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terceiro mandato

A Bolívia de Evo: indigenismo e marxismo contemporâneo

País avança para a exploração de novos recursos, industrializados, que apontam para um futuro muito distinto do que foi tradicionalmente o da Bolívia
por Emir Sader publicado 25/01/2015 11h24, última modificação 25/01/2015 11h27
País avança para a exploração de novos recursos, industrializados, que apontam para um futuro muito distinto do que foi tradicionalmente o da Bolívia
roberto stuckert filho/pr/fotos públicas
evo morales

Presidenta Dilma foi à Bolívia nesta semana para a posse de Evo Morales na presidência da Bolívia

A Bolívia frequentava as piores listas entre os países do continente: entre os mais pobres, junto com Honduras e Haiti; entre os de maior instabilidade institucional, com cifras aterradas de golpes ao longo de toda sua vida política.

Não é sem desassombro que a América Latina assiste à terceira posse consecutiva de Evo Morales no país, que governará pelo menos até 2020, constituindo-se no presidente de mais longo mandato em democracia na Bolívia. Venceu, de novo, no primeiro turno, desta vez com 200 mil votos a mais do que em 2009, derrotando velhos líderes políticos da direita boliviana.

Desta vez, além de tudo venceu eu Santa Cruz de la Sierra e em Pando, territórios por excelência da direita boliviana, desde onde chegaram a reivindicar o separatismo da região antes chamada de meia lua. E teve maioria absoluta no Congresso.

Quem acompanha de perto o processo boliviano desde mesmo antes da primeira eleição de Evo Morales, em dezembro de 2005, não tem por que se surpreender. Sua eleição era a resultante de um longo processo de acumulação de forças, desde a guerra da água, em 2000, – para evitar que uma empresa francesa privatizasse as fontes de agua do pais –, passando pela guerra do gás, em 2002, até chegar ao processo eleitoral de 2005.

Evo teve a sabedoria de chamar para ser seu candidato a vice a Alvaro Garcia Linera, que já despontava como o mais importante intelectual latino-americano. Entre suas obras teóricas notáveis, Linera teve uma em que fazia a crítica do economismo da esquerda tradicional, que desconhecia as raízes indígenas da maioria da população boliviana, buscando reduzi-la, por seu trabalho com a terra, a camponeses.

Linera retomava a tradição de Mariategui, reatualizando o indigenismo e retomando-o dentro de um marxismo contemporâneo. Esse casamento perfeito foi um dos fatores de sucesso de Evo, já na campanha eleitoral, mas essencialmente ao longo dos seus mandatos como presidente.

Como diz o próprio Evo, a direita estava preparada para que ele fracassasse e, em prazo curto, que não conseguisse responder aos desafios da complexa realidade boliviana, que havia feito com que houvessem desfilado pela presidência do país cinco presidentes em cinco anos, de 2000 a 2005. Hasta que os movimentos indígenas e populares em geral resolveram disputar a hegemonia na sociedade – em vez de outros, que ficaram prisioneiros da “autonomia dos movimentos sociais” e se esvaziaram.

De forma similar à trajetória dos movimentos populares equatorianos, se constituiu na Bolívia um partido apoiado nos movimentos sociais – o MAS, Movimento ao Socialismo –, que lançou a dupla Evo-Alvaro e venceu as eleições de dezembro de 2005, com maioria de votos, no primeiro turno.

A plataforma deles se centrava na refundação do Estado para incorporar as comunidades indígenas em um Estado Plurinacional, a nacionalização dos recursos naturais básicos da economia boliviana – gás e petróleo – e a reforma agrária. Passando por várias circunstâncias, entre as quais as tentativas de golpe separatista de estados da região ocidental do país, se pode dizer que o governo de Evo Morales cumpriu rigorosamente com suas promessas, respondeu aos desafios e avançou de forma notável, constituindo-se num dos casos mais notáveis de sucesso dos governos pós-neoliberais na América Latina.

A situação social do país teve, pela primeira vez na sua história, melhorias extraordinárias, a economia segue expandindo-se a ritmos acelerados, apesar da recessão mundial, o Estado incorpora as comunidades indígenas e a toda uma nova geração de dirigentes de origem indígena, o país avança para a exploração de novos recursos, industrializados, que apontam para um futuro muito distinto do que foi tradicionalmente o da Bolívia.

A Bolívia de Evo é uma prova mais de como, quando o povo se une, encontra líderes que saibam conduzi-lo e aponta caminhos de superação do neoliberalismo e de todas as formas de mercantilização e de exploração ilimitada dos trabalhadores, quando reencontra seu destino nacional e os processos de integração latino-americana, triunfa e avança, como faz esse querido e até aqui tão sofrido povo latino-americano.