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'Dorotéia', de Nelson Rodrigues, ganha montagem pop, gótica e hi-tech

por guibryan1 publicado 29/08/2012 12h29

Parte do elenco de Dorotéia, com Alinne Moraes ao centro, em cartaz em São Paulo (©Murillo Meirelles/divulgação)

Se estivesse vivo, o dramaturgo, escritor e jornalista pernambucano Nelson Rodrigues teria completado 100 anos em 23 de agosto. Para celebrar, várias novas montagens de suas peças estão em cartaz em São Paulo (algumas já comentadas aqui), incluindo “Dorotéia”, com versão gótica e high tech, estrelada por Alinne Moraes e que pode ser conferida no Teatro Raul Cortez.

Nitidamente, trata-se de um espetáculo surrealista de Nelson Rodrigues, que trabalha com a inversão de vários valores e com as noções de vida e morte. Três primas viúvas, Flávia, Carmelita e Maura, habitam a mesma casa, onde não há quartos, nem camas. Elas são horríveis e, na noite de núpcias, foram atingidas por uma forte náusea, sem terem visto o rosto dos maridos. Essa, aliás, é a sina da família. 

Aqui cabe um parêntesis – essa peça foi escrita em 1949, ou seja, onze anos após o filósofo e escritor existencialista francês Jean-Paul Sartre publicar o romance “A Náusea”, em que o personagem Antoine Roquentin se vê envolvido em ações banais numa cidade desconhecida, onde é confrontado com o absurdo da condição humana, algo bastante semelhante ao que faz Nelson Rodrigues.

A peça começa com as três recebendo a visita de outra prima, Dorotéia, a qual se tornou prostituta até ter um filho natimorto, praticamente enlouquecer e procurar o consolo da família. Porém, linda, ela terá que adquirir chagas no corpo todo, inclusive no rosto, para ser aceita naquela estranha casa. Também terá que escapar das visões do “jarro”, que aqui parece representar a figura masculina, tanto quanto a botina do noivo de Das Dores, a filha natimorta de Flávia e que não sabe que morreu, até não ter a tal náusea na noite de núpcias com o filho também morto de Dona Assunta.

Estamos diante de um espetáculo marcado por personagens extremamente figurativos e que foi montado pela primeira vez em 1950, por Zbigniew Ziembinski, e estrelado por Eleonor Bruno. Porém, ao invés de manter o tom de época, o diretor João Fonseca opta por atualizar a peça, inserindo nela muito bom humor, bastante em função da atuação de Gilberto Gawronski, Alexandre Pinheiro e Paulo Verlings, como as três primas, transformando-as em seres bizarros, totalmente desprovidos de qualquer sensualidade.

O mesmo acontece com Marcus Majella, que dá vida a Dona Assunta. Keli Freitas está muito engraçada como Das Dores. E Alinne Moraes esbanja sensualidade, beleza e boa atuação como a personagem título. Bastante sugestivo, o programa do espetáculo é entregue preso por um pedaço de renda vermelha.

Outros aspectos positivos da nova montagem de “Dorotéia” são o visual e os elementos cenográficos, criados por Nello Marrese, com destaque para os leques nas cores verde, vermelho e azul, que se destacam ainda mais em função do cenário marcado pelas cores cinza e preto. Em torno do palco, há algumas espécies de postes prateados, onde, no alto, há jarros protegidos por vidros; e algumas cadeiras e móveis pretos.

Igualmente dominados pelos tons pretos são os figurinos de Thanara Schönardie. Marcante também é a trilha musical, que conta com canções do pop atual de Beyoncé (“Single Ladies (Put a Ring On It)”, que trata justamente de mulheres solteiras e o sonho do casamento), Madonna e Lady Gaga. 

A nova montagem de João Fonseca não chega a ser extraordinária, mas faz justiça à “Dorotéia”, que pode não ser a mais popular das peças de Nelson Rodrigues, mas tem grande importância histórica, como registro do uso de símbolos como algo necessário para se discutir a alma humana numa época marcada pelo existencialismo. E o diretor faz isso justamente ao revigorá-la e dar-lhe uma roupagem mais atual, com homens muito bem nos papéis femininos, uma trilha musical afiada e um visual marcado por aspectos góticos e high techs.

“Dorotéia é descrita pelo autor como uma farsa irresponsável e está reunida junto com as peças míticas. Mas, talvez, entre todas as peças de Nelson, seja a mais difícil de ser classificada, tamanha a quantidade de possibilidades e interpretações que ela permite. Para mim, Dorotéia é uma peça apaixonada pelas mulheres e que, através de um universo particular e brilhantemente construído pelo autor, critica e ridiculariza a injusta história da nossa civilização onde o prazer pertence só aos homens”, explica João Fonseca, no tal programa.

Serviço
Peça Dorotéia – Até 14/10 – sexta-feira, às 21h30; sábado, às 21h; e domingo, às 19h
Ingressos – R$60 (sexta e domingo) e R$70 (sábado)
Teatro Raul Cortez – Rua Doutor Plínio Barreto, 285. Bela Vista. São Paulo/SP
T: (11) 4003-1212

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