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'Boca de Ouro' ganha caprichada montagem em São Paulo

por guibryan1 publicado 18/07/2012 19h38

Marco Ricca como o Boca de Ouro: texto de Nelson Rodrigues valorizado por produção e elenco de qualidade (©João Caldas Fº)

Uma reprodução da Praça da Apoteose, no sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, e boa parte do elenco sambando feliz. Assim começa a nova montagem do clássico “Boca de Ouro”, escrito por Nelson Rodrigues, agora dirigida por Marco Antônio Braz e estrelada por Marco Ricca, até 25 de novembro. Ela faz parte do projeto do Teatro Sesi-SP que homenageia o centenário do dramaturgo, romancista, cronista e jornalista Nelson Rodrigues, que será completado em 23 de agosto.

A concepção cênica da nova montagem é o que mais chama atenção e atrai o espectador do primeiro ao último minuto. Ela é assinada por um dos mais brilhantes cenógrafos brasileiros, J. C. Serroni, que cuida dos cenários e adereços, e transforma o espetáculo em algo absolutamente atual, utilizando o palco como um todo. Muitas cenas se passam na lateral e uma das maiores qualidades é a presença, na lateral esquerda do palco, do ótimo ator Rodrigo Fregnan sentado diante de uma máquina de escrever e atuando como o próprio Nelson Rodrigues, secretário e locutor. 

Igualmente rica é a inclusão de imagens projetadas no telão, que possibilitam a utilização de recursos tipicamente cinematográficos, como o exagerado close na boca de ouro do denominado “Drácula de Madureira”. A trilha musical é muito bem cuidada por Tunica Teixeira, assim como os figurinos assinados por Telumi Hellen – atenção para os figurinos divertidíssimos das grã-finas – e a iluminação caprichada de Wagner Freire ajudam a distinguir os diferentes momentos e situações do espetáculo, que se passa boa parte nas histórias contadas pela personagem Dona Guigui, ex-amante de Boca de Ouro, muito bem interpretada por Lara Córdula, antes e depois de descobrir que o mesmo havia sido assassinado. 

Claro que o texto de Nelson Rodrigues permanece extremamente atraente e atual, mesmo as gírias de época ainda são bastante charmosas, mas os atores inserem “cacos” que dão novo brilho à obra. Nesse aspecto, merece destaque a ótima atuação de Claudinei Brandão, que interpreta o marido de Dona Guigui, Agenor; e do próprio Marco Ricca, que transfere ao personagem um aspecto suburbano notável. O ator Gésio Amadeu, como Preto, também arranca ótimas gargalhadas da plateia numa breve, mas marcante participação.

Em “Boca de Ouro”, Nelson Rodrigues cria um típico “super-herói suburbano”, que gera medo, mas, ao mesmo tempo, fascina a todos, inclusive em função da quantidade de fatos que não se sabe se reais ou folclóricos que giram em torno dele, como o fato de pedir ao dentista para trocar todos os dentes naturais por outros de ouro, e preparar um caixão também de ouro para seu próprio enterro.

A história começa quando ele é encontrado morto e o jornalista Caveirinha (Alessandro Hernandez), acompanhado pelo fotógrafo (Rafael Boese), procura a ex-amante Dona Guigui para que ela conte alguma história surpreendente a respeito do mito, que ela não sabe se encontrar morto. Ela então narra três versões diferentes da morte do jovem Leleco (Willians Mezzacapa), namorado de Celeste (Livia Ziotti). 

A nova montagem obtém algo que parecia bastante difícil para uma equipe que tinha como referência a primeira montagem, dirigida e estrelada, em 1960, pelo polonês naturalizado brasileiro Zbigniew Marian Ziembinski (um dos responsáveis por revolucionar as artes dramáticas no Brasil), mesmo que, inicialmente, ela tenha sido um retumbante fracasso. Era moderna demais para a época, como a maior parte das peças de Nelson Rodrigues. Ou da excelente e premiada adaptação cinematográfica realizada por Nelson Pereira dos Santos, em 1963, com Jece Valadão no papel principal.

Serviço
Peça “Boca de Ouro”. Até 25/11. Grátis
Quinta, sexta e sábado, as 20h30, e domingo, as 20h. Checar as sessões em www.sesisp.org.br/cultura
Teatro do SESI-SP – Avenida Paulista, 1313. São Paulo/SP. T: (11) 3146-7405


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