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Cinema e Curitiba se encontram nas crônicas de Luís Henrique Pellanda

por guibryan1 publicado 16/11/2011 13h09, última modificação 24/11/2011 14h27

O cronista curitibano Luís Henrique Pellanda, de 38 anos, parece ter uma vida bastante intensa. É a sensação que se fica ao ler a coletânea "Nós Passaremos em Branco", publicada pela Arquipélago Editorial. Músico, escritor, jornalista e colunista do jornal "Rascunho", ele entrelaça com maestria cinema e a cidade-natal em cada um dos textos. A presença das ruas do centro de Curitiba é tão forte que se tornou necessário colocar um mapa ao final do livro. Já o cinema aparece diante da amargura e do desespero ao ver as cenas de "Anticristo", de Lars Von Trier, como descreve em "Matar ou não matar"; e em "Conan, o milagreiro", quando relembra uma sessão lotada para ver "The Doors", de Oliver Stone, e traça um interessante paralelo com "Titanic" e a eleição de Arnold Schwarzenneger ao governo da Califórnia.

A maneira fechada do curitibano é abordada com um humor bastante particular em textos como "Inquilino morto não paga", no qual relata experiências com almas do outro mundo; "Pinheirinhos d’alegria", em que relata o convívio com o irritante coro típico da época de Natal; e "A mesa coletiva": "Ao entrar num restaurante como esse (o vegetariano que ele frequenta há quase dez anos), o maior medo de um curitibano é ‘incomodar-se’. Ou seja, sentar-se forçosamente à mesa coletiva e ser abordado por um forasteiro desavisado. Pode acontecer, e aí é adrenalina pura. Se você aparecer por lá num momento de pico, não tem erro: todas as mesas individuais já estarão ocupadas". Mas também não falta poesia, ao relatar, por exemplo, um passeio com a filha a uma praça, em que observa a briga de um casal, em "Palhaça, bandida, gostosa!".

"Viver demanda certa resignação; nesse sentido, morrer é menos chato, pois prescinde de nossa paciência. Até lá, espera-se – e é aí que moram o segredo e a aporrinhação. Na verdade, eu não ligo, sou dos fortes. Sento em frente ao monitor que anuncia as chegadas; as partidas não me interessam, não hoje", observa em "Volare". Mas engana-se quem imagina que paira sobre "Nós Passaremos em Branco" certa melancolia ou pessimismo, pois, mesmo quando as coisas não dão certo, como em "Two Bananas", em que relata uma entrevista que não deu certo com o diretor de cinema Francis Ford Coppola, o resultado é sempre surpreendente.

Fica-se com a ótima sensação de que a crônica, um dos gêneros literários mais fortes na literatura brasileira praticamente desde o final do século 19, continua mais vivo do que nunca e gerando novos nomes, que bebem muito bem na fonte de ícones como Rubem Braga e Fernando Sabino. A prova é Luís Henrique Pellanda, que tratou de reunir em livro os textos publicados originalmente no site Vida Breve, do qual é co-editor. A exceção é "O Diabo da Cruz Machado", crônica lançada na edição de junho de 2009 da revista "Curitiba Deluxe". No final, há uma fantástica e imperdível "Antologia dos Demônios de Curitiba", que dispensa comentários, pois o título já anuncia o que virá e estabelece uma ponte inevitável com o "vampiro de Curitiba", Dalton Trevisan.

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