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Análise

Papel(ão) do Brasil nos Brics, por Paulo Nogueira Batista Jr.

No período 2015-2018, aconteceu um eclipse do Brasil. E um Brasil ativo faz falta. Percebe-se perda de dinamismo e qualidade dos Brics. Isso pode mudar, a depender das eleições brasileiras
por Paulo Nogueira Batista Jr., vida CartaCapital publicado 06/08/2018 10h45
No período 2015-2018, aconteceu um eclipse do Brasil. E um Brasil ativo faz falta. Percebe-se perda de dinamismo e qualidade dos Brics. Isso pode mudar, a depender das eleições brasileiras
Cesar Itiberê/PR/Agência Brasil
Temer nos Brics

Governo Temer tem protagonizado cenas humilhantes em reuniões do bloco, hoje protagonizado pela China

CartaCapital – A recém-realizada cúpula dos líderes dos Brics, na África do Sul, marca 10 anos de existência do grupo. O processo começou em 2008, por iniciativa da Rússia, que procurou Brasil, China e Índia – a África do Sul só se juntaria ao grupo mais tarde – para propor atuação conjunta.

No FMI, onde eu era o diretor executivo pelo Brasil, as cadeiras do Brasil, Rússia, Índia e China começaram a coordenar-se sistematicamente em diversos temas. O mesmo aconteceu no âmbito do G-20 e das capitais.

Os ministros das Finanças e presidentes do Banco Central passaram a se reunir regularmente. Os líderes – os presidentes e, no caso da Índia, o primeiro-ministro – passaram a realizar cúpulas anuais, a primeira na Rússia, em 2009.

Desde 2011, por inciativa brasileira, eles vêm-se encontrando, também, à margem das cúpulas do G-20. Assim, desde aquele ano, os líderes dos cinco países reúnem-se duas vezes por ano – e todos os cinco comparecem sempre.

Até 2017, participei da maioria dessas reuniões, no âmbito do FMI, do G-20 e do próprio processo Brics, e posso dar testemunho da importância que os Brics adquiriram. Logo foram percebidos como contraponto ao G-7, o grupo dos principais países desenvolvidos.

Com a aguda crise econômica que atingiu os EUA e a Europa em 2008, os Bric (ainda sem a África do Sul) foram rapidamente reconhecidos como instância de interlocução pelos demais países. O secretário do Tesouro dos EUA, Tim Geithner, chegou a pedir, em duas ocasiões, para participar das reuniões ministeriais dos Brics. Fato insólito, que reflete a fragilidade dos EUA na fase mais aguda da crise de 2008-2009.

Qual foi o papel do Brasil nos Brics? Não pense, leitor, que vou puxar a brasa para a nossa sardinha. Posso dizer, tranquilamente, que o Brasil foi o motor dos Brics. Dos cinco países o nosso era o que mostrava ter mais iniciativa e capacidade de formulação. Isso culminou na cúpula dos Brics de Fortaleza, em 2014, que foi, no meu entender, a mais importante das dez cúpulas realizadas até agora.

Na ocasião, foram assinados os acordos de que levaram à criação do fundo monetário dos Brics, chamado de Arranjo Contingente de Reservas, e o banco dos Brics, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD). Com o estabelecimento de mecanismos de financiamento, a cooperação entre os Brics alcançou novo patamar. Não teríamos chegado a esse ponto sem a atuação do Brasil, particularmente dos ministérios da Fazenda e das Relações Exteriores.

As condições mudam a partir de 2015. O governo Dilma mergulha na crise que levaria ao impeachment e o Brasil perde capacidade de atuar. Com o governo Temer, o problema se agrava. O Brasil continua presente nos Brics, mas já não tem o mesmo peso e nem exerce a mesma influência.

A atuação do governo Temer nos Brics, como em quase tudo mais, tem sido marcada pela mediocridade. Permita-me, leitor, contar um episódio revelador. Aconteceu na cúpula de 2017, que foi em Xiamen, na China. Eu ainda era vice-presidente do NBD e estava lá. Na véspera da cúpula, os presidentes Temer e Zuma, que já haviam chegado a Xiamen, foram convidados pelo presidente Xi Jinping para um evento com empresários.

Eis o que presenciei. Toca uma música solene e os presidentes adentram o recinto. O presidente chinês na frente e o brasileiro e sul-africano atrás, como dois vassalos. Xi Jinping fala primeiro, por cerca de 40 minutos, e em seguida o protocolo anuncia que ele não poderá ficar para ouvir os discursos dos outros presidentes. Para completar a cena humilhante, volta a ressoar a música solene, e Xi Jinping se retira, seguido novamente pelos outros dois presidentes! Foi um papelão.

No período 2015-2018, aconteceu um eclipse do Brasil. E um Brasil ativo faz falta. Percebe-se certa perda de dinamismo e qualidade dos Brics. O NBD, principal realização do grupo, tem pouco a mostrar nos seus três primeiros anos. A China está cada vez mais atuante, mas ela tem agenda estreita e “self-serving”, como observou graduado diplomata com quem conversei semana passada em Brasília.

Tudo isso pode mudar, a depender das eleições brasileiras. O novo governo brasileiro exercerá a presidência de turno dos Brics em 2019. E indicará o novo presidente do NBD em 2020. O Brasil terá a oportunidade de destravar o banco e revigorar o processo Brics.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos Brics em Xangai, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países. E-mail: [email protected] Twitter: @paulonbjr