e contra o que é ruim, governar “com os bons”, ser a favor da ética na política etc. São coisas que ninguém discorda, agradando polos opostos, do banqueiro ao cidadão que está sendo explorado no cheque especial.

Mas ela perde esse bônus do desconhecimento à medida em que desponta com chances de vitória. Falar platitudes para agradar a todos pode soar como música numa primeira conversa para o eleitor antipolítica, mas é impossível passar a campanha inteira repetindo sem que a candidatura se desmorone. Se ela de fato se mantiver na frente de Aécio Neves (PSDB) e polarizar com Dilma, terá de falar como pretende. Irá respeitar as regras de mercado, sem interferir na administração das estatais, como Petrobras, Eletrobras, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil? Se Marina é a favor do livre mercado, qual será a nossa política externa?

Marina será realista com a necessidade de o Brasil investir em infraestrutura sem que seja aliada de ambientalistas radicais? Ou a candidata continuará se comportando como ativista dessa área, em que até tentou barrar quando ministra a construção das hidrelétricas de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte? Como vai lidar com os problemas da vida real das pessoas, como comida, casa, escola, emprego, salário e saúde? Será que vai continuar com o discurso que ninguém entende, do tipo: “eixos programáticos”, “democracia de alta intensidade”, “empoderamento humano” e “brasileiros socialistas e sustentabilistas”?

O discurso apresentado até agora dá sinais de que pretende terceirizar a economia para que seja conduzida por banqueiros privados, o que é temeroso para o cidadão trabalhador, pois a receita é a das “medidas amargas”, como desemprego, arrocho nos salários e aposentadorias e juros altos para as famílias e empresários do setor produtivo, sobretudo os pequenos.

Mesmo em assuntos em que ela consegue se sair melhor, como no populismo da antipolítica, ele terá de explicar suas próprias contradições. Ela sempre ocupou cargos políticos, teve gabinete no Senado como qualquer outro senador, participa do sistema partidário, sempre conviveu e continua convivendo com um leque de políticos com perfil da velha política com os quais tem dificuldade de dialogar. Marina como parlamentar conseguiu a aprovação de apenas três projetos: A PEC regulamentando a aposentadoria do “extrativista vegetal”, o projeto de lei que obriga o SUS a garantir transporte e alimentação a pacientes, e a proposição criando o “Dia Nacional dos Povos da Floresta”. Muito pouco.

Seu próprio vice tem posições, em muitos pontos, divergentes das dela. Além disso, é financiada por empresas que tem interesses e negócios com a área governamental, a começar por bancos privados. Não trabalhou a contento pela reforma política popular, pelo contrário, defendeu práticas condenáveis, como a proliferação indiscriminada de novos partidos, infidelidade partidária, criação de partidos com acesso a fundo partidário antes de ter voto e outras mazelas que agravam os vícios políticos. Agora faz acenos para atrair ícones da velha política, como José Serra, para um hipotético governo seu.

Mas seu maior ônus inicial é explicar o avião fantasma da campanha, que vitimou tragicamente Eduardo Campos, e que ela também usava para viajar em campanha. Alguém pagava os pilotos, o combustível, a manutenção, as taxas aeroportuárias, e esses pagamentos deveriam estar na prestação de contas da candidatura de Marina Silva e de Eduardo Campos. Para fugir de indenizações às outras vítimas, ninguém assumiu ser o responsável pelo avião até agora. Está registrado em nome de uma empresa falida, mas seus donos dizem ter repassado o aparelho para empresários de Pernambuco, alguns envolvidos em escândalo de contrabando de pneus, outro apontado como intermediário da compra, sócio de Eduardo Campos em fazenda e presidente da estatal de gás pernambucana, nomeado por Campos.

A falta de notas fiscais por serviços de frete aéreo ou doação de campanha no valor equivalente traz fortes indícios de prática de caixa dois na campanha de Campos e Marina. Perguntada sobre o assunto ela até agora nada respondeu, em um comportamento semelhante ao de Aécio Neves (PSDB), que demorou a admitir ter usado o aeroporto do pequeno município de Cláudio (MG) irregularmente. Enquanto o deputado federal Beto Albuquerque (PSB), vice na chapa presidencial da ex-senadora Marina Silva, responde: “Isso não é problema nosso”.

Ela não precisaria pré-condenar ninguém, mas pelo menos deveria ter uma posição proativa dentro de seu partido e de sua campanha para esclarecer o assunto em vez de abafar pelo silêncio.

A questão do avião “fantasma” não é nenhum factóide, pois precisa ser esclarecida para indenizar as casas e estabelecimentos comerciais atingidos em Santos, e pode envolver caixa dois de campanha, negócios escusos entre empresas, partido e governo pernambucano. Tudo o que Marina Silva diz condenar em uma suposta nova política. É um mau começo esse silêncio, pois equivale a tentar varrer para debaixo do tapete os escândalos de corrupção que atinge amigos e aliados. Enfim, desconversar e engavetar, como nas piores das velhas políticas.