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Gratidão, Augusto Campos

A morte do Augustão é mais uma cruz na lista deste infernal ano de tantas perdas para os trabalhadores
Publicado por Paulo Salvador, da RBA
15:37
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Jesus Carlos/Cedoc Seeb-sp
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Augusto não viveu para si, senão para os outros

Depois de muitos dias de expectativa, nesta manhã muito fria chegou a notícia da morte de Augusto Campos. Ele estava internado no Hospital Nove de Julho, em São Paulo, lutava contra o câncer no fígado e não conseguiu esquivar-se de outros vírus. A morte do Augustão é mais uma cruz na lista deste infernal ano.

O Brasil, os trabalhadores e o movimento sindical tiveram nele um grande líder, daqueles que aparecem pouco e ajudam muito. Ele foi presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região na chapa de oposição considerada como de retomada democrática da entidade, em 1979. Reelege-se em 1981. Em 1983, a entidade sofre uma intervenção da ditadura a pedido do Bradesco, por causa de um protesto no feriado de Osasco. Enquanto dura a intervenção, a diretoria “paralela” liderada mantém a luta dos bancários em movimento, inclusive com a circulação da Folha Bancária diária, impressa por meios alternativos com recursos da militância. Quando a intervenção é levantada, Luiz Gushiken assume a presidência, já em 1985.

Nesse período, no entorno do sindicato gravita uma centena de jovens militantes sindicais oriundos do movimento estudantil e das correntes de esquerda,  apelidados pela ditadura militar de os barbudinhos

Ali estavam também Gilmar Carneiro, Luiz Azevedo, Tita Dias, Aci Rangel, João Vaccari, Lucas Buzato, Edson Campos e muitos outros. É eleito diretor representante no Banespa, que se torna um formigueiro na luta pelo fim da ditadura e na formação de novos dirigentes. Nessa segunda onda, a família militante de Augusto chega a mais de 500 representantes espalhados pelo Brasil, formando novas chapas de oposição, criando novas federações estaduais e a confederação nacional.

É possível dizer que a geração Augusto Campos deixou irmãos, filhos, netos, bisnetos e tataranetos. O sindicato foi determinante na construção da CUT e dali saíram os fundadores do Partido dos Trabalhadores, presidentes de sindicatos, ministros, dirigentes de fundos de pensão e de empresas públicas, deputados, vereadores (ele também um deles, quando se elegeu na Câmara Municipal de São Paulo para o mandato de 2001 a 2004).

Augusto Campos começou sua militância no movimento estudantil da USP, da Rua Maria Antônia. Controlado pelo Partido Comunista Brasileiro, o sindicato não atraia a juventude revolucionária que se levantou em 1968. Como ele, centenas de outros jovens trabalhavam à noite, estudavam e militavam de dia. Em depoimento para o livro de memórias do Sindicato, ele atribui a essa juventude, sua busca pela utopia, o papel transformador nos anos 1970. Era o movimento Participação Ativa que junta esses jovens e constrói a oposição que vence em 1979, pondo fim ao conservadorismo sindical do PCB.

A retomada do sindicato e a gestão na diretoria de representação do Banespa, mais a campanha pelo fim da ditadura e Diretas Já promove uma explosão da militância em novas gerações. A greve geral nacional de 1985 é o retrato dessa explosão. E o legado de Augusto Campos começa por aí, que é a massificação das assembleias e manifestações. No plano pessoal, Augusto se notabiliza pela simplicidade nas roupas, em oposição ao terno e gravata, que lhe valeu o carinhoso apelido de Véio do Rio, em referência ao personagem da novela Pantanal, exibida na TV Manchete.

Augusto leva para o movimento sindical a ideia de construção de acordos coletivos de trabalho que até hoje prevalece no Santander, que comprou o Banespa. Resgata a tradição dos extintos institutos de aposentadoria, estimula a participação dos trabalhadores na gestão dos planos de saúde das empresas e nos fundos de previdência.

Na greve de 1987, introduz a criação do Banesprev, o fundo de complementação de aposentadorias do Banespa. Em muitas assembleias, fazia com que os grevistas enxergassem e acreditassem em sua própria força. Foi determinado na ampliação da comunicação do sindicato, com a Folha Bancária diária e jornais por empresas. Foi o idealizador da Quadra dos Bancários para que os movimentos não ficassem na dependência do aluguel de outros espaços, cuja obra foi concebida pelo arquiteto Vilanova Artigas – e hoje é espaço frequente das lutas democráticas.

Augusto não viveu para si, senão para os outros. E agora não morre para si, senão para nós outros. O momento é de agradecer sua presença em nossas vidas.

 Assista também a reportagem da TVT