Segregação

Obituário da covid-19 pode revelar projeto de descarte do governo

Observatório dos cemitérios é projeto que se impõe para mostrar a verdade frente à má administração da pandemia por parte do governo federal

Alex Pazuello/Semcom
São dois estádios de Itaquera, a Arena Corinthians, de mortos. Cada um com seus sonhos interrompidos e famílias destruídas

A necessidade de um observatório de cemitérios para termos acesso à verdade sobre as mortes pela covid-19 é um projeto que se impõe frente à má administração da pandemia por parte do governo. 

Somente um novo obituário, que registrasse todos os dados distintivos das vítimas, nos daria a dimensão exata da mortalidade, e da seletividade na administração da cura ou da morte. 

As professoras Liliana Sanjurjo, Larissa Nadai e Desirée Azevedo, em seu texto, publicado em Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social – RJ – Reflexões na Pandemia 2020, com o título “Corpos, tempo em instituições: um olhar sobre os cemitérios na pandemia de covid”; citam o artigo que escrevemos na RBA, em 24/04/2020, no qual já analisamos o assunto.

Elas falam da necessidade de “Um novo obituário que não se limite ao escrito e regulado por força de resoluções, manuais, protocolos e circulares, mas invista em desvelar as camadas de arranjos, agenciamento e efeitos sobrepostos entre as diversas esferas de regulação e as inúmeras instituições que concebem variações emergenciais ao administrar, categorizar, hierarquizar, manejar e fazer circular copos contaminados.”

“É preciso olhar para as dinâmicas estabelecidas entre elas, iluminando os mecanismos por meio dos quais as desigualdades e o racismo são naturalizados e reproduzidos, afirmando-se como dimensões centrais de um modo de gestão da pandemia, que se sustenta articulando a política de morte e contaminação massiva ao maquinário do descarte.”

Elites e o descaso

O novo obituário deixaria claro, muito provavelmente, toda a malignidade da segregação social e racial, que é o modo operante de toda a política pública capitaneada pela elite, tenha a especificidade que tiver.

Por trás da má administração está mais do que o descaso governamental, mais do que a limitação dos recursos de saúde, está um projeto de descarte. Isso fala do Brasil muito mais do que gostaríamos de saber.