Ariovaldo Ramos

Em tempos de pandemia e negacionismo, precisamos de um observatório dos cemitérios

Com Bolsonaro, a pandemia virou questão ideológica, a verdade virou luxo proibido e cada cidadão ou cidadã morta por coronavírus virou mero detalhe

Arquivo EBC
Mortes pela covid-19 continuam crescendo na capital paulista, mas de forma desigual entre a periferia e os bairros ricos da cidade

A pandemia, aliada à subnotificação sobre a covid-19 – aliado do negacionismo –, cria um novo campo de pesquisa: o observatório dos cemitérios e das casas funerárias.

Quantos enterros por dia, quantos coveiros, quantas casas funerárias, quantos sacos para transporte de corpos, quanta mudança de infraestrutura no serviço funerário?

Por exemplo, há a notícia de que a prefeitura de São Paulo pretende contratar 220 coveiros, se preparando para 400 enterros dia; abriu 13 mil covas, mil túmulos verticais; programou a compra de 38 mil urnas funerárias, vai abrir funerárias em hospitais municipais – é um plano de contingência.

Por que a necessidade do observatório? Por causa da subnotificação, fruto da insuficiência aguda de testes para a detecção da infecção.

E porque o governo quer que a imprensa diga coisas boas, positivas.

Porque a Casa Grande, como dito pelo ex-ministro da saúde, quer que o engenho volte a funcionar.

E porque o presidente quer fazer valer, a todo custo, a sua tese de que a covid-19 não passa de uma gripezinha, de um resfriadinho.

Parece que, contrariando o ditado, estamos caminhando para a sentença de que quem disser a verdade se tornará merecedor de castigo.

Então, para saber a verdade, teremos de criar o observatório dos cemitérios e das casas funerárias.

A verdade liberta

Em outras palavras, teremos um trabalhão se quisermos saber a verdade!

Além do que, temos de estar preparados para a verdade não causar impacto algum. Senão vejamos, com Manaus abrindo vala comum para enterrar os seus mortos e cidades que liberaram o povo da quarentena e permitiram a reabertura dos shoppings e demais comércios.

Claro que essa reabertura não surtiria nenhum efeito se, simplesmente, as pessoas não fossem, porque, no final das contas, tudo se resume ao consumidor, se as pessoas se conscientizassem do risco não iriam e pronto. Mas, foram, e aos borbotões!

É a isso que se presta a fala do governo para que a imprensa publique coisas boas, ou a falta de testes, uma vez que o Brasil é o país que menos testagem realiza entre os 15 países com maior número de casos.

Teremos, também, de estar atentos para as análises estatísticas de institutos como o Fiocruz, como a que mostra que mortes por coronavírus dobram a cada cinco dias no Brasil, taxa maior do que a estadunidense, a equatoriana, a italiana e a espanhola.

Tudo isso porque, no Brasil, o trato da pandemia virou questão ideológica, e a verdade se tornou um luxo proibido, e, assim, cada cidadão ou cidadã morta por coronavírus, virou um mero detalhe, um efeito colateral.

Temos, entretanto, independentemente das tramas hediondas, de correr atrás da verdade, pois, como o presidente gostava de dizer: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (JC).


Ariovaldo Ramos é coordenador nacional da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e apresentador do programa Daqui pra Frente, aos sábados, às 11h, na TVT