Desenvolvimento em Foco

Cidade Compacta x Cidade Dispersa: discussão para o Grande ABC

Integração regional, de tanto sucesso em vários locais, lamentavelmente ainda é arranjo distante na agenda dos governantes do Grande ABC

Reprodução/Wikipedia
Inaugurado há mais de três décadas, corredor que liga zona leste a zona sul de São Paulo cortando três cidades do ABC é um dos (poucos) retratos da importância da política urbana

Atualmente, um dos temas contemporâneos mais calorosos para a discussão urbana é o conflito que existe entre dois modelos de ocupação dos espaços urbanos, denominados de Cidade Compacta e Cidade Dispersa. Estes termos resumem o grande dilema que as cidades enfrentam, não só no Brasil, mas certamente em todo o mundo urbanizado. Conseguimos compreender estes conceitos com clareza no Grande ABC. Tratei deste tema em nota técnica da 16ª Carta de Conjuntura do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (Conjuscs).

A Cidade Dispersa é uma cidade na qual o seu desenvolvimento urbano ocorre priorizando o enfoque territorialista extensivo, ou seja, a cidade se espalha em grandes territórios com qualidade ou não no seu tecido urbano, apresentando grandes vazios e uma série de serviços espraiados pelo seu território, com baixa conectividade. Podemos entender este conceito quando percebemos que no desenvolvimento da nossa região identificamos grandes eixos de infraestrutura de mobilidade, como as rodovias que ligam ao Porto de Santos ou ainda a linha férrea determinante do traçado urbano de cidades no Grande ABC, com núcleos que se estruturam ao seu redor.


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Identificamos nesses eixos a priorização do transporte de cargas e pouquíssima preocupação com qualidade de espaço público ou melhorias nas formas de morar da população; basta observarmos a enorme fratura urbana que essas intervenções promoveram, com um discurso que é totalmente inexato sobre as qualidades de ambientes urbanos que criaram. A ação oficial urbana foi significativa (cidades com dificuldade de relacionamento com rodovias e ferrovias) mas as propostas de mitigação destes impactos foram extremamente ineficientes (muros, barreiras, qualidade urbana diferenciada entre o “lado de cá” e “lado de lá” da ferrovia, por exemplo). Esse urbanismo “cloroquinista”(com medidas ineficazes e onerosas) é uma mentira com gasto público equivocado para a melhoria das nossas cidades.

Quanto maior o distanciamento das áreas centrais dos municípios do Grande ABC, a paisagem vai se desorganizando, perdendo sua identidade e eficiência. Surgem os vazios urbanos e tipologias de arquitetura com pouca qualidade; na Cidade Dispersa, a lógica da urbanização é a de mercado, mas com baixa qualidade dos espaços gerados; as prioridades neste contexto para nossos padrões de urbanização, são as áreas centrais e os bairros que habitam as classes mais abastadas.

Na Cidade Compacta, a infraestrutura e os equipamentos urbanos são potencializados evitando-se o uso ineficiente do espaço e ainda longos deslocamentos. Retornando ao exemplo das áreas centrais dos municípios, poderemos compreender o conceito de Cidade Compacta, pois há infraestrutura de qualidade (transporte, comércio, serviços, cultura e agora cada vez mais habitação) com o cidadão podendo utilizar este espaço com maior eficiência.


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Essa situação também é mais sustentável, em especial pela diminuição dos deslocamentos e ainda pela não necessidade de aumentarmos a infraestrutura existente, como energia elétrica, água ou esgoto. Este conceito é muito recente e muitas metrópoles do mundo buscam, atualmente, aumentar a sua eficiência e conforto por meio da utilização plena da infraestrutura já existente.

Nesta discussão não podemos afirmar que um modelo supera outro de maneira impune. A urbanização estadunidense seria um ótimo exemplo de Cidade Dispersa, pois afinal seus paradisíacos subúrbios, com suas casas térreas, arborizados, pacatos e localizados a pelo menos 30 minutos de automóvel dos centros urbanos, é um dos modelos predominantes de muitas cidades dos Estados Unidos da América do Norte.

Estamos em um momento do Grande ABC que possuímos as duas tipologias convivendo em um mesmo território. Nossas cidades são mesclas territoriais de arranjos urbanos compactos e dispersos. As áreas centralizadas de Santo André, São Bernardo e Mauá comprovam conceitos de cidades compactas, mas a extensão de seus territórios possui claras evidências de cidade dispersas: as regiões periféricas carentes, a dificuldade de mobilidade, o atendimento público precário.

São Caetano do Sul e Diadema, com praticamente todo o território ocupado, extrapolam o conceito de cidade compacta se confinar unicamente aos conceitos fundantes dos termos; já Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, pelas suas características de áreas de proteção de mananciais, apresentam tímida malha urbana compacta e muita dispersão.


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Enfim, nossa região consegue conviver com os conceitos de Cidade Compacta e Cidade Dispersa e esta constatação pode ser uma oportunidade para melhorarmos nossas espacialidades, com muita reflexão e construção dessas possibilidades para sensibilização dos governos locais. Hoje pouco se discute sobre as vantagens e desvantagens desses dois modelos e os planos diretores municipais, que deveriam ser instrumentos que discutem qual cidade queremos no futuro, estão muito distantes dessa discussão.

Segundo dados da Fundação Seade, observamos que Santo André possui 3.951,99 habitantes por quilômetro quadrado. Sua territorialidade se estrutura em uma área urbana densa e concentrada em cerca de 50% do território convivendo com outra área de dimensões próximas mas com restrição de ocupação em função da proteção de mananciais. Este índice demográfico de Santo André equipara-se a cerca de 90% do mesmo índice para a cidade de Tóquio, com seus 4.400 habitantes por quilômetro quadrado. Ou seja, Santo André possui uma densidade próxima a de Tóquio com qualidade urbanística muito aquém.

São Bernardo do Campo, também com área urbanizada densa convivendo com os necessários vazios dos espaços da represa Billings e serra do mar, possui a densidade de 1.990,35 habitantes por quilômetro quadrado. Esse número é muito próximo ao de Nova York, com seus 1.800 habitantes por quilômetro quadrado. Note-se bem que este dado refere-se à toda área urbana das duas cidades. Se analisarmos somente Manhattan, esse índice ultrapassa os 27.000 habitantes por quilômetro quadrado. A territorialização de Nova York é extremamente mais eficiente que a de São Bernardo do Campo.


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São Caetano do Sul apresenta 9.857,21 habitantes por quilômetro quadrado, equivale à Seul, capital da Coreia do Sul, com seus aproximados 9.700 habitantes por quilômetro quadrado. Seul recentemente naturalizou o rio Cheonggyecheon, com um belíssimo parque e excluindo a poluição deste corpo d´água; em tempo, esse rio estava canalizado e retificado, tal qual o nosso esquecido Tamanduateí; esta intervenção demorou cerca de 5 anos para sua conclusão.

Diadema, com seus 13.198,70 habitantes por quilômetro quadrado, está próximo de Manila, nas Filipinas, que possui cerca de 14.100 habitantes também por quilômetro quadrado. Manila é considerada um dos mais promissores centros industriais e de serviços da Ásia. Indústria convivendo com cidade. 

Mauá apresenta 7.484,06 habitantes por quilômetro quadrado, muito próximo do município de São Paulo, cujo número é de cerca de 7.600 habitantes por quilômetro quadrado. Ribeirão Pires (com 1.204,47 hab/km²) e ainda Rio Grande da Serra (1.384,51 hab/km²) aproximam-se de Chicago com seus cerca de 1.300 habitantes por quilômetro quadrado. Sim, Chicago possui uma densidade muito próxima às nossas cidades do Grande ABC que, seja por opção ou por condição, melhor preserva o meio ambiente.

Esses números comprovam que podemos ter cidades com mais infraestrutura e qualidade mesmo com distintas densidades. A implementação de melhorais urbanas e espaços públicos de qualidade no Grande ABC que qualifiquem nosso modelo híbrido existente de cidade compacta e dispersa, depende de inúmeras ações em várias esferas, mas uma delas necessária seria de ações com caráter regional, e não somente local, enfrentando grandes temas que extrapolam territórios municipais, como habitação ou mobilidade. E a regionalidade, de tanto sucesso em vários locais, lamentavelmente ainda é um arranjo distante na agenda dos governantes dos municípios do Grande ABC.


Enio Moro Junior é pesquisador do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da Universidade Municipal de São Caetano do Sul e Gestor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Uscs