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Os girassóis de Caio

Página na internet sobre o escritor gaúcho e jornalista Caio Fernando Abreu, morto há 16 anos, será lançada neste sábado com leituras e homenagens
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 24/02/2012 08h53
Página na internet sobre o escritor gaúcho e jornalista Caio Fernando Abreu, morto há 16 anos, será lançada neste sábado com leituras e homenagens

Detalhe do convite para a festa, em Brasília, de lançamento do site que homenageia escritor Caio Fernando Abreu (reprodução)

“Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica de mim em mim é cada vez mais o essencial e verdadeiro.” Esta foi a frase escolhida para a placa a ser colocada na casa onde Caio Fernando Abreu passou seus últimos dias, em Porto Alegre. A ideia, frustrada, era transformar a casa em espaço cultural, para lembrar o escritor e jornalista gaúcho, que morreu em 1996, aos 47 anos. Como o local foi vendido, a escritora Andréa Beheregaray, vizinha de Caio, teve a ideia da placa e organizou uma votação em seu blog pessoal.

Neste sábado (25), quando se completam 16 anos de sua morte, será erguida a “casa virtual” de Caio, com a inauguração do site oficial do escritor, que, como se dizia, fez a cabeça de grande parte da geração dos anos 1980, na longa trip entre o autoritarismo militar do período e as descobertas interiores. A sua obra mais conhecida, o livro de contos “Morangos Mofados”, completa 30 anos em 2012. O lançamento do site (http://www.caiofernandoabreu.com/) está marcado para as 17h em um bar de Brasília, com “leituras, homenagens e girassóis”, como diz o convite. “Girassóis eram as flores preferidas dele. É como se fosse um presente”, diz a jornalista Liana Farias, criadora da Associação Amigos do Caio Fernando Abreu (AACF), em 2010. Ela e muitos outros lançaram uma campanha pela internet para arrecadar fundos que permitisse lançar e manter o site.

A ideia é que o site reúna manuscritos originais, fotos, textos publicados em jornais e revistas, trabalhos acadêmicos e “mostras de obras” de Caio Fernando Abreu. Publicar trechos de cada um dos livros foi o acerto feito com as editoras, explica Liana, que começou a “ler o Caio” dez anos atrás e escreveu uma monografia para sua conclusão do curso de Jornalismo sobre a abordagem do escritor em relação à aids em suas crônicas no jornal O Estado de S. Paulo. “Não que ele tenha levantado a bandeira, mas ele quis quebrar preconceitos”, observa.

Para ela, que tinha dificuldade de achar algumas obras de Caio nas livrarias, as redes sociais ajudaram nos últimos anos a aumentar o conhecimento sobre a obra e a vida do escritor. A conta no Twitter, por exemplo, tem 100 mil seguidores. “Se ele estivesse vivo, com certeza estaria acompanhando tudo isso. Ele teve dificuldades com o computador, mas todo mundo teve na época. Ele sempre foi muito moderno, antenado”, comenta Liana, para quem Caio também poderia considerar “exageradamente repetitivo” o volume de informações que circula na rede.

Aos 20 anos, em 1968, se refugiou da ditadura no sítio da escritora Hilda Hilst, em Campinas, interior paulista. Andou pela Europa (Espanha, Suécia, Holanda, Inglaterra, França) nos anos 1970, década em que teve publicados “Inventário do Irremediável” (contos, 1970, sua primeira obra), “Limite Branco” (romance, 1971), “O Ovo Apunhalado” (contos, 1975) e “Pedras de Calcutá” (contos, 1977). Viveu em vários lugares e de várias maneiras, mas a um amigo afirmou: “O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York”. Sobre o escrever, sugeriu: “Zézim (José Márcio Penido), remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto”.