Há 35 anos

Eleições de 1985 foram marco da redemocratização e da história política de São Paulo

Naquele pleito, paulistanos voltavam a escolher seu prefeito diretamente após 20 anos. Traços da campanha da época permanecem até os dias de hoje

Vera Jursys/Centro Sérgio Buarque de Holanda – CSBH/FPA
Comício de Eduardo Suplicy em frente à Assembleia Legislativa, na campanha de 1985

“É preciso salvar São Paulo, sobretudo das garras do marxismo-leninismo e do comunismo ateu.”

A frase acima poderia, pelo que vimos no primeiro debate entre os candidatos à prefeitura paulistana, de algum deputado estadual youtuber ou de uma parlamentar que já foi jornalista, mas o autor é Jânio Quadros, o candidato que venceu o pleito de 1985, o primeiro após 20 anos de prefeitos nomeados.

Com o Ato Institucional nº 3 (AI-3), de 1966, e o decreto-lei nº 5.449, capitais de estado, estâncias hidrominerais e cidades fronteiriças, considerados municípios de segurança nacional, passaram a ter seus prefeito indicados pelos governadores. O direito ao voto para estas cidades só voltou em 15 de novembro de 1985.

E retornou em um contexto bem diferente da eleição anterior, com inúmeros partidos na disputa, um total de 12 candidatos na capital paulista (um deles, Rogê Ferreira, do PSB, desistiu perto da reta final). Além disso, havia o horário eleitoral gratuito na rádio e na TV, com um tempo bem maior que o de hoje. O trabalho de boca de urna, mais tarde proibido, contava inclusive com “convocação” pública das legendas.

Àquela altura, o PMDB buscava nas urnas colher os frutos do processo de redemocratização e foi bem sucedido em 19 capitais. Mas não em São Paulo. A legenda lançou o então senador Fernando Henrique Cardoso, que durante toda campanha aparecia como favorito. Antes, o partido tentou costurar uma aliança com o PFL, dissidência da Arena que permitiu a vitória de Tancredo Neves no colégio eleitoral no mesmo ano. Contudo, a legenda se coligou com o PTB de Jânio e o PDS.

O quase novato Partido dos Trabalhadores lançou o economista e deputado federal Eduardo Suplicy, que havia se notabilizado em sua atuação na Câmara, em especial por conta das investigações do caso Coroa-Brastel, escândalo financeiro que envolvia desvio de recursos da Caixa Econômica Federal para aquela empresa. Sua vice era a deputada estadual Luiza Erundina, eleita prefeita na eleição seguinte.

As novidades do horário eleitoral

Sem redes sociais, boa parte da campanha, além do corpo a corpo, se baseava no horário eleitoral gratuito no rádio e na TV, agora sem as amarras da chamada Lei Falcão. Promulgada em 1976, ela passou a limitar a participação de candidatos, transformando o horário nas eleições municipais em mera apresentação de nomes com um locutor, sem possibilidade de se falar a respeito de propostas.

A lei foi batizada com o nome de seu criador, o ministro da Justiça durante todo o governo do general Ernesto Geisel (1974-1979), Armando Falcão. Ele fazia defesa aberta da censura aos meios de comunicação e era conhecido por sistematicamente responder a perguntas da imprensa com a frase “nada a declarar”.

A ideia da Lei Falcão era conter o avanço do MDB, mas o estopim que resultou em sua criação teria sido uma piada. No último programa das eleições parlamentares de 1974, após uma propaganda da Arena em que se tentava justificar o aumento da carestia, o deputado federal Getúlio Dias (MDB-RS) contestou a apresentação governista, de improviso, com a piada abaixo, conforme relato da Agência Senado:

“Um homem pesca seis peixes para o almoço, mas tem que devolvê-los ao rio porque sua esposa não havia conseguido comprar óleo nem gás para cozinhar. Ao mergulhar de volta na água, um dos peixes celebra: ‘Viva a revolução brasileira de 1964!’.”

Em 1984, a lei foi suspensa e as legendas puderam experimentar formatos e métodos de comunicação com a população a partir do ano seguinte. Jânio Quadros apostava em cativar o eleitorado conservador, já que era o único candidato com esse perfil que tinha chances reais. Para isso, lia notícias de jornais, volta e meia alegando perseguição da imprensa, e polarizava com Fernando Henrique, associando-o ao “comunismo” (o PCB e o PCdoB eram os dois partidos que compunham a aliança com o PMDB). Exaltava os valores morais e “da família”, e também apelava para a questão da segurança pública.

Já o PMDB se apresentava como o “Partido do Povo”. “Se nós derrubamos o autoritarismo em uma época difícil, não vai ser agora que nós não vamos derrubar o poder econômico, o poder dos banqueiros, o poder dos poderosos contra o interesses do povo”, bradava o então vice-governador Orestes Quércia em um dos programas.

Em especial nas últimas semanas da eleição, a legenda passou a apelar ao chamado voto útil, pedindo que eleitores de Suplicy abandonassem sua candidatura para apoiar o senador e evitar que Jânio chegasse à prefeitura. A deputada federal do PMDB, Bete Mendes, que havia sido uma das fundadoras do PT, leu uma carta de uma liderança religiosa na qual dizia que, mesmo petista, votaria em Fernando Henrique.

Havia ainda lances curiosos como a participação de Dias Gomes no horário eleitoral. Ele era autor da novela que fazia muito sucesso à época, Roque Santeiro, falando de uma pesquisa feita em Asa Branca, cidade imaginária em que a trama se passava. “Só quem votou em Jânio Quadros foi o beato Salu”, dizia

E, obviamente, não faltou Regina Duarte, a viúva Porcina de Roque Santeiro, invocando o medo e fazendo uma comparação indireta (ou nem tanto) de Jânio a Hitler.

No entanto, a estratégia do PMDB, bem ilustrada na fala da atriz global, tinha limites óbvios. Como destaca a cientista política Margaret Keck, no livro PT- A lógica da diferença, “a percepção da situação por parte do público havia mudado e Jânio Quadros, por mais que suscitasse controvérsias, não era visto como o equivalente do regime militar”. Já boa parte do eleitorado identificado com a candidatura de Suplicy demonstrava um cansaço em relação ao status quo, do qual o PMDB também fazia parte.

Na TV, a campanha petista agregava o bom humor a suas mensagens, experimentando formatos como o de mini-novelas. “Nós aprendemos que uma coisa é falar num comício para motivar os militantes e outra é falar na TV para uma dona de casa que você precisa convencer. E você não convence se não obrigá-la a continuar assistindo ao programa”, disse Lula a respeito da proposta do partido na TV, em entrevista à Folha de S. Paulo, em novembro de 1985.

Em um programa, por exemplo, Suplicy aparece, aparentemente exaltado, gritando “Nem carranca, nem chapa branca. Nem trambique, nem alambique. Nem forças ocultas, nem tão cultas!”, para em seguida, calmamente, dizer: “A nossa campanha não será assim, o povo já está cansado de tanta gritaria”.

Os partidos nanicos

Uma série de pequenos partidos, com possibilidade de acesso a rádio e TV, completaram o quadro eleitoral da disputa de 1985. Ali, podia-se contemplar desde a mensagem quase zen do Partido Humanista até a histrionia de candidatos conservadores.

Talvez o que mais tenha ficado na memória de quem viveu a época seja Rivailde Ovídio, do PSC. Centrando suas mensagens em críticas ao governo do estado, atacava os direitos humanos ao falar sobre a questão da segurança pública e destilava reacionarismo para, sempre, terminar sua participação questionando: “Onde está você, Franco Montoro?”, referência ao então governador paulista.

O postulante do PL, Ruy Côdo, ao mesmo tempo em que falava da ameaça das drogas às crianças, dizia que a iniciativa privada, “em especial a pequena e média empresa”, estava “cerceada pela estatização”. “Estão tramando, apostando na divisão e na destruição da sociedade para submeter o país a uma ditadura, agora de esquerda”, dizia, mostrando que a junção entre liberalismo econômico e autoritarismo é algo antigo na política nacional.

Francisco Rossi, que havia sido prefeito de Osasco pela Arena, tentava chegar à prefeitura pelo seu Partido Comunitário Nacional (PCN). Terminou em quarto lugar, com 1,63% dos votos, melhor desempenho entre os partidos pequenos. E deixou para a posteridade o jingle que repetia seu nome cantado por um coro infantil.

Falando em jingle, não se pode esquecer José Maria Eymael, do Partido Democrata Cristão (PDC). Foi pela primeira vez candidato a prefeito de São Paulo em 1985, já com seu indefectível “Ey-Ey-Eymael, um democrata cristão”.

Vitória de Jânio

Contrariando as pesquisa, inclusive uma de boca-de-urna do Datafolha, Jânio Quadros venceu a eleição com 37,53% dos votos, seguido de Fernando Henrique, com 34,16%. Eduardo Suplicy teve uma votação exitosa para o PT, com 19,75%, evidenciando uma conjuntura favorável ao crescimento da legenda nas eleições seguintes.

“Com uma única exceção, o partido apresentou candidatos em todas as capitais dos estados e ganhou mais de 5% dos votos em doze deles (e mais de 3% em dois outros). Sua candidata Maria Luiza Fontenelle foi eleita em Fortaleza, capital do Ceará e quinta maior cidade do Brasil, e o partido perdeu por um fio as eleições em Goiânia. Os candidatos do PT também chegaram em segundo lugar em Vitória, no Espírito Santo, e em Aracaju, Sergipe”, destaca a cientista política Margaret Keck em seu livro.

Para muitos, um dos fatores determinantes para a derrota do PMDB foi o último debate da TV entre os candidatos á prefeitura paulistana, realizado em 12 de novembro. Ao ser perguntado pelo jornalista Boris Casoy, então na Folha de S. Paulo, se acreditava em Deus, FHC hesitou, como mostra o trecho abaixo:

Boris Casoy – Senador, o sr. acredita em Deus?

Fernando Henrique Cardoso – Essa pergunta o sr. disse que não me faria.

Casoy – Eu não disse nada.

Fernando Henrique – Perdão, foi num almoço sobre este mesmo debate.

Casoy – Mas eu não disse se faria ou não.

Fernando Henrique – É uma pergunta típica de alguém que quer levar uma questão íntima para o público, que quer usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique Cardoso, que não está em jogo. Devo dizer ao deputado (sic) Boris Casoy que esse nosso povo é religioso. Respeito a religião do povo e, na medida em que respeito as várias religiões do povo, estou, automaticamente, abrindo uma chance para a crença em Deus.

O triunfo do petebista também ressaltava a força do janismo na capital paulista em determinadas áreas da capital paulista. O sociólogo Antônio Flávio Pierucci lembrava no artigo A direita mora no outro lado da cidade que, acompanhando a trajetória de Jânio desde a eleição para prefeito em 1953, “Maria Teresa Sadek R. de Souza chama a atenção para a surpreendente permanência geográfica do voto janista, apesar das importantes transformações na composição socioeconômica das populações residentes nesses bairros”.

“O retrospecto da trajetória política de Jânio Quadros não permite afirmar que estamos diante de uma liderança com bases preponderantemente populares, se entendermos por isso o apoio dos estratos mais baixos da população. Os resultados mostram que sua base social desloca-se ao longo do tempo dos setores populares para as classes médias (…) [Tal] mudança (..:) não significa, porém, que tenha havido uma correspondente alteração nas bases geográficas do janismo. Ao contrário, é possível constatar que a distribuição espacial dos votos de Jânio Quadros é praticamente a mesma desde os anos 50”, disse Maria Teresa Sadeck. Jânio tinha menos votos nos bairros mais ricos e também nos mais pobres e periféricos.

Boa parte do espólio janista passaria a Paulo Maluf nas eleições seguintes, em que a polarização se daria com o PT. O PSDB só conseguiu chegar à prefeitura justamente com o ocaso do malufismo, passando a adotar um discurso e prática mais à direita, cativando parcelas desse eleitorado. Mas isso já é outra história…

Para terminar, o jingle da campanha de FHC nas eleições de 1985, uma versão de Vai Passar, de Chico Buarque, adaptada para Vai Ganhar. Em 1989, o cantor e compositor declarou seu apoio a Lula e, mais adiante, foi crítico do corte neoliberal dos governos de Fernando Henrique Cardoso.