Sequelas da pandemia

Com governo que tripudia sobre mortos, expectativa de vida recua no país

É inacreditável a capacidade de membros do governo de reagir de maneira monstruosa diante do sofrimento da população com a crise sanitária

CC0 Domínio público
Estudo mostra que em 2020 houve queda de 1,94 ano na expectativa de vida no país por conta de impactos da pandemia

Dois estudos publicados nas últimas semanas comprovam a queda vertiginosa da expectativa de vida da população brasileira em consequência das mais de 400 mil vidas abreviadas pela covid-19. Um deles, elaborado em conjunto pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Universidade de Harvard, mostra que em 2020 houve queda de 1,94 ano na expectativa de vida ao nascer. Outro, da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados Estatísticos, a Fundação Seade, mostra que a população do estado de São Paulo, o mais rico do Brasil, viverá um ano a menos – em vez de 76,4 anos, só 75,4. Este é mais um efeito das mortes precoces trazidas pela pandemia.

A expectativa de vida vinha crescendo continuamente. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1940 esperava-se que o brasileiro vivesse 45,5 anos; em 2017, a expectativa estava em 76 anos, fruto dos avanços da medicina e da ampliação do acesso aos serviços de saúde, das melhorias na alimentação e da redução da fome e da mortalidade infantil, dos avanços no saneamento básico e das condições de moradia, dentre outros fatores. Em 2020 a tendência se inverteu, como efeito das mortes pela covid-19 e também pelo aumento da fome e da pobreza.

Vacinação em massa

O governo negacionista poderia reduzir os efeitos desta tragédia, vacinando em massa, pagando auxílio emergencial até o final da pandemia e auxiliando financeiramente as milhões de micro e pequenas empresas que geram a maioria dos empregos disponíveis no Brasil. Tudo para permitir às pessoas ficarem em casa para controlar a propagação devastadora do vírus.

Bastaria ao governo brasileiro seguir o exemplo de países como os Estados Unidos, que já aprovaram pacote de US$ 1,9 trilhão e preparam outro de US$ 3 trilhões para reativar a economia, gerar empregos, proteger a infância, financiar a saúde da população. Lá, a prioridade é a sobrevivência da população. Aqui, é preservar o caixa do Tesouro Nacional.

‘Todo mundo quer viver 100 anos’

Tão macabro quanto as estatísticas da pandemia, Paulo Guedes, o ministro da Economia declara que “todo mundo quer viver 100 anos” e que o Estado não consegue acompanhar a busca por atendimento médico. E propõe uma solução de máxima crueldade: acabar com o SUS, responsável por atender 80% da população brasileira, e entregar ao pobre um voucher para ele usar no Einstein ou em qualquer hospital. A depender de Guedes, o tal voucher seria suficiente para o pobre comer uma coxinha na cantina do Einstein e voltar para casa com fome, sem atendimento.

No auge da pandemia, propõe deixar a população sem atendimento médico. Segue a mesma lógica adotada no Chile em 1983, quando Guedes ajudou a privatizar a previdência e a saúde públicas. Transformaram os fundos de previdência privados em negócio altamente lucrativo para os bancos e condenaram a maioria dos idosos a viver sem nenhuma fonte de sustento. O modelo fracassou, mas Guedes insiste em querer implantá-lo aqui, com apoio do capitão.

Formas de financiamento

A solução para o SUS e para a previdência pública não é reduzir o número de pessoas atendidas ou beneficiárias de aposentadoria. É encontrar novas formas de financiamento. Vários países, como Estados Unidos e Argentina, estão aumentando impostos pagos pela parcela mais rica da população para subsidiar o aumento das despesas do Estado com o enfrentamento da pandemia.

Na Argentina de 2020 foi criado o imposto sobre as grandes fortunas, que afetará somente 12 mil cidadãos podres de ricos. O dinheiro arrecadado será aplicado em cuidados médicos para a população de 44 milhões de pessoas, em apoio às micro e pequenas empresas, gastos sociais e bolsas de estudo.

Esta solução poderia ser muito bem adotada no Brasil, onde seis indivíduos detêm a mesma riqueza dos 100 milhões de brasileiros mais pobres. Se taxasse algumas dezenas de milhares de super ricos, o Estado teria recursos para enfrentar a pandemia e custear aposentadorias. Mas, a depender do governo que cultua a morte e a barbárie e é cúmplice da gana dos rentistas, nada será feito neste sentido.   

Leia mais:


José Ricardo Sasseron foi presidente da Associação Nacional dos Participantes de Fundos de Pensão e de Beneficiários de Planos de Saúde de Autogestão (Anapar) e diretor eleito de Seguridade da Previ