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Marcio Pochmann

A acomodação da esquerda alimenta o descrédito na política

Ascensão de Jeremy Corbyn no trabalhismo inglês e do socialista Bernie Sanders entre os democratas americanos mostram que há espaço para a luta no campo oposto ao receituário de mercado. É necessário ousadia
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11:58
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Corbyn tenta romper com versão terceira via do trabalhismo inglês. Sanders desafia o “american way of life”

Na Grande Depressão após 1929 a esquerda conseguia oferecer saídas importantes e consistentes, ainda que variadas, para a crise profunda do capitalismo. Da alternativa radical evidenciada pela experiência de socialismo proveniente da Rússia desde 1917 às propostas reformistas, mas não menos importantes, dos governos trabalhistas e social-democratas já em efervescência nos países escandinavos.

Diante da ineficiência das políticas econômicas dominantes defendidas pelos bancos e o rentismo tradicional da época, que teimavam em manter ativo o receituário liberal da não intervenção do Estado, o sofrimento da população era imenso e generalizado pelo chamado socialismo dos ricos. Não somente o desemprego em massa, mas a pobreza e desigualdade dominavam o circuito da desagregação dos tecidos social e político das sociedades vigentes.

Estranhamente, a grande crise atual do capitalismo de dimensão global instalada desde o ano de 2008 encontra escassa oferta de saídas à esquerda. Segue predominando o receituário neoliberal de centrar no Estado a fonte dos problemas do capitalismo atual, não mais identificado à solução, como no passado.

A acomodação e submissão dos governos ao diagnóstico e prognóstico das forças dos mercados e protagonizado pela mídia dominante tem tornado cadente a credibilidade dos partidos que se apresentam como de esquerda no espectro político existente. Desde a derrocada das experiências de socialismo real nos anos de 1990 desapareceu a polarização em torno das alternativas radicais ao capitalismo.

Ao mesmo tempo, os partidos trabalhistas e social-democratas engataram a marcha da terceira via na política, uma espécie de neoliberalismo com descontos. Se auto intitularam de reformas modernizantes (neoliberais), com a face humana para diferenciarem do mesmo receituário desumano.

As contestações internalizadas ao adornamento de concessões dos partidos que se declaram de esquerda se mostraram frágeis.

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Acima, abertura do site de Jeremy Corbin: combate a pobreza e defesa dos direitos humanos acima de tudo.Abaixo, campanha de Bernie Sanders no Facebook: por que há recursos para guerra e não para o necessário?

Em geral, apresentaram evidenciadas demarcadas por divisões internas que no máximo se constituíam enquanto formação de novos partidos, mas de pouca expressão eleitoral.

Registra-se como fato recente mais relevante a escolha pelo Partido Trabalhista inglês do novo líder Jeremy Corbyn, que tem apontado para a oferta de um programa radical alternativo à crise capitalista de dimensão global. E com isso, para o abandono das políticas de terceira via evidenciadas desde a ascensão dos governos de Tony Blair e Gordon Brown entre 1997 e 2010.

Agora tem ganhado expressão no interior do processo eleitoral aberto nos Estados Unidos a ascensão do senador Bernie Sanders nas primárias do Partido Democrata. Ele se apresenta como socialista e tem empolgado parcela crescente do eleitorado com propostas que aqui no Brasil poderiam ser assemelhadas à introdução da tributação no setor financeiro (a CPMF), a instalação do Sistema Único de Saúde (o SUS), a gratuidade no ensino superior, entre outras.

Percebe-se que há espaço significativo para as políticas no campo ideológico da esquerda, embora a oferta tenha sido tímida, quando não escassa. A ausência de ousadia para tanto talvez ajude a revelar o quadro geral de acomodação e protelação de saídas da crise de dimensão global, quando não o próprio desânimo e descrédito com o sistema político atual.

Professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas.