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Livro de Luís Pimentel mistura linguagens para retratar violência

por guibryan1 publicado 30/05/2012 16h20, última modificação 31/05/2012 15h25

O jornalista e escritor Luís Pimentel é o autor de mais de 40 livros infanto-juvenis, com os quais recebeu vários e importantes prêmios nacionais. Dessa vez, ele utilizou a clássica canção “Felicidade”, de Lupicínio Rodrigues, como mote para o romance “Felicidade Foi Embora”, em que narra a história de um garoto, que busca descobrir quem é seu verdadeiro pai, enquanto escreve uma peça teatral, a qual é apresentada para o leitor “no próprio instante em que está sendo escrita”. Como ilustração, ele se vale dos desenhos de Alexandre Telles, que se vale de um impressionante jogo de sombras por meio de traços feitos com lápis, misturando preto, branco e cinza.

Marquinhos, de 15 anos, mora com a mãe, Dona Elvira, no Rio de Janeiro. Ela trabalha como empregada doméstica para o bondoso Seu Otávio, até que a casa dele é assaltada e reaparece o pai desaparecido de Marquinhos, Antônio, como um ladrão procurado pela polícia. Até aí parece uma história bastante trivial. Porém, a surpresa está no fato de que os acontecimentos nada mais são do que fruto da imaginação do protagonista, que os transforma numa peça de teatro, narrada para um colega da escola. “Não estou lá, mas estou vendo. É que quem ama acompanha com o coração”, garante, logo na página 8.

Desse modo, Luís Pimentel utiliza dois tempos diferentes que são entremeados o tempo todo – o da narrativa envolvendo Marquinhos, com os amigos e a namorada Sílvia, e a da peça de teatro escrita por ele. Há também o uso da linguagem jornalística, através das notícias de rádio escutadas por Dona Elvira. Abre-se, então, a possibilidade de se brincar com a própria linguagem narrativa, como aparece na página 58: “Na verdade, como vocês podem perceber e os expectadores seguramente perceberão, até aqui a cena desenvolvia-se em ritmo de esquentamento, para em seguida engrenar. E é a partir daqui que engrena de verdade”.

No entanto, em muitos momentos, Marquinhos se mostra impotente, devido a capacidade de conseguir interferir no próprio andamento da história dos pais: “É claro que, como filho de ambos, eu não queria que o reencontro entre os meus pais se desse dessa maneira. Mas dizem que a arte imita a vida (já li, também, que ‘a vida irrita a arte’), e a poesia, a prosa, o teatro, o cinema etc. são expressões que existem, exatamente, para tornar a vida mais interessante. Então, vida que segue, no teatro e na vida”.
Como o livro é destinado ao público infanto-juvenil, Luís Pimentel também apresenta detalhes técnicos para os leitores, como “Voz de homem em off (em off é quando o personagem não aparece, certo? Apenas a sua voz é ouvida)”. O mesmo se repete em “Meu amigo Gabriel leu o texto e disse que, até aqui, está indo bem. Leu algumas falas em voz alta, segundo ele para ouvir melhor o ritmo; coisa de diretor”.

Com direito até a explicação a respeito da “famosa Lei de Murphy”, “Felicidade foi Embora” retrata a violência cotidiana de uma grande cidade como o Rio de Janeiro, a fragmentação da estrutura familiar e a desigualdade social para o público infanto-juvenil, algo bastante importante. Mas a obra é muito mais do que isso e sua principal riqueza está no fato de Luís Pimentel brincar com três linguagens narrativas, que se misturam o tempo todo, e apresentar seus segredos aos leitores. Ah, a canção de Lupicínio Rodrigues aparece no título do livro em função da adoração de Dona Elvira pela música, mas também por outras razões que só lendo para descobrir.
 
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