Memória

Morre denunciante dos ‘arrependimentos’ obtidos sob tortura

Manoel Henrique Ferreira ficou nove anos preso e denunciou, em carta a dom Paulo, o traumático processo de cooptação a que presos políticos eram submetidos para ir à TV e se declarar ‘arrependidos’

Paulo Jabur/Reprodução DHNET
Greve dos 32 dias

Manoel e Gilney Viana entregam comida ao chefe da guarda, dando início a uma greve de fome pela anistia

São Paulo – Morreu ontem no Rio de Janeiro, Manoel Henrique Ferreira, um dos idealizadores do bar e depois tradicional bloco Barbas, nome alusivo aos militantes de esquerda que participaram da resistência à ditadura.

Um dos fundadores do PT, Manoel foi integrante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), organizações que participaram da tentativa de reação armada ao regime imposto após 1964.

Em depoimento ao jornal O Globo, o cineasta Nelsinho Rodrigues lembra os tempos de prisão na companhia do futuro sócio: “Nos conhecemos na prisão. Ficamos seis anos juntos e passamos pela Fortaleza de Santa Cruz, Ilha Grande, Bangu e Frei Caneca… Ele foi sócio-gerente comigo. Levamos o Brizola duas vezes para participar de debate no Barbas. O Darcy Ribeiro também”.

Nelsinho diz que o amigo será homenageado neste carnaval. Também no jornal, Cid Benjamim lembra que foi um dos 40 presos que conseguiram a liberdade após o sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, do qual Manoel participara: “Conheci-o quando cheguei do exílio (1979). Ele ainda estava na prisão e fui visitá-lo. O sequestro do embaixador me libertou”.

Manoel Henrique não foi beneficiado pela Lei de Anistia e só sairia da prisão, em liberdade condicional, após nove anos de cárcere. Sua mulher Graça Lago – filha do também militante, ator e compositot Mario Lago – postou mensagens em seu perfil no Facebook para homenageá-lo.

“Amigos, hoje, dia 29 de janeiro, a partir das 10 horas de manhã, vamos homenagear um grande homem – Manoel Henrique Ferreira –, na Capela 2, do Memorial do Carmo. Peço que levem bandeiras do Vasco, do PT, do Barbas, da Anistia, da briga, da alegria, de todos os blocos, camisetas, tudo do jeito que ele era”, escreveu. “Muito difícil falar. Perdi hoje o meu companheiro de 20 anos, a metade desta minha laranja. Vivemos plenamente paixão, amor, desassossegos, alegrias, raivas, ciúmes, prazeres. Foi um maduro amor intenso, vigoroso, comum nas nossas qualidades e trejeitos.”

Graça conta que há quase oito anos Manoel teve diagnóstico de ataxia cerebelar – um tipo de doença degenerativa cujas causas jamais foram esclarecidas. “Tenho por mim (e alguns médicos concordam) que as brutais torturas e humilhações que sofreu em quase nove anos de prisão política corroeram a pequena noz que equilibra a vida, o cerebelo.”

Uma das mensagens postadas na rede social é do sambista e compositor Ernesto Pires. “Em janeiro de 1976, ainda preso, Manuel escreveu uma longa carta ao então arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, relatando as torturas que sofreu e denunciando o violento processo de cooptação que enfrentou para tornar-se um dos ‘arrependidos políticos’ que a ditadura usou como instrumentos de propaganda”, lembra Pires.

“Em ato de enorme coragem, Manuel foi a primeira voz a denunciar a farsa grotesca dos atos de ‘arrependimento político’, revelando como o aparelho de propaganda da ditadura apoiava-se na tortura. Ele mostrou a ligação direta entre os chamados ‘porões’ e a Aerp – Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência da República, o braço de propaganda da ditadura.” O ativista foi também um dos articuladores da greve nacional de 32 dias dos presos políticos, durante a luta pela anistia ampla e irrestrita.

O longo depoimento de Manuel a dom Paulo – com 21 páginas descrevendo sua história pessoal, sua prisão, as torturas, os relatos sobre a situação de outros presos – pode ser encontrado para download nos arquivos do Ministério Público Federal. Abaixo, alguns trechos.

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