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Fiesp não é o carona da crise, e sim o motorista

Secretário-geral da CUT diz que empresas não podem se fazer de vítimas por falta de investimentos e alta rotatividade. Para Metalúrgicos do ABC, Fiesp reedita terrorismo de Mario Amato com fins eleitorais
por Sérgio Nobre, secretário-geral da CUT publicado 18/09/2014 19h26, última modificação 18/09/2014 20h19
Secretário-geral da CUT diz que empresas não podem se fazer de vítimas por falta de investimentos e alta rotatividade. Para Metalúrgicos do ABC, Fiesp reedita terrorismo de Mario Amato com fins eleitorais
Rossana Lana
Sergio Nobre

Nobre: é sabido que os piores meses do ano ficaram para trás

A CUT reconhece as dificuldades que a economia brasileira e a indústria, em particular, enfrentam. Ao contrário das avaliações sindicais patronais, no entanto, é importante que as análises destaquem o forte impacto da crise econômica mundial, aliado ao aumento da taxa de juros a partir de meados de 2013 – que sempre criticamos. Nesse sentido, é necessário pontuar as questões levantadas pela Fiesp, que divulgou essa semana prognósticos de desemprego até o final de 2014, fazendo uma relação com um carro: a Fiesp parece se comportar como “carona”, quando na verdade é “motorista”.

Segundo a Fiesp, a indústria paulista deve fechar mais de 100 mil postos de trabalho até dezembro. A entidade avalia que houve uma conjugação de fatores responsáveis por este resultado, como a queda dos investimentos, uma contração do setor automotivo (tanto interna quanto externa), a desvalorização do dólar e a instabilidade que seria proporcionada pelo calendário eleitoral. Nada de falar sobre a crise financeira internacional nem sobre a alta dos juros.

Em primeiro lugar, é importante avaliar o tamanho das demissões: é verdade que alguns setores e estados têm sentido mais essa conjuntura; é verdade também que este ano a trajetória do emprego na indústria tem sido pior do que nos últimos anos, no entanto, olhando os números oficiais do mercado de trabalho formal disponível no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o saldo negativo é menor do que o divulgado pela Fiesp. Vamos aos números:

- Na indústria de transformação o saldo de empregos de janeiro a agosto de 2014 é de 8.593 contratações - abaixo do resultado de 2013, mas ainda assim, positivo;

- No estado de São Paulo o saldo do ano é negativo em 12.862 postos de trabalho - bem menor do que os 31,5 mil divulgados pela Fiesp, no mesmo período, de janeiro a agosto;

- Chama atenção no estado de São Paulo que, apesar das 686 mil demissões ao longo de 2014, foram contratados 673 mil trabalhadores, resultando no saldo acima mencionado. Essa prática nociva da rotatividade impõe para o trabalhador um ajuste salarial, que anula os ganhos obtidos durante as campanhas salariais e não combina com o país que todos desejamos, nem tampouco com a modernidade alardeada pelos empresários.

Além disso, é sabido que os piores meses do ano ficaram para trás – historicamente, a partir de setembro, a tendência é que os números do emprego na indústria apresentem uma recuperação – fator que certamente contribuirá para que o saldo final do ano seja diferente dos 100 mil negativos previstos pela federação.

Por outro lado, é preciso lembrar que, apesar de os investimentos terem saído de um patamar de 16,1% do PIB na primeira metade da década passada para 18% nos últimos anos, o patamar ainda é inferior ao necessário no Brasil. Para que seja inaugurado um novo ciclo de desenvolvimento econômico no país, é necessário um incremento nos investimentos na chamada “formação bruta de capital fixo” – basicamente a aquisição de máquinas e equipamentos, que indica se a capacidade de produção do país está crescendo.

A maior parte desse investimento é essencialmente fruto de decisões das empresas e é influenciado pela conjuntura e também pelas expectativas futuras de retorno, onde os custos do capital para sua viabilização e o nível de demanda desempenham papel central. A decisão de muitas indústrias de não investir parece muito mais carregada de um pessimismo exacerbado do que simplesmente da existência de um cenário inviável.

Isso, mesmo considerando que os investimentos demandam tempo; que, ao contrário do cidadão comum, as indústrias emprestam recursos a taxas de juros muitas vezes negativas em termos reais; e que, apesar dos indicadores de atividade fracos, o consumo ainda permanece em crescimento – demonstrando a falta de visão de oportunidades e dando espaço para ampliação de bens importados.

A recente contração do setor automobilístico, apesar de se tratar de um segmento com peso considerável, não pode ser extensível como um “retrato” do desempenho da indústria como um todo. Além disso, esta desaceleração do setor tem de ser vista como pontual, já que decorreu tanto de problemas com a Argentina quanto da falta de crédito para aquisição de veículos por parte do sistema financeiro nacional privado, que se deu ao luxo de “desprezar” R$ 70 bilhões disponibilizados pelo Banco Central para aumento de crédito. Isso é sabotar o crescimento do país.

Também devemos nos atentar aos gargalos do setor, que são mais relacionados à disponibilidade de crédito do que necessariamente à falta de demanda. As próprias montadoras, mesmo com este cenário pontual, manterão todos seus investimentos previstos para os próximos anos, justamente por acreditar na transitoriedade desta conjuntura.

Em relação à desvalorização cambial, é verdade que se trata de um efeito dual: por um lado, pode haver encarecimento no curto prazo de alguns insumos importados; por outro, a desvalorização cambial e a própria existência de um câmbio competitivo são um dos principais pilares do desenvolvimento industrial. Além de confuso, o argumento dos empresários despreza um efeito básico: que a desvalorização cambial encarece os produtos importados e barateia as exportações e, assim, promove a substituição pela produção nacional de forma imediata no mercado interno e favorece as vendas ao exterior, promovendo estímulo à produção interna. E a desvalorização cambial e a adoção de um câmbio competitivo sempre foi uma das principais bandeiras das entidades industriais, em especial a própria Fiesp.

Sobre a possível instabilidade proporcionada pelo cenário eleitoral, é outra alegação no mínimo questionável. De fato, as eleições proporcionam um compasso de espera para decisões, sobretudo de investimentos. No entanto, agravar esse momento com informações superestimadas de crise serve para algum propósito. Qual é? É o que queremos saber. Muitos setores têm ampliado a crise como forma de impor sua agenda junto aos candidatos. Definitivamente, essa não é a forma mais construtiva para o país.

A Fiesp é uma entidade paulista e, ao contrário do que tem sido feito pelo governo federal, o governo do estado de São Paulo pouco ou mesmo nada de relevante tem feito para fortalecer a indústria no estado, devendo por isso ser cobrado. A Fiesp tem sido passiva diante dessas dificuldades.

Os trabalhadores organizados no Macrossetor Indústria da CUT têm abraçado esse tema como prioritário, preparando uma agenda consistente não apenas para a indústria de São Paulo, mas também para o Brasil, de forma responsável e sem manipulação de dados.

Leia também nota do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

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O que está por trás da
declaração de Steinbruch

Por Rafael Marques

De forma veemente, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC protesta contra a declaração do presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Benjamin Steinbruch, que no começo desta semana disse a jornalistas em São Paulo “acho que o desemprego vem aí”.

Questiono o motivo de um empresário ligadíssimo a Paulo Skaf, que é candidato ao governo paulista, aparecer em um momento delicado como o que atravessamos, em meio a uma campanha salarial e a uma campanha eleitoral, e tenta chantagear o governo federal e pressionar a sociedade brasileira trazendo de volta o fantasma do desemprego.

Ao agir desta forma, Steinbruch assume uma postura patronal que nós repudiamos, pois procura colocar os trabalhadores contra a parede, ameaçando-os com o fechamento de postos de trabalho.

A ameaça do desemprego lembra a atitude destemperada e alarmista de Mário Amato em 1989, quando também ocupava a presidência da Fiesp. Ele afirmou que 800 mil empresários deixariam o Brasil caso Lula vencesse as eleições, o que causaria um desemprego enorme. Passado o pleito, Amato reconheceu que a sua frase foi fundamental para a derrota do ex-metalúrgico.

Com sua declaração, Steinbruch age mais do que um simples aliado de Skaf. Não é este o papel do presidente da Fiesp. Repudiamos esse ranço que parte dos patrões brasileiros ainda carrega, pois não aceita trabalhadores assumindo papéis de liderança. Não podemos admitir mais esse tipo de comportamento. Hoje somos testemunhas do erro de Amato, pois no governo Lula foram criados mais de 15 milhões de empregos, jogando por terra a profecia do empresário.

Quando Steinbruch copia o comportamento lamentável de Amato, desdenha dos programas econômicos que os governos Lula e Dilma criaram para fortalecer a indústria, setor que deveria representar, já que é o atual presidente da Fiesp.

Também questiono o levantamento chamado de otimismo empresarial, que é ultrajante. Como é medido, com base em quais indicadores as pessoas ouvidas formulam suas opiniões, para que e a quem serve afinal?

Da maneira como é divulgada, a “pesquisa do otimismo empresarial”, infelizmente, tornou-se um mecanismo político. Direcionada de maneira parcial, a pesquisa acaba influindo negativamente nas decisões sobre investimentos no Brasil.

É o momento de o empresariado deixar o choro e a chantagem de lado e cumprir seu papel na sociedade brasileira. Oportunidades diversas foram perdidas porque não acreditaram no sucesso da organização da Copa do Mundo no Brasil, por exemplo.

O país, ao contrário do que pregam os pessimistas de plantão, continua sendo um lugar de oportunidades e ávido por investimentos. Aqueles que apostarem contra perderão o seu espaço para aqueles que souberem aproveitar o momento.