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Diversidade nos governos neoliberais

Com a vitória eleitoral de Bolsonaro em 2018, a herança deixada por Temer parece que não foi interrompida
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11:28
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Wilson Dias/Agência Brasil
Temer e Bolsonaro

Primeiras iniciativas apresentadas por Bolsonaro é a ampliação do patrocínio da globalização neoliberal de Temer

A virada para o atual século trouxe conjuntamente com a ascensão da globalização, a reorganização e atuação do campo ideológico da direita. A sequência da desconstituição da longeva experiência de socialismo real na Europa oriental foi o esvaziamento de experimentos importantes nos governos com características social-democratas na Europa ocidental, o que pareceu apontar para uma espécie de convergência de políticas públicas com menores graus de liberdade impostos pela globalização.

As tentativas de ampliação da governabilidade das políticas públicas para além do espaço nacional chegaram até a União Européia que passa atualmente com novos problemas impostos pela complexa saída da Inglaterra. As iniciativas de grupos de países (G-7, G-20 e outros) se apresentam pontuais e muito limitadas, ainda que o experimento dos Brics conseguisse estabelecer gradualmente alguma referência alternativa para a governança supranacional. 

Em contraposição, as instituições constituídas no imediato segundo após guerra pelas Nações Unidas permanecem relativamente estagnadas e com dificuldades crescentes para atuar no reino das grandes corporações transnacionais. Do lado do Fórum Econômico Mundial observa-se uma espécie de senado das grandes corporações transnacionais exporem suas vontades aos governantes alinhados e defender o aprofundamento da globalização excludente e geradora de concentração extrema de riqueza e poder.

Nesse contexto que o campo ideológico da direita parece ter produzido novo alinhamento que pode ser decomposto em dois tipos atuação. De uma parte, as experiências de governos que patrocinam a globalização neoliberal, mas buscam respeitar a democracia e os valores humanos civilizatórios.

De outra parte, os experimentos mais recentes de governos que emitem postura contra a globalização neoliberal. De maneira geral, o nacionalismo apregoado se fundamenta nas práticas do protecionismo, geralmente descomprometidas do devido respeito à democracia e aos valores humanos civilizatórios.

O Brasil também registrou a experiência de governos que no campo ideológico da direita patrocinaram a globalização neoliberal, defendendo a democracia e os valores humanos civilizatórios. Isso é o que se pode apreender do período governamental dos “Fernandos” entre os anos de 1990 e 2002.

Após mais de uma década de governos de centro esquerda, o país passou a conviver novamente com a ascensão de governos no campo ideológico da direita. Inicialmente, a interrupção arbitrária do exercício do mandato da presidenta Dilma em 2016, possibilitou o retorno de um governo comprometido com a globalização neoliberal, porém desprovida do respeito à democracia e à defesa dos direitos humano civilizatórios.

Diversas iniciativas nesse sentido foram constatadas com reformas antipopulares e de proteção a ricos e poderosos. A implantação do plano Ponte para o futuro do governo Temer se mostrou negativo ao país, com uma série de fracassos registrados em termos econômicos, sociais e políticos.

Com a vitória eleitoral de Bolsonaro em 2018, a herança deixada por Temer parece não foi interrompida. Pelo contrário, o que já aponta o conjunto das primeiras iniciativas apresentadas é a ampliação do patrocínio da globalização neoliberal e o maior descomprometimento da democracia e dos valores humanos civilizatórios.

Por conta disso, a experiência no campo ideológico da direita desde 2016 tende a se distinguir dos governos neoliberais dos anos de 1990. Isso porque as iniciativas tomadas assentam-se no estímulo a globalização neoliberal, porém acompanhadas de limites à democracia e ao avanço humano civilizatório.

* Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)