Sinal de amor

Se há algo a tirar do caso do menino Henry, é que devemos ouvir mais as crianças

Episódio do menino Henry é mais um daqueles que enche nossos corações de tristeza e revolta. E indigna ainda mais porque poderia ter sido evitado

CC.0 Domínio Público

Se ela lhe disser que não quer ficar sozinha com alguém. Ouça-a. Se lhe disser que não quer ir com determinada pessoa. Respeite-a. Não é implicância, revolta ou teimosia. É apenas um recado. Um recado que vem direto do seu coraçãozinho. Pois só ela sabe o que sente. O episódio do menino Henry, no Rio de Janeiro, é mais um daqueles que enche nossos corações de tristeza e revolta. E indigna ainda mais porque poderia ter sido evitado. As possíveis agressões eram recorrentes. Relatadas por ele e pela babá. A mãe, pelo que se pode depreender da troca de mensagens divulgadas pela imprensa entre ela e a babá, também tinha conhecimento. Assim como a avó materna.

Por que então não evitaram? Por que não atenderam ao pedido de socorro de Henry?

O padrasto, que para conquistar votos se apresentava como defensor da família, contra a ideologia de gênero, a favor da escola sem partido e apoiador fervoroso de Bolsonaro, claramente é um psicopata. Como reforçam depoimentos de outras namoradas. Perfil, aliás, muito presente entre os seguidores daquele outro psicopata e genocida.


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Mas e a mãe? O que a levou a aceitar e, de certa forma, a acobertar tal situação? Ameaças, medo, cumplicidade? Pelo que conhecemos até o momento não há indicativos de falta de amor ao filho por parte dela. Qual a dependência que justificaria tal comportamento por parte dela? Talvez nunca saibamos.

Contudo, se algo é possível tirar de ensinamento deste horrível crime é que devemos ouvir mais as crianças. Dar-lhes mais atenção. Compartilhar suas dores, suas dúvidas, suas descobertas, suas alegrias com a mesma atenção que dispensamos ao futebol, às novelas, aos livros, à vida alheia. Os signos, em palavras ou não, que elas usam para se comunicar são diferentes dos que nós, adultos, utilizamos. Mas são, desde que dispensemos um mínimo de atenção, tão eficazes quanto. Em alguns casos, até mais.  


Luiz Marinho é Presidente do PT/SP, foi presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e da CUT, ministro do Trabalho e da Previdência no governo Lula e prefeito de São Bernardo do Campo


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