defesa da saúde pública

Eu vi colegas morrerem de ebola! Profissionais de saúde não devem se tornar mártires do coronavírus

Nós vamos ser o grupo mais afetado por esse surto. Governos devem enterrar a austeridade para garantir cuidados adequados com suficientes e bons recursos

Reprodução OMS
Crise de ebola na Libéria já mostrava a necessidade de fortalecer o sistema público de saúde

Na noite em que milhares de pessoas vão às janelas de suas casas para aplaudir e homenagear os profissionais de saúde que lutam contra o coronavírus, a RBA publica texto do enfermeiro liberiano George Paul Williams, que lutou contra a crise de ebola na África e dá seu testemunho inconteste de que medidas de austeridade fiscalista, como a Emenda Constitucional 95, que impõe teto de gastos em áreas que afetam diretamente a vida da população, só vai levar os países para o abismo da crise na saúde pública, só podem levar ao colapso do sistema de saúde.

Em tempos em que, de um lado, um presidente da República chama a pandemia de coronavírus de “gripinha”, e de outro a sociedade se levanta pelo fortalecimento do SUS e das condições de trabalho dos profissionais de saúde, pela revogação do teto de gastos, vale a leitura.


Por George Paul Williams

Imagine ser forçado a fazer escolhas impossíveis sobre quem vai ser tratado e quem deixar morrer. Imagine voltar para casa, para a sua família, sabendo que você possa estar pondo-os em risco.

Essas são as horríveis situações que nós, trabalhadores da saúde, enfrentamos lidando com o surto de ebola em 2014 na Libéria. Para mim, a maior tragédia é ouvir histórias similares surgindo dos colegas ao redor do mundo que enfrentam o coronavírus; me aterroriza ver que os sistemas de saúde dos países desenvolvidos estão quebrando – odeio imaginar o que esse vírus pode fazer em breve na minha região.

Nós, trabalhadores da saúde, não somos heróis. E não devemos nos tornar mártires no trabalho. Nós somos profissionais. Nós precisamos de equipamentos de proteção pessoal para que possamos manter-nos saudáveis enquanto salvamos vidas. Nós precisamos de sistemas públicos de saúde adequados, suficientes e com recursos. Nós precisamos de forte financiamento público para o setor.

A triste realidade é que o sistema público de saúde é insuficiente, subfinanciado, abalado – e privatizado ou terceirizado. O fracasso desastroso das políticas de austeridade está exacerbando a tensão desse surto no nosso setor – e com impacto mortal.

Quebrados, sistemas de saúde com fins lucrativos são simplesmente incapazes de responder efetivamente a crises como o ebola ou o coronavírus. Nos EUA, muitos com o vírus não tinham acesso adequado a assistência médica e correram o risco de acentuar a propagação. A única saída para podemos enfrentar esse surto é através de uma resposta massiva da saúde pública, dirigida pelo governo – otimizada pelo estabelecimento de um sistema universal de saúde.

Durante a crise do ebola, meu sindicato lutou com unhas e dentes por equipamentos de proteção pessoal para trabalhadores – ainda cronicamente subfinanciado e obteve como resultado a condicionalidade do empréstimo do FMI e do Banco Mundial, o que significava que recursos necessários simplesmente não estavam disponíveis. A doença acabou matando mais de 8% da força de trabalho da saúde no país. Muitos dos meus camaradas morreram na luta.

Na sequência, eu conheci trabalhadores em todo o mundo pela federação sindical global Internacional dos Serviços Públicos para lutar por sistemas de saúde pública mais resistentes. Nossa campanha Salvar Trabalhadores é Salvar Vidas chamou governos para aumentar o financiamento e garantir que trabalhadores não sejam sacrificados na luta quando as emergências de saúde pública aumentam.

Infelizmente, nossas chamadas foram amplamente ignoradas. E agora o pior está vindo. Nós, trabalhadores da saúde, vamos ser o grupo mais afetado pelo surto desse vírus. Muitos de nós vão morrer, nossas famílias vão ser abandonadas.

Muitas das mortes poderiam ter sido evitadas. Nesses tempos, precisamos aprender. Governos precisam aumentar massivamente o financiamento para sistemas públicos de saúde. É hora de enterrar a austeridade de uma vez por todas. Nunca a necessidade de bom financiamento e de um sistema de saúde pública resistente foi mais explícita.

George Poe Williams é enfermeiro e membro do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Saúde da Libéria, entidade filiada à Internacional de Serviços Públicos