Emir Sader

Candido, o intelectual da esfera pública

A burocratização da vida acadêmica faz com que professores escrevam, grande parte do tempo, para seus pares e agências de fomento. Sempre com rigor e elegância, Antonio Candido escrevia para o povo

Guilherme Maranhão/Flip
Antonio Candido

Candido soube combinar a dedicação extrema ao trabalho acadêmico com o constante compromisso político

Antonio Candido era chamado pelos mais próximos de Candido. Foi como eu sempre me acostumei a chamá-lo. Como era chamado pelo meu tio, Azis Simão, amigo e companheiro muito próximo dele, através de quem eu o conheci desde criança. Era como a Gilda, sua companheira de vida e minha querida professora de estética, o chamava. Em compensação, chamava-me pelo apelido que eu tinha quando criança. Para mim sempre ficou o critério: quem o chamava Candido era próximo. Os outros o chamavam pelo nome profissional, de professor, de intelectual, como ele ficou tão conhecido: Antonio Candido.

Mas eu só soube que ele era um dos intelectuais contemporâneos mais importantes do Brasil e conheci sua projeção na América Latina e no mundo, mais tarde.

Um tema central no mundo contemporâneo é a crise e, como alguns anunciam, o fim do intelectual da esfera pública. Este foi caracterizado por três traços marcantes: a abordagem de temas de interesse geral, a utilização e linguagem acessível a todos e o alinhamento do lado do povo contra as oligarquias.

Essas caracterizações foram se perdendo ao longo do tempo. A incessante especialização foi fragmentando o saber, fazendo-o menos acessível, mais hermético, fenômeno muito presente no estruturalismo e no pós-estruturalismo, entre tantos outros fenômenos. Ao mesmo tempo, a multiplicação dos campi universitários foi distanciando as universidades das cidades propriamente ditas. Se antes, num barzinho perto da universidade, era possível conviver com personagens da cidade, agora a convivência ficou restrita aos que frequentam um departamento.

No caso da USP, por exemplo, fomos expulsos da Rua Maria Antônia – no centro de São Paulo, em que nos barzinhos se misturavam estudantes, boêmios, professores, transeuntes – para o isolamento da Cidade Universitária, em que o bar da História está separado do bar da Geografia, e assim por diante.

A burocratização da vida acadêmica, por sua vez, faz com que os professore escrevam, grande parte do tempo, formulários e projetos de pesquisa, assim como relatórios. Escrevem muito mais para seus pares e para as agências de fomento, do que para o público. São muito conhecidos no espaço acadêmico e desconhecidos da sociedade.

O conjunto desses fenômenos foi produzindo a desaparição do intelectual da esfera pública, substituído pelo burocrata da vida acadêmica. A vida intelectual foi assimilada a um emaranhado de linguagens e conceitos herméticos e inacessíveis, abordando temas cada vez mais distantes da realidade concreta das pessoas. Ao mesmo tempo em que o próprio intelectual foi se distanciando dos interesses da grande massa da população, situando-se no campo das próprias elites tradicionais, de cujas formas de vida ele compartilha.

Candido foi o melhor modelo de intelectual da esfera publica. Seus temas de análise ؘ– seja na sociologia ou na teoria literária, eram de interesse geral – do caipira à importância da leitura, dos parceiros do Rio Bonito à Formação da literatura brasileira, da ética ao socialismo –, combinam importância da investigação, rigor na análise e forma de exposição elegante e acessível.

Candido soube combinar a dedicação extrema ao trabalho acadêmico com o constante compromisso político – que o levou a participar da fundação do PT e estar sempre presente nos momentos decisivos da história brasileira. Nunca se deixou levar pela burocratização da atividade acadêmica, foi sempre imensamente generoso em atender os que o buscaram ao longo de toda sua vida.

Com a morte de Candido na última sexta-feira (12), o Brasil se despede de seu mais importante intelectual da esfera pública, modelo de comportamento pessoal e político, que manteve o espírito crítico, mesclado sempre ao fino humor que sempre o caracterizou.