lições do passado

Só a articulação de negros com forças democráticas vai impedir que o ovo da serpente prospere

Racismo e fascismo em gestação no país faz resgatar filme de Ingmar Bergman que mostra como esse problema assolou a Alemanha na Segunda Guerra

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Atores em cena: mecanismos experimentais são testados em um cenário econômico na Alemanha, no qual havia alto índice de desemprego e concentração de renda

No cenário político atual, a incubadora da gestação do ovo da serpente fascista e racista contra o negro foi ligada na plenitude de sua energia. Nestes tempos sombrios, não há como não trazer à tona a formação do sistema político autoritário, descrito pelo diretor sueco Ingmar Bergman (1918 – 2007) no filme de 1977, O Ovo da Serpente. Bergman retrata Berlim em 1923, quando na Alemanha as relações sociais são permeadas e construídas pelo espírito do tempo nazista, que viria a assolar e dominar a Alemanha de 1933 a 1945.

Nesse período, houve a sedimentação do sistema político totalitário nazista, que não só devastou a Europa durante a Segunda Guerra Mundial como foi um dos momentos da eliminação de judeus, ciganos, migrantes, negros e homossexuais, e toda e qualquer pessoa que não atendesse os padrões da “raça” ariana branca e pura. Devaneio este personificado na figura do ditador político alemão Adolf Hitler (1889-1945).

Desde o golpe parlamentar de Estado contra a presidente Dilma Rousseff em 2016, passando pela prisão do ex-presidente Lula em 2018, os fascistas e racistas brasileiros, sustentados pelos donos de capital nacional e internacional, deflagraram uma caçada às políticas públicas de inclusão e inserção das comunidades negras na sociedade brasileira.

O discurso do presidente da República, então candidato, instigando o ódio racial contra as comunidades negras, afirmando o estereótipo de que o negro é indolente e preguiçoso, a ser pesado por arroba como um animal, é a senha para que o espírito do tempo fascista e racista no Brasil seja encontrado no ovo da serpente das políticas fascistas/racistas em desenvolvimento.

E possui como consequências o fim das demarcações das terras permanecentes quilombolas; e a obliteração das políticas de cotas de ingresso por parte de negros e negras às universidades públicas federais, aos serviços públicos e outras ações de políticas públicas afirmativas. Todas essas são políticas com as quais os negros teriam no horizonte, presente e futuro, seu passado de 300 anos de escravidão sendo reparado. Mas, contrariamente, esse reparo agora está sendo aniquilado.

O mais grave crime racista e fascista contra a comunidade negra é a utilização da ideia partidária denominada “escola sem partido” para pressionar o Executivo a interromper a implementação das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que possuem o objetivo do ensino da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena na estrutura do sistema educacional formal no Brasil.

É importante que as diversas comunidades negras, em diversos segmentos, estejam prontas para o enfrentamento contra o sistema político totalitário e excludente de negros, pobres, comunidades indígenas, comunidades lgbtqi+ que ora está em construção na sociedade brasileira.

De volta ao filme, em determinado momento o cientista explica ao personagem atordoado vivido pelo ator (David Carradine) que não compreende naquele tempo histórico que as experiências ora desenvolvidas servirão para testar no limite da pressão e do terror as pessoas fortes que poderiam sobreviver para a criação de uma nova humanidade, para um novo tempo, em que os fracos seriam todos eliminados.

Os mecanismos experimentais são testados em um cenário econômico na Alemanha no qual havia alto índice de desemprego, concentração de renda por parte da elite, recessão econômica, tecido social esgarçado, população alemã desencantada com a vida, sem esperanças ou perspectivas de futuro; cenário ideal para que o Führer Adolf Hitler, liderasse por meio do partido nacional socialista alemão a política de eliminação dos inimigos internos e externos do povo, que havia sofrido uma acachapante derrota na primeira guerra mundial.

Os mecanismos políticos nazistas ora em gestação eram construídos dentro da própria sociedade republicana alemã. Estes mecanismos políticos poderiam ser representados como um embrião de uma serpente em desenvolvimento que poderia ser observado por meio da fina membrana do ovo colocado pela serpente.

O ovo da serpente pode ser a representação da sociedade alemã que se alimentava pelo ódio. Este mesmo embrião quando rompesse a fina membrana do ovo e surgisse finalmente, poderia muito bem ser o corpo nazista que devoraria a cultura, a economia, a educação, a política e a democracia, estabelecendo finalmente um novo regime totalitário que se pretendia fazer valer por mais de mil anos.

Com esta possível perspectiva emergente, faz-se urgente que, assim como a organização e a reação das forças sociais livres e democráticas puderam derrotar o nazifascismo, urge que se mobilize uma aliança, articulação, organização e reação das comunidades negras em conjunto com as forças democráticas da sociedade civil para efetivar o enfrentamento contra o fascismo racista que ora germina no Ovo da Serpente fascista no Brasil.


Osvaldo José da Silva é doutorando em Ciências Sociais e membro do Observatório do Racismo da PUC-SP