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Documentário "Leite e Ferro" retrata mães presidiárias

por guibryan1 publicado 24/11/2011 10h21, última modificação 24/11/2011 12h49

O Centro de Atendimento Hospitalar à Mulher Presa (CAHMP), uma instituição em São Paulo para abrigar presidiárias em fase de aleitamento após dar à luz, é o cenário do documentário “Leite e Ferro”, primeiro trabalho da diretora Cláudia Priscila, que estreia nesta sexta-feira (25) nos cinemas. Em 2010, o filme foi premiado como melhor documentário e como melhor direção de documentário no festival de Paulínia. Em 2011, ele ganhou o Grande Prêmio na Mostra Competitiva Internacional e Destaque Feminino na Competitiva Nacional do Festival Internacional de Cinema Feminino (Femina).

O tema do filme bem poderia ser definido como o retrato de um terrível rito de passagem. Afinal, se a Justiça permite a essas mães presidiárias amamentarem seus filhos pouco após o nascimento, é terrível imaginar que pouco tempo depois eles se separarão, com as mulheres retornando para os presídios e os menores sendo enviados para instituições de caridade, até serem adotados. Porém, uma das maiores proezas de Cláudia Priscila é não tomar partido, nem fazer julgamentos ou falsos moralismos, preferindo partir para a realidade nua e crua. É o que torna o tema ainda mais emocionante.

Bastam poucos minutos para que o espectador se veja envolvido com Daluana, apelido da primeira presidiária entrevistada, que namorou Pixote na infância e se envolveu e teve um filho com o traficante Da Lua, que tinha cerca de quarenta anos, enquanto ela tinha pouco mais de dez. É a segunda vez que ela se encontra no CAHMP para amamentação e, de certo modo, conduz a narrativa e apresenta as outras personagens, que relatam e discutem, em muitos momentos com bom humor, temas como fidelidade, maternidade, sexo, amor, violência policial, drogas e religião. 

Vale a pena prestar atenção, por exemplo, no depoimento de uma das presidiárias que teve acesso a uma grande quantidade de cocaína quase totalmente pura, a qual vendeu para duas pessoas que tiveram overdose em seguida. É emocionante o momento em que cada uma das mães explica a escolha do nome dos filhos. Outro aspecto que chama muito a atenção é o apego de cada uma delas a religião, tanto que passam boa parte do filme fazendo orações em conjunto ou individualmente.

Em termos técnicos, não há muitas variações de planos, uma vez que se dá preferência aos planos aproximados nas mães que contam as histórias e a um plano geral quando elas estão todas reunidas. A câmera também passeia pelos corredores e dependências do local, na maioria das vezes iluminadas pela própria luz do dia. Também há muitos closes aproximados nos rostos dos bebês, numa tentativa talvez de aproximar o espectador ainda mais daquela realidade. 

Mesmo sabendo que aquelas mães se envolveram em crimes, é impossível não ir, aos poucos, simpatizando com cada uma delas ou pelo menos tentando compreender o que as levaram até ali. Uma realidade que parecia tão distante torna-se assim muito próxima e compreensível para qualquer espectador. Portanto, se a função primordial de um documentário é iluminar realidades desconhecidas ou emitir para elas novos olhares, “Leite e Ferro” cumpre esse objetivo de modo extremamente eficaz e emocionante.

Assista a seguir o trailler do filme de Cláudia Priscila



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