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A gagueira de um rei

O filme "O Discurso do Rei" é mais do que aparenta ser. Humanizar o que parece tolo pode ser crucial na formação de nossa personalidade e caráter
por Adriana Cardoso, de Dublin, especial para a Rede Brasil Atual publicado 28/01/2011 11h30, última modificação 01/02/2011 08h32
O filme "O Discurso do Rei" é mais do que aparenta ser. Humanizar o que parece tolo pode ser crucial na formação de nossa personalidade e caráter

Os atores Colin Firth e Helena Bonham Carter, em cena do filme com mais indicações ao Oscar 2011 (Foto: Divulgação)

A gagueira de um rei. A princípio, não parece tema para um filme e passamos até a compreender por que ninguém queria financiá-lo. Como dizem os irlandeses, mais uma trapalhada da família britânica “que não nos interessa nenhum pouco”.

Ao ver a primeira cena, você continua não esperando muito: Colin Firth, que vive George VI, pai da rainha Elizabeth, tenta fazer um discurso a pedido do pai na frente de milhões de pessoas e falha. A voz trava.

A mulher, vivida pela atriz Helena Bonham Carter (casada com Tim Burton), como toda grande mulher atrás de um homem exposto em sua fragilidade, tenta ajudá-lo. E é nessa busca que o filme muda.

Entra em cena a personagem do ator australiano Geoffrey Rush, aquele que viveu o doidão do filme "Shine". Rush vive o ator falido Lionel Logue que brinca de fonoaudiólogo/psiquiatra. A mulher de George recorre Lionel e o marido aceita o "tratamento". Entre idas e vindas, cria-se um laço entre os dois.

Assisti ao filme "O Discurso do Rei" há quase um mês. Agora que o filme foi indicado a 12 estatuetas, as salas estão mais lotadas ainda aqui em Dublin.

Pode-se dizer que tinha tudo para dar errado, mas com as atuações de Colin Firth (que saiu das comedinhas românticas babacas e mostrou que dá conta de grandes papéis), Rush e Helena, o filme tornou-se grande e vale a pena ser visto. É mais do que aparenta ser.

O que está por trás da gagueira do rei? O filme beira a um grau de humanidade que nem parece tratar do universo inglês. O fato é: o rei está nu, seja pelos closes da câmera, pela gagueira, pelo uso dos nomes próprios.

Numa conversa crucial, o amigo fonoaudiólogo fuça aqui e acolá, vai tocando numa ferida ou outra, até expor as chagas do futuro rei. E descobre as fragilidades dele, as mesmas que todos temos. Mostra, enfim, que a vida pode machucar e doer, que o mundo não é cor de rosa nem para aqueles em cujas veias corre sangue azul.

O filme mostra o quanto uma palavra, uma ação que a princípio pode parecer tola pode ser crucial na formação de nossa personalidade e caráter.

Aquela palavra que sua mãe disse quando você era criança e que, por boba que fosse, feriu profundamente. Ou aquele colega que a perseguiu na escola. Aquele irmão que era melhor em tudo e mais bonito que você. Aquela professora que o chamou de burro porque você não entendia.

Assim como o rei, todos temos os nossos fantasmas, todos somos condicionados de alguma forma, somos cobrados a ser isso ou aquilo, a fazer escolhas. Todos somos amados, odiados, ofendido e ofendemos. E, dependendo do grau de sensibilidade, isso pode nos encorajar ou apavorar, pode nos fazer heróis ou covardes.

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