Desenvolvimento em foco

As eleições municipais de 2020 e a covid-19

Nesse período pré-eleitoral, muito mais importante que se avaliar a intenção de votos, é avaliar as atuais administrações municipais

Mário Oliveira/SEMCOM

Na 13ª Carta de Conjuntura da USCS, tratei do tema das eleições municipais e a covid-19 (íntegra aqui). Volto ao tema aqui na Rede Brasil Atual. Ao avaliar pesquisas eleitorais, publicadas na imprensa ou contratadas, os políticos em geral e candidatos têm seus olhos voltados basicamente à intenção de votos, medida de forma espontânea e estimulada. Nesse período pré-eleitoral, muito mais importante que se avaliar a intenção de votos, é verificar, analisar e se aprofundar na avaliação da administração. Em eleições locais, o eleitor move-se, na hora do voto, pela avaliação da administração. É, sem dúvida, a evolução desse quadro que mais interessa e que deve ser de fato analisado com cuidado.

Segundo estudos empíricos feitos por alguns institutos de pesquisa, a partir de observações de um grande número de trabalhos feitos por estes institutos, em eleições em que o prefeito é candidato à reeleição, cerca de 85% de quem avalia um governante positivamente tende a votar nesse candidato, assim como 35% de quem o avalia como regular.

Pandemia

O ano de 2020 – em que as eleições municipais têm o primeiro turno marcado para o dia 15 de novembro – começou com notícias vindas da China sobre uma estranha doença. Rapidamente, o coronavírus se espalhou por todo o mundo. Mesmo que em proporções diferentes, os governantes de quase todos os países a enfrentaram com todas as suas armas possíveis.

O quadro observado aqui no Brasil foi muito diferente dos outros países. Desde o início da pandemia do novo coronavírus, o governo federal minimizou a gravidade da covid-19 e passou à população mensagens que contradizem as orientações das autoridades de saúde.

É oficial: Brasil passa dos 100 mil mortos pela covid-19

Desde o início, as declarações e as ações do presidente têm ajudado a criar na população brasileira uma grande confusão, tornando problemática a política de combate ao vírus no Brasil. O fato é que o governo federal abriu mão de seu papel constitucional de coordenação e condução do esforço nacional de combate à covid-19, com evidentes prejuízos à capacidade do pais em reduzir os impactos da doença.

Com a postura do governo federal de minimizar a pandemia, e com a decisão do STF de dar autonomia a estados e municípios para as ações de enfrentamento, coube a eles, a responsabilidade pelo combate à praga. E foi o que a grande maioria dos governadores e prefeitos passou a fazer.

Primeira impressões

Fecharam o comércio e outras atividades econômicas, escolas, atividades de cultura e lazer; exigiram a utilização de máscaras, garantindo ao menos um menor avanço do coronavírus nos seus estados e municípios. Essa postura de governadores e de prefeitos contou sem dúvida com o apoio da enorme maioria da população brasileira, conscientes da gravidade da covid-19, mesmo reconhecendo o impacto econômico das medidas tomadas.

Neste contexto, todas as pesquisas realizadas pelos principais institutos de pesquisa pelo país apresentam um resultado bastante semelhante ao se avaliar a atuação de prefeitos, governadores e do presidente em relação à covid-19. Destaco: prefeitos em geral melhor avaliados que os governadores; prefeitos e governadores muito melhor avaliados que a ação do governo federal. Isto, mesmo entre aqueles que avaliam no geral positivamente a gestão do presidente (o que tem se mantido no patamar de 30% a 35% pelo país).

Não se deve esquecer que, inicialmente, a tentativa de algumas forças políticas foi buscar estender o mandato dos atuais prefeitos por dois anos. No final do mês de junho, foi aprovado o adiamento do primeiro turno das eleições, de 4 de outubro para 15 de novembro.

Temos observado, em praticamente todos os municípios em que o ABC Dados vem realizando pesquisas, bem como no que tange às outras pesquisas publicadas na imprensa, uma importante reversão na intenção de votos nas eleições municipais, com um grande avanço da maioria dos atuais prefeitos na corrida eleitoral.

Reversões

Esse quadro, por exemplo, pode ser observado em pesquisas publicadas relativas à cidade de São Paulo. O prefeito Bruno Covas amargava uma posição secundária na corrida eleitoral meses atrás. Membros do seu partido consideravam inclusive a substituição de seu nome, ou mesmo o apoio a um candidato de algum partido aliado.

Podemos lembrar, entre outros nomes que foram considerados como alternativas ao nome de Covas, o deputado federal Celso Russomano e a deputada Joice Hasselmann. A partir de março-abril, com a publicação de pesquisas que mostravam a melhoria da avaliação municipal, a liderança de Bruno Covas na intenção de votos, motivado pela avaliação de gestão, consolidou seu nome como candidato.

Essa mudança se explica, sem dúvida, pelo avanço da avaliação das gestões municipais, em função de suas atuações no combate ao coronavírus. Gestões municipais mal avaliadas têm conseguido avaliações regulares. Governos municipais com avaliações regulares têm alcançado avaliações positivas e aqueles com avaliação positiva atingem níveis ótimos.

Por exemplo, duas gestões municipais que foram objeto de pesquisa do ABC Dados, e que meses atrás tinham avaliações de pouco mais de 50% de ótimo e bom, atingiram níveis de 70 a 80% de avaliações positivas (ótimo + bom) e menos de 10% de avaliações negativas de gestão (ruim + péssimo), com as consequências já citadas na corrida eleitoral.

Mesmo, sem conhecimento de todo o universo de pesquisas realizadas, arriscamos dizer que, neste momento (lembrando que a pesquisa é o retrato do momento), a três meses e meio das eleições, em municípios em que prefeitos tenham tido uma atuação consciente no combate ao coronavírus, a grande maioria deles candidatos à reeleição, encontram-se em situação superior aos seus adversários na corrida eleitoral.

Centro do debate

A dúvida é se esse quadro se manterá até as eleições, fazendo com que os atuais prefeitos se apresentem como grandes favoritos da corrida eleitoral.

A inércia do processo sem dúvida os favorece. Para a reversão desse quadro, as forças de oposição às atuais gestões necessitam com urgência mudar a pauta das discussões. E colocar as questões da crise no centro do debate, sem que isto seja associado ao protagonismo dos atuais prefeitos.

Tratando desse tema, a empreendedora cívica Lona Szabo de Carvalho em artigo da Folha de S. Paulo de 15 de julho, “As cidades do pós-pandemia. Aprendizados da crise da covid-19 ficarão claros nas eleições municipais”. Alertam que os participantes da corrida eleitoral terão de lidar com as questões de saúde, educação, trabalho, moradia e transporte que foram agravadas.

Concluindo, neste momento, o quadro parece muito favorável à maioria dos atuais prefeitos. Cabe aos seus opositores colocar na pauta das eleições, as questões que a crise da covid-19 nos coloca.

Claro que os atuais prefeitos podem (e devem) sair de suas posições mais confortáveis e buscar também essas novas respostas.


Mauricio Mindrisz é um dos proprietários do ABC Dados Pesquisa e Planejamento. É pesquisador convidado do Observatório de Conjuntura da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (Conjuscs). Foi superintendente do Semasa – Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André – e vice-presidente e presidente da Fundação ABC.


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