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Livro recupera a São Paulo do cinema dos anos 80

por guibryan1 publicado 12/06/2012 15h43

Antropóloga e professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Andréa Barbosa resolveu mergulhar na São Paulo retratada pelos jovens cineastas dos anos 1980 e o resultado é o excelente livro “São Paulo Cidade Azul – Ensaios sobre as imagens da cidade no cinema paulista dos anos 1980”, lançado pela editora Alameda. A autora traça uma transversal por diferentes áreas do conhecimento – audiovisuais, história, sociologia etc. –, para realizar uma análise acadêmica e técnica, mas ao mesmo tempo se vale de um texto de leitura prazerosa e que deve agradar a todos os amantes do cinema brasileiro. Por isso, desde já é um trabalho indispensável para os estudiosos da sétima arte no Brasil.

Andréa Barbosa inicia análise, debruçando-se sobre a relação entre o cinema e a cidade, uma vez que se trata de uma arte absolutamente urbana. Ela é baseada no movimento e surgiu numa época em que as cidades se urbanizavam, na virada do século XIX para o XX, tendo no trem um importante símbolo de modernidade. “A cidade dos filmes é uma cidade imaginada. Uma cidade sonhada. E, como de costume, os sonhos invadem e participam de nossas vidas. Tornando-se portanto uma cidade real. O encantamento do cinema pela cidade acontece também ao revés. O feitiço vira contra o feiticeiro e a cidade se encanta pelo cinema. A cidade, melhor dizendo, se encanta com sua imagem cinematográfica e, como Narciso, mergulha nessa imagem misturando-se a ela”, avalia, no próprio livro.

Depois, são recuperados os mais remotos filmes a retratarem a capital paulistana, caso de “São Paulo Sinfonia da Metrópole”, dirigido por Adalberto Kenemy e Rodolfo Rex Lustig, em 1929, e que se baseia no alemão “Berlin Sinfonia da Metrópole” (1927), de Walter Ruttman; e “O Grande Momento”, no qual, em 1957, o cineasta Roberto Santos retrata “uma cidade promessa, que olha para o futuro com otimismo e crença no poder do capital e da técnica”.

Mais tarde, a cidade reaparece agora como sendo árida, desconcertante e marcada pelo vazio existencial, em filmes como “Noite Vazia” (1965), de Walter Hugo Khouri; “São Paulo S.A.” (9165), de Luiz Sérgio Person; e “A Margem” (1967), de Ozualdo Candeias. Sente-se falta aqui de “O Bandido da Luz Vermelha”, realizado por Rogério Sganzerla, em 1968.

Mas o foco principal do livro é o cinema realizado por jovens realizadores paulistas da década de 1980, que tem dois principais focos aglutinadores – a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e o bairro da Vila Madalena, onde são instaladas as produtoras cinematográficas. “(...) os anos 1980 em São Paulo, se caracteriza (sic) por um período bastante frutífero no que se refere à quantidade de filmes produzidos quanto ao engajamento de um grupo de cineastas jovens na produção de um cinema com ‘a cara’ de São Paulo. A cidade agigantada aparece, assim, como um dos principais traços desta produção. Ela não é apenas cenário, é paisagem e personagem, interagindo com os demais com sua forma, seu vazio, sua beleza, sua desgraça. A cidade também é espelho: olhando para a metrópole os homens, personagens destes filmes, escolhem caminhos e constroem suas identidades”, justifica.

A fim de retratar a São Paulo dessa produção, Andréa Barbosa seleciona sete trabalhos entre os 52 filmes e vídeos selecionados inicialmente e com os quais manteve intenso contato. São eles: “Disaster Movie”, dirigido por Wilson Barros, em 1979; “Diversões Solitárias”, do mesmo Wilson Barros, de 1983; “Cidade Oculta”, do diretor Chico Botelho, de 1986; “Anjos da Noite”, mais um filme de Wilson Barros, agora de 1987; “A Dama do Cine Xangai”, realizado por Guilherme de Almeida Prado, em 1988; e “Wholes”, de Cecílio Neto, de 1991. Estas produções são analisadas pela pesquisadora não apenas em seu conjunto, mas também em sequências específicas e completas, muito bem ilustradas no livro.

“A cidade de São Paulo nessa filmografia tem, portanto, lugar de destaque. Ela é transformada em espetáculo e nesse movimento eleita como elemento fundamental para a construção de uma identidade de um grupo de cineastas. Não é qualquer São Paulo que é escolhida. É a São Paulo que quer ser cosmopolita, a São Paulo da ambivalência, de várias vidas. Não é só a São Paulo da ordem, da produtividade, mas também a São Paulo da contravenção ou da desordem. Não é só a cidade diurna do trabalho e do tempo acelerado, mas também a cidade noturna do tempo indefinido. Uma noite azul que nunca termina e que é povoada por anjos. São Paulo é inferno e paraíso, cidade de ratos e anjos. Cidade cosmopolita, aberta em seus horizontes, e provinciana, fechada em seus becos e muros”, parece concluir, a certa altura.

Desse modo, “São Paulo Cidade Azul”, de Andréa Barbosa, parece partir do específico para traçar um amplo painel das relações estabelecidas entre cidades e o cinema, e analisar o modo como uma realidade interfere na outra, demonstrando que não é apenas os jovens cineastas que buscam retratar o local onde vivem em suas produções, mas que estas também interferem no próprio ambiente. E o cinema paulista dos anos 1980 demonstra ser extremamente eficiente para esse tipo de reflexão, algo percebido com bastante perspicácia pela pesquisadora e professora.

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