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Marcha do Orgulho Trans de São Paulo: o que e a quem representou?

Em busca de maior protagonismo na luta por direitos e por sentirem-se até invisíveis dentro do próprio movimento LGBT, coletivos trans se organizam, chamando a atenção para suas demandas específicas

Paulo Pinto/APT/Fotos Públicas
trans

Desde a semana passada o dia primeiro de junho é uma data histórica para a população trans e travesti do país. Foi neste dia que, na cidade de São Paulo, foi realizada a 1ª Marcha do Orgulho Trans, organizada pelo Instituto Brasileiro de Transmasculinidade (IBRAT), pelo Hip Hop Mulheres e pelo Ssex Bbox. Tendo em vista, porém, que a 22ª Parada do Orgulho LGBT ocorreu dois dias depois, talvez @ [email protected] se pergunte sobre qual o sentido da realização de uma caminhada para o público trans, já que esse se encontra “presente” no movimento LGBT.

A realidade da população trans é marcada por singularidades. Apesar de unir forças com os outros grupos sociais que compõem a sigla LGBT, algumas das principais demandas de travestis e transexuais são bastante específicas: hormonoterapia e cirurgias plásticas, incluindo a cirurgia de redesignação sexual, são alguns exemplos.

A vulnerabilidade face à discriminação, conforme vivenciada pelas pessoas T, é singular. Não se trata aqui de menosprezar o sofrimento provocado por situações de ódio de lésbicas, gays e bissexuais, muito menos de colocar a transfobia em patamar diferenciado. Antes, trata-se de reconhecer que os mecanismos para a “caçada” contra minorias sociais se intensifica quando se trata de pessoas trans. Talvez o motivo para tamanha transfobia seja, em uma visão preconceituosa, a identidade trans ser algo “sem volta”.

Quem acredita na heterossexualidade e cisgeneridade obrigatórias, ao perceber lésbicas, gays e bissexuais, pode, em seu pouco conhecimento sobre o assunto, até considerar possível um “retorno” à condição hétero. Afinal, seus corpos não foram transformados. Porém, assumir-se trans, quase que invariavelmente, é se transformar e transcender a lógica de um suposto alinhamento sexo-gênero.

Isso implica se expor ao julgamento das pessoas, em passar a ser percebido como alguém que modificou seu corpo e por isso, perdeu a condição de retorno à normalidade cis hétero. Na paranoia da nação que mais mata pessoas trans e travestis, um corpo com essa configuração não tem mais jeito, é “sem volta” e precisa ser exterminado para manter a “boa aparência”da sociedade. O debate trazido pela 1ª Marcha do Orgulho Trans passa por esse estado de coisas.

A mobilização demonstra que os organizadores da chamada Parada Gay não compõem – diferentemente do que se pode pensar – a representação única pela qual a população trans luta por sua cidadania. Para muitas dessas pessoas, manifestações como a parada paulistana não proporciona a necessária visibilidade para suas demandas. Ante essa realidade, marchar afirmando orgulho da sua identidade de gênero e exigindo respeito às suas especificidades parece – e é – imprescindível.

Assim, por buscar maior protagonismo na luta por suas vidas e por sentirem-se em segundo plano, quando não verdadeiramente invisíveis dentro do próprio movimento LGBT, coletivos trans se organizam, chamando a atenção de todos para suas lutas.

Que tenha ocorrido a marcha trans de 1˚ de junho em São Paulo – pouco divulgada até mesmo por veículos alternativos da mídia – deve ser ponto de reflexão para toda a militância LGBT, bem como, evidentemente, para toda a sociedade. É urgente e necessário que pessoas trans e travestis recebam maior apoio de lésbicas, gays e bissexuais e combater a transfobia dentro do próprio movimento LGBT.

É fundamental atentar para as especificidades de seres humanos que vêm sendo massacrados diariamente, nesses tempos de banalização do mal, em que os mais vulneráveis são as vítimas preferenciais de todo tipo de violência. E o movimento LGBT não está imune a praticar discriminação e preconceito dentro de si mesmo e, lamentavelmente, o fato é que pessoas T são alvo de transfobia também dentro do círculo que deveria oferecer acolhimento.

São importantes os avanços conquistados pelo movimento no combate à discriminação por orientação sexual nos últimos anos. Contudo, é preciso avançar também no combate à exclusão em razão da identidade de gênero em absolutamente todos os níveis.

Nem “corpos estranhos”, nem pessoas que desejam privilégios. Apenas a dignidade de todos e para todos. É a mensagem da marcha trans de 1˚ de junho em São Paulo, que já entrou para a história.

*Armando Januário é sexólogo