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análise

O neoliberalismo de Marina Silva

Independência do Banco Central representa, por um lado, a prioridade do mercado, subtraindo o BC às posições políticas do governo, para deixá-lo aberto às pressões dos interesses do mercado
por Emir Sader, para a RBA publicado 30/08/2014 11h59
Independência do Banco Central representa, por um lado, a prioridade do mercado, subtraindo o BC às posições políticas do governo, para deixá-lo aberto às pressões dos interesses do mercado
Valter Campanato/Abr
marina silva

Centralidade do mercado e prioridade dos ajustes fiscais são propostas de Marina alinhadas ao neoliberalismo

Independência do Banco Central, baixar o perfil do pré-sal e baixar o perfil do Mercosul, estabelecendo acordos bilaterais. Nesses três eixos pode se resumir a substancia da proposta programática da Marina. Posições que se chocam frontalmente com as dos governos que lutam pela superação do neoliberalismo aqui, na Argentina, no Uruguai, na Venezuela, na Bolívia, no Equador. Estes têm em comum a prioridade das políticas sociais, dos processos de integração regional e o resgate do papel do Estado diante da centralidade do mercado.

A independência do Banco Central representa, por um lado, a prioridade do mercado, subtraindo o BC às posições políticas do governo, para deixá-lo aberto às pressões dos interesses do mercado, em particular dos bancos privados. Essa posição atenta contra a prioridade das políticas sociais, porque o modelo atual é o do desenvolvimento econômico com distribuição de renda, em que as políticas sociais têm um papel central.

A autonomização do BC coloca um obstáculo central para esse modelo, porque a tendência será que o banco priorize os ajustes fiscais em detrimento da expansão econômica e da distribuição de renda. A equipe de direção da campanha da Marina – Andre Lara Resende, Eduardo Gianetti da Fonseca e Neca Setúbal – corrobora que essa tendência predominaria.

Essa posição, ao mesmo tempo, enfraquece o resgate do Estado como indutor do crescimento econômico e dos direitos sociais, com um braço importante da ação estatal ficando submetido à lógica do mercado,

Baixar o perfil do pré-sal vai na mesma direção de debilitamento do papel do Estado para enfrentar um tema central como a questão energética, ao mesmo tempo que enfraquece os recursos destinados atualmente às políticas sociais – 7,5% para a educação e 2,5% para a saúde.

Baixar o perfil do Mercosul e estabelecer acordos bilaterais aponta para uma reinserção distinta do Brasil no marco internacional. Mercosul significa também Unasul, Banco do Sul, Conselho Sul-Americano de Defesa, Celac, opções preferenciais do governo atual, como alternativa aos Tratados de Livre Comércio com os EUA. Ao contrapor acordos bilaterais ao Mercosul, a posição é contraditória, porque os acordos do Mercosul impedem esses acordos. Como se pode imaginar que a visão é dirigir acordos com os EUA, a contradição é maior ainda.

Não há referência aos Brics, mas se pode ler a posição como apontando ao deslocamento da prioridade das alianças para os países do centro do capitalismo, direção radicalmente oposta ao que representam hoje os Brics.

As propostas da Marina reivindicam assim os supostos centrais do neoliberalismo: centralidade do mercado, prioridade dos ajustes fiscais, aliança subordinada com os EUA no plano internacional.