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Emir Sader

O capital financeiro se insurge contra o resgate da política

Em um mundo dominado dessa forma pelo dinheiro, não cabe a política, como espaço de decisão das pessoas sobre os destinos da sociedade
por Emir Sader, para a RBA publicado 07/09/2015 12h17, última modificação 08/09/2015 15h46
Em um mundo dominado dessa forma pelo dinheiro, não cabe a política, como espaço de decisão das pessoas sobre os destinos da sociedade
Paulo Donizetti de Souza/RBA

Financeirização significa que o dinheiro invade tudo. Que o capital especulativo é o hegemônico. Os bancos já não emprestam para investimentos produtivos ou para que as pessoas comprem o que necessitam ou para que se façam pesquisas. Não, os bancos vivem da compra e venda de papéis, do endividamento de governos, de empresas, de pessoas. Quando se anunciam, com todos os seus zeros, no final de cada dia, quanto movimentou a bolsa de valores, não se produziu nem um bem, nem um emprego.

O capital financeiro nasceu para apoiar a agricultura – adiantar capital para receber com juros depois da colheita. Hoje esse capital foi promovido a “setor da economia”, um fim em si mesmo.

Quando começou a crise atual no centro do capitalismo, em 2008, Obama bradou que havia que salvar aos bancos, senão seu teto cairia na cabeça de todos. Os bancos estão muito bem, mas quebraram os países

Quando se esgotou o ciclo anterior do capitalismo, o diagnóstico triunfante dizia que a economia havia deixado de crescer porque havia excessivas travas, demasiadas regulamentações. Haveria que terminar com elas e, segundo Ronald Reagan (presidente dos Estados Unidos de 1981 a 1989), a economia voltaria a crescer e todos ganhariam de novo.

As regulamentações foram abolidas – programa central do neoliberalismo –, mas não foi retomado o crescimento. Porque, como dizia Marx, o capital não está feito par produzir, mas para acumular. Sem travas, o capital se transferiu em quantidades gigantescas para os setor financeiro, que é onde ele ganha mais, paga menos impostos e tem liquidez total. Não é que haja capitalistas produtivos e especulativos. Todo grande grupo econômico tem um banco ou um centro de investimentos, por onde ganha mais do que nas suas atividades originais.

Livre das travas, o capital se concentrou em sua forma financeira, como capital especulativo, que só vende e compra papéis, que vive do endividamento, que se alimenta das dívidas e alimenta as dívidas. Mais de 90% dos movimento econômicos que se fazem no mundo atualmente são de venda e compra de papéis.

Quando começou a crise atual no centro do capitalismo, em 2008, Obama bradou que havia que salvar aos bancos, senão seu teto cairia na cabeça de todos. Os bancos foram salvos, estão muito bem, mas os que quebraram em seguida foram os países – Grécia, Portugal, Espanha, Itália.

Em um mundo dominado dessa forma pelo dinheiro, não cabe a política, como espaço de decisão das pessoas sobre os destinos da sociedade. As pessoas podem se pronunciar, mas se se pronunciam por outra lógica que não a dos bancos, se frustram, porque as redes de poder não deixam espaço para outra lógica que não seja a da especulação financeira.

Fazer política é, assim, estar na contramão da lógica capitalista contemporânea, a lógica neoliberal, que trata de impor os interesses do capital financeiro. Quem enfrente essa lógica, é devorado por ela. Fazer política é construir alternativas que privilegiem as políticas sociais e não os ajustes fiscais, os processos de integração regional e não os tratados de livre comércio, que recuperem a capacidade de ação e de fazer política dos Estados e dos governos.

Atuar nessa direção é estar condenado pelos organismos financeiros internacionais, pela grande mídia, pelos partidos tradicionais. Mas é a única forma de resgatar o direitos das pessoas de decidir sobre o seu destino, contra o destino definido pelos bancos e pelo poder do dinheiro.