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Na Rede

Eleições 2018

O debate eleitoral sem Lula e o teatro de bonecos e marionetes

Com a exclusão de Lula, prevalecem as estruturas profundas do pensamento conservador, que leva o eleitor a votar contra o que está aí, mas não a favor do que anseia
por Marcio Pochmann, para a RBA publicado 13/08/2018 08h34
Reprodução
Debate na Band

Cabo Daciolo, com sua União das Repúblicas Socialistas da América Latina, deixou Ciro Gomes espantado

Essa oitava eleição presidencial contabilizada desde a transição da ditadura (1964-1985) sinaliza que o Brasil segue asfixiado por roteiro primitivo de uma agenda rebaixada pelo golpe do governo Temer.

Com a exclusão de Lula, o primeiro nas pesquisas de intensão de voto, o discurso prevalente revelou estruturas profundas do pensamento conservador, motivador histórico do eleitor a votar contra, não a favor do que anseia. Isso ficou escancarado após o primeiro debate televisivo com alguns candidatos presidenciais realizado por TV, na última quinta-feira (9), na Band

Sem rebeldia nas mentalidades, o sentido maior dos argumentos não revelou saídas, mas ressaltou entraves justificadoras de continuidades. Em mais de três décadas de experimentação democrática, a mais longeva do país, nenhuma reforma profunda nas estruturas do conservadorismo de um capitalismo selvagem foi estabelecida.

As reformas de base emergidas no início da década de 1960 foram rapidamente estancadas pela força do autoritarismo dos governos militares. A retomada democrática trouxe a tona um conjunto de reformas anunciado pelo documento Esperança e Mudança, em 1982, por importante ala progressista do antigo MDB.

A derrota da emenda das eleições diretas, em 1984, terminou, entretanto, por sepultar o ânimo reformista da Nova República. A passagem para a via democrática, também conhecida por transição transada pelo alto, que excluiu os interesses da base da pirâmide social, foi marcada pela sucessão de governos voltados a estancar a desagregação da sociedade instalada por grave sangria da decadência produtiva que decorre da precoce industrialização.

Nos governos do PT (2003-2016), os avanços protagonizados para incorporar pobres no orçamento público sofreram ataques sistemáticos do conservadorismo. O entrave maior, contudo, se deu pela força do golpismo convergente dos interesses contrariados, responsáveis que foram pela derrocada da presidenta Dilma (2011-2016) e a ascensão do desgoverno Temer.

Por isso, o mais do mesmo esteve presente no modelo burocrático e superado de debates realizado recentemente por TV entre alguns candidatos presidenciais. Prevaleceu ausente para o telespectador a possibilidade de identificar visões distintas dos problemas e soluções prioritárias para o enfrentamento da gravíssima situação nacional.

O formato do debate de candidaturas presidenciais tende a perseguir regras que engessam qualquer criatividade, promovendo convenientemente a superficialidade de perguntas e respostas, numa espécie de teatro de bonecos e marionetes. Com questões previamente testadas e respostas programadas, a improvisação somente tornar-se-ia possível mediante a ousadia da rebeldia às mentes já colonizadas.   

As proposições, em geral, apontaram para a reprodução da perspectiva conservadora de tratar o futuro nacional com referência nas ideias importadas. Na maioria das vezes, o predomínio do pensamento econômico anglo-saxônico se fez presente na defesa do programa de austeridade fiscal que desmonta a perspectiva de Brasil nação.

Assim, a reflexão e as proposições governamentais apresentadas encontraram-se deslocadas da própria realidade nacional. Por conta disso, a experiência desse início do século, com seus progressos e regressos experimentados ao longo nos anos 2000, por exemplo, termina sendo deslocada do receituário dominante.

Enquanto os retrocessos do governo Temer servem de ilusão ao falso tratamento da crise fiscal, a estimular a série de reformas para exclusão dos pobres do orçamento público, o objetivo do receituário neoliberal de encolhimento da nação segue livre. Mas isso pouco será visto no teatro de debates de bonecos e marionetes.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas.

Eleições 2018

Ursal, a teoria da conspiração que virou meme

Citado por Cabo Daciolo (Patriota) em debate da Band, termo ficou no topo dos assuntos mais comentados do mundo no Twitter por quase 24 horas
por Redação RBA publicado 11/08/2018 13h30, última modificação 11/08/2018 13h38
Reprodução
Meme Ursal

Memes em profusão garantiram permanência do termo Ursal nas redes sociais mesmo muito tempo após o debate

São Paulo  No primeiro debate entre presidenciáveis transmitido pela TV aberta em 2018, talvez o momento que tenha mais chamado a atenção foi uma pergunta feita pleo candidato Cabo Daciolo (Patriota) a Ciro Gomes (PDT).

"O senhor é um dos fundadores do Foro de São Paulo. O que o senhor pode dizer aqui à nação brasileira sobre o plano Ursal, União das Repúblicas Socialistas Latino-Americanas?", disparou. "Meu estimado cabo, tive muito prazer de conhecê-lo hoje e pelo visto o amigo não me conhece. Eu não sei o que é isso, não fui fundador do Foro de São Paulo e acho que está respondido."

Daciolo não se deu por vencido e disse que Ciro "sabe sim", relacionando a Ursal a uma "nova ordem mundial", que eliminaria todas as fronteiras do continente, surgindo uma única nação, a "Pátria Grande". "Quero deixar bem claro que no nosso governo o comunismo não vai ter vez", disse o deputado federal pelo Rio de Janeiro, eleito originalmente por um partido de esquerda, o Psol. "Democracia é uma delícia, uma beleza, dei por ela a vida inteira, e continuarei dando, mas ela tem custos", ironizou Ciro.

A dita Ursal, que seria um acrônimo para União das Repúblicas Socialistas Latino-Americanas, já era um "meme" que circulava entre a direita brasileira desde antes de existires redes como o Facebook e o Twitter. Há até "dossiês" na internet dando conta de que a trama para fazer tal país teria nascido no Foro de São Paulo, conferência de partidos, movimentos e organizações de esquerda nascido em 1990. A entidade ocupa parte do imaginário da direita brasileira como se fosse uma verdadeira "legião do mal", pronta para traçar estratégias e planos mirabolantes para implantar o comunismo onde for possível.

O fato é que a ideia da Ursal "pegou" nas redes sociais. Não só inspirando pessoas que gostariam de fato que a Ursal existisse como estimulando a criação de cenários no contexto do novo país. Muitos lembraram, por exemplo, que a seleção nacional de futebol já nasceria eneacampeão, com os dois títulos do Uruguai, os dois da Argetnina, e os cinco do Brasil, projetando o ataque da equipe com Neymar, Messi, Suárez e Cavani. A Ursal já tem até uniforme.

Outros estenderam a conspiração (e a piada, obviamente) resgatando a música América Geral, de Xuxa (com Sandy), que seria o "hino da Ursal". A letra diz: "Uma América/Mais América/De norte, sul, central/Minha América, nossa América/América igual/Oh América!/Faz América/De um sonho ser real/América geral!". Premonição da rainha dos Baixinhos ou conluio com o comunismo?

O termo "Ursal" ficou no topo dos assuntos mais comentados do mundo no Twitter por quase 24 horas. Confira abaixo alguns dos inúmeros memes que circularam na rede sobre a Ursal:

Aproveitando que estou em Buenos Aires, vou convidar o @DiegoAMaradona para ser o Ministro dos Esportes da URSAL. pic.twitter.com/EwbIjcNAYT

— Manuela (@ManuelaDavila) 11 de agosto de 2018

 

 

Vagner Freitas

Chegou o 'Dia do Basta' contra o assalto aos direitos dos trabalhadores

Presidente da CUT diz que sindicatos e militantes vão mostrar mais uma vez que são o principal foco de resistência, organização e enfrentamento aos patrões que construíram o golpe para tirar direitos
por Vagner Freitas* publicado 10/08/2018 07h57
Divulgação/CUT
Vagner Freitas

Golpe tem como objetivo acabar com as estruturas sindicais e desregular o mercado de trabalho, deixando o trabalhador indefeso

Vivemos um ataque sem precedentes na história do Brasil, que reduziu a pó a legislação trabalhista, gerou desemprego recorde, precarizou o trabalho e empobreceu a classe trabalhadora e a classe média. Fizeram um assalto aos nossos direitos, cujo principal objetivo é acabar com a estrutura e a organização sindical, para desregular o mercado de trabalho e fazer do trabalhador refém indefeso e mão de obra barata. Querem retroceder há antes da CLT e da Constituição.

Não tenham dúvida de que a reforma trabalhista veio para impedir o trabalhador e a trabalhadora de ter o direito de ser representado por uma entidade sindical combativa. A ordem é enfraquecer a classe trabalhadora por meio do desemprego, do arrocho salarial, da destruição dos sindicatos e da Justiça do Trabalho.

Essa reforma trabalhista é um crime nacional contra a democracia.

Sem liberdade de organização sindical não há democracia. Sem liberdade de discutir os direitos e deveres dos trabalhadores(as) nos locais de trabalho e nas comunidades, não há democracia. Os golpistas sabem disso e, como agentes subordinados aos empresários, deram o golpe a mando dos patrões nacionais e internacionais.

A CUT, os sindicatos e seus militantes são hoje o principal foco de resistência, organização e enfrentamento aos patrões e a todos que estão a serviço do golpe. Precisamos fazer o Brasil emergir dessa crise política, econômica e social criada pelos golpistas. Precisamos aprender com os erros e com os acertos, precisamos estar unidos com os trabalhadores, superando nossas dificuldades e reconstruindo o Brasil.

Nesta sexta-feira (10), Dia do Basta, vamos mais uma vez, mostrar a nossa resistência, com mobilizações, atos e paralisações em todo o País.

Vamos mandar um recado nacional aos golpistas com um Basta a um País com 13 milhões de desempregados, 65 milhões de desocupados e sem esperança de conseguir emprego.

Vamos dar um Basta às privatizações. Basta de ódio e intolerância. Basta de perseguir e prender nossos líderes por motivos políticos. Basta de retirar nossos direitos.

Queremos o Brasil de volta ao seu lugar de protagonista mundial.

A nação que já esteve entre as cinco maiores economias e virou credora do FMI não pode voltar a ser o país do subemprego, do bico, do trabalho precário. Não podemos permitir que, no País que saiu do Mapa da Fome, se acabem os empregos com carteira assinada e os avanços sociais.

Nossa luta em todas as instâncias, dentro e fora do País, principalmente nos locais de trabalho e nas ruas, deve impedir que o governo golpista privatize as empresas já anunciadas, entre elas Eletrobras, refinarias da Petrobras, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil.

Vivemos um clima de guerra e de ódio. Vivemos um clima de medo.

Defender os direitos dos trabalhadores e conquistar nossas reivindicações nunca foi fácil. O que aumenta a responsabilidade da CUT e de seus sindicatos. A CUT nunca teve medo do enfrentar os patrões e os governos conservadores. Fomos forjados na luta.

Por tudo isso, por nossa história e nosso futuro, o futuro da classe trabalhadora, precisamos amanhã, “Dia do Basta”, mexer com o Brasil, dar uma sacudida nos golpistas, dizer a eles que a luta continua, que não nos derrotaram. Nem nos derrotarão.

* Vagner Freitas é presidente nacional da CUT 

Análise

Papel(ão) do Brasil nos Brics, por Paulo Nogueira Batista Jr.

No período 2015-2018, aconteceu um eclipse do Brasil. E um Brasil ativo faz falta. Percebe-se perda de dinamismo e qualidade dos Brics. Isso pode mudar, a depender das eleições brasileiras
por Paulo Nogueira Batista Jr., vida CartaCapital publicado 06/08/2018 10h45
Cesar Itiberê/PR/Agência Brasil
Temer nos Brics

Governo Temer tem protagonizado cenas humilhantes em reuniões do bloco, hoje protagonizado pela China

CartaCapital – A recém-realizada cúpula dos líderes dos Brics, na África do Sul, marca 10 anos de existência do grupo. O processo começou em 2008, por iniciativa da Rússia, que procurou Brasil, China e Índia – a África do Sul só se juntaria ao grupo mais tarde – para propor atuação conjunta.

No FMI, onde eu era o diretor executivo pelo Brasil, as cadeiras do Brasil, Rússia, Índia e China começaram a coordenar-se sistematicamente em diversos temas. O mesmo aconteceu no âmbito do G-20 e das capitais.

Os ministros das Finanças e presidentes do Banco Central passaram a se reunir regularmente. Os líderes – os presidentes e, no caso da Índia, o primeiro-ministro – passaram a realizar cúpulas anuais, a primeira na Rússia, em 2009.

Desde 2011, por inciativa brasileira, eles vêm-se encontrando, também, à margem das cúpulas do G-20. Assim, desde aquele ano, os líderes dos cinco países reúnem-se duas vezes por ano – e todos os cinco comparecem sempre.

Até 2017, participei da maioria dessas reuniões, no âmbito do FMI, do G-20 e do próprio processo Brics, e posso dar testemunho da importância que os Brics adquiriram. Logo foram percebidos como contraponto ao G-7, o grupo dos principais países desenvolvidos.

Com a aguda crise econômica que atingiu os EUA e a Europa em 2008, os Bric (ainda sem a África do Sul) foram rapidamente reconhecidos como instância de interlocução pelos demais países. O secretário do Tesouro dos EUA, Tim Geithner, chegou a pedir, em duas ocasiões, para participar das reuniões ministeriais dos Brics. Fato insólito, que reflete a fragilidade dos EUA na fase mais aguda da crise de 2008-2009.

Qual foi o papel do Brasil nos Brics? Não pense, leitor, que vou puxar a brasa para a nossa sardinha. Posso dizer, tranquilamente, que o Brasil foi o motor dos Brics. Dos cinco países o nosso era o que mostrava ter mais iniciativa e capacidade de formulação. Isso culminou na cúpula dos Brics de Fortaleza, em 2014, que foi, no meu entender, a mais importante das dez cúpulas realizadas até agora.

Na ocasião, foram assinados os acordos de que levaram à criação do fundo monetário dos Brics, chamado de Arranjo Contingente de Reservas, e o banco dos Brics, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD). Com o estabelecimento de mecanismos de financiamento, a cooperação entre os Brics alcançou novo patamar. Não teríamos chegado a esse ponto sem a atuação do Brasil, particularmente dos ministérios da Fazenda e das Relações Exteriores.

As condições mudam a partir de 2015. O governo Dilma mergulha na crise que levaria ao impeachment e o Brasil perde capacidade de atuar. Com o governo Temer, o problema se agrava. O Brasil continua presente nos Brics, mas já não tem o mesmo peso e nem exerce a mesma influência.

A atuação do governo Temer nos Brics, como em quase tudo mais, tem sido marcada pela mediocridade. Permita-me, leitor, contar um episódio revelador. Aconteceu na cúpula de 2017, que foi em Xiamen, na China. Eu ainda era vice-presidente do NBD e estava lá. Na véspera da cúpula, os presidentes Temer e Zuma, que já haviam chegado a Xiamen, foram convidados pelo presidente Xi Jinping para um evento com empresários.

Eis o que presenciei. Toca uma música solene e os presidentes adentram o recinto. O presidente chinês na frente e o brasileiro e sul-africano atrás, como dois vassalos. Xi Jinping fala primeiro, por cerca de 40 minutos, e em seguida o protocolo anuncia que ele não poderá ficar para ouvir os discursos dos outros presidentes. Para completar a cena humilhante, volta a ressoar a música solene, e Xi Jinping se retira, seguido novamente pelos outros dois presidentes! Foi um papelão.

No período 2015-2018, aconteceu um eclipse do Brasil. E um Brasil ativo faz falta. Percebe-se certa perda de dinamismo e qualidade dos Brics. O NBD, principal realização do grupo, tem pouco a mostrar nos seus três primeiros anos. A China está cada vez mais atuante, mas ela tem agenda estreita e “self-serving”, como observou graduado diplomata com quem conversei semana passada em Brasília.

Tudo isso pode mudar, a depender das eleições brasileiras. O novo governo brasileiro exercerá a presidência de turno dos Brics em 2019. E indicará o novo presidente do NBD em 2020. O Brasil terá a oportunidade de destravar o banco e revigorar o processo Brics.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos Brics em Xangai, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países. E-mail: [email protected] Twitter: @paulonbjr

golpes

Ciclos de inclusão social sempre provocaram reação conservadora das elites do país

Mesmo sem viabilidade eleitoral, o governo da exclusão social de Temer dispõe de diversas candidaturas presidenciais. Mas caberá ao povo a oportunidade colocar em xeque o golpismo do governo dos ricos do país
por Marcio Pochmann* publicado 06/08/2018 09h39
CC 2.0 Marcio Baraldi / Seeb-SP / reprodução
CLT Temer direitos

Golpe que levou Temer ao poder derrubou o enfrentamento da desigualdade com crescimento econômico, pleno emprego e distribuição de renda que pautava os governos de Lula e Dilma

O projeto de inclusão experimentado pelo capitalismo avançado seguiu, em geral, a tríade sucessiva dos direitos civis, políticos e sociais. Com ingresso tardio no modo de produção capitalista, após longeva superação da escravidão, o Brasil constituiu lenta e gradualmente o seu processo próprio de inclusão social demarcado por três ciclos imediatos e fortemente contestados e atacados pelo conjunto de forças liberais conservadoras.

No primeiro ciclo de inclusão social, estabelecido somente para parte dos atores incluídos no projeto de industrialização nacional, coube aos empregados com contrato de trabalho formal a inserção pela via da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Em pleno autoritarismo do Estado Novo (1937-1945), a CLT foi implementada em 1943, somente para empregados assalariados urbanos, quando o Brasil ainda registrava quase 90% do trabalhadores no meio rural.

Uma década depois, quando a população avançava rapidamente para as cidades e crescia o emprego assalariado urbano, a reação liberal conservadora ao governo democraticamente eleito de Getúlio Vargas (1951-1954) se fez predominante. Sem o seu suicídio, o governo Vargas seria possivelmente impedido em 1954, deposto e o presidente, aprisionado pela chamada República do Galeão.

O segundo ciclo de inclusão instala-se com a ascensão do movimento dos trabalhadores rurais ao final da década de 1950. Com isso, o governo de Jango (1961-1964) aprova, em 1963, o Estatuto do Trabalhador Rural, atribuindo aos ocupados do campo praticamente os mesmos direitos sociais e trabalhistas dos empregados urbanos.

Mas a generalização da CLT para o meio rural terminou desencadeando violenta reação por parte do patronato, capaz de aglutinar insatisfações pontuais no movimento que desencadeou o golpe civil-militar de 1964. O abandono do regime democrático se instalou por 21 anos após a deposição de Jango, aprofundando a desigualdade no mesmo sentido que a exclusão apartava a maior parte dos ganhos do crescimento econômico.

O terceiro ciclo de inclusão social tem sua referência na Constituição de 1988, capaz de estabelecer a tardia base do Estado de Bem Estar Social no Brasil. Contra isso, o presidente Sarney (1985-1990) declarou, em 1987, que a nova Constituição tornaria o país ingovernável, o que veio a inaugurar o movimento liberal-conservador no período democrático, responsável pela sustentação do receituário neoliberal ao longo da era dos Fernandos (Collor, 1990-92 e Cardoso, 1995-2002).

Somente com a vitória do presidente Lula, em 2002, que a inclusão social tornou-se a marca dos governos liderados pelo PT (2003-2016). O enfrentamento da desigualdade, com a busca da justiça através da generalização de oportunidades em diversas áreas das políticas públicas (educação, saúde, trabalho, renda e outras) concedeu êxito inquestionável à combinação do aprofundamento do regime democrático com o crescimento econômico, pleno emprego e distribuição de renda.

Tudo isso, entretanto, sofreu enorme retrocesso após o golpe de Estado que possibilitou a ascensão do governo Temer, seguida da deposição da presidente Dilma (2011-2016), da perseguição ao Partido dos Trabalhadores e da prisão política de Lula, candidato à presidente nas eleições previstas para outubro de 2018.

Mesmo sem viabilidade eleitoral, o governo da exclusão social de Temer dispõe de diversas candidaturas presidenciais. Mas caberá ao povo, pela primeira vez, a oportunidade de expressar, nas eleições deste ano, o seu desejo de retornar à terceira fase da inclusão social, colocando em xeque o golpismo do governo dos ricos no Brasil.

* Professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas.

Juca Kfouri: uma saída para o horror

Uma eleição sem o favorito inviabilizará a necessária conciliação nacional. Somente com Lula no pleito, vencedor ou derrotado, sairemos da sinuca de bico em que nos metemos
por Juca Kfouri publicado 01/08/2018 19h35, última modificação 01/08/2018 19h52
Via Blog do Juca
lula e bolso

Não há no candidato do polo fascista nada que se compare com o ex-presidente que deixou mandato com 87% de aprovação

Blog do Juca – Do mesmo modo que há quem não acredite ser justa a prisão de Lula, ou o impeachment de Dilma, existem os que têm em Bolsonaro a figura do salvador da pátria. A julgar, porém, por quem são uns e outros, a semelhança estaciona aí se a questão é meramente de fé.

Porque na turma do ex-presidente, e líder nas pesquisas eleitorais, estão, entre tantos: Chico Buarque, Gilberto Gil, Fábio Konder Comparato, Noam Chomsky, Slavoj Žižek, Leonardo Padura, Luis Fernando Verissimo, Bernie Sander, Thomas Piketty, Milton Hatoum e Raduan Nassar, para ficar em apenas 11 nomes de primeiro time em qualquer seleção que se faça pelo planeta afora, seja pelo que significam no mundo jurídico, das artes, da política, da economia ou da filosofia. Gente que não ganhará, ou perderá, um tostão qualquer que seja o resultado eleitoral.

Não há, do outro lado, em segundo lugar nas pesquisas, nada que se compare, a não ser gente que não se importa com a tortura, com a homofobia, o racismo, com estupro, ou com a mais repugnante idiotia, algumas figuras até da mídia — o que demonstra como certos veículos outrora respeitados despencaram em credibilidade e colaboraram para o clima de intolerância que agora, arrependidos?, denunciam como assustador.

Gente que há mais de 500 anos se locupleta ou que, no desespero da crise, se autoengana com soluções autoritárias. A questão está em como combater a onda fascistoide que ameaça o país nas eleições de outubro.

E não será revelando as barbaridades que defendem, a desinformação que propagam ou os absurdos históricos que repetem.

Porque diante das campanhas midiáticas que nos trouxeram a quadro tão sombrio, nada cola nos propagandistas do retrocesso civilizatório em nome do combate à corrupção que os alimenta.

Se assim foi nos Estados Unidos, não há por que imaginar situação diferente no Brasil.

Tentar desconstruir as falsidades da extrema-direita tupiniquim sobre a escravidão, ou sobre o combate à mortalidade infantil, será pregar no deserto dos que sempre dirão que não foi bem isso que o truculento candidato quis dizer, até porque ele é uma pessoa doce e equilibrada, tanto que carrega no colo crianças que apenas brincam de bang bang.

O esforço para impedir o segundo mandato, a partir de seu primeiro dia, de alguém legitimamente eleita pelo povo, deu nisso: na morte política de quem disputou com ela e na ascensão do que há de pior em qualquer parte do mundo.

Seria formidável se surgisse uma saída intermediária, mas é óbvio que boa parte do Brasil considerará ilegítima uma eleição sem o favorito, o que inviabilizará a necessária conciliação nacional.

Somente com Lula no pleito, vencedor ou derrotado, sairemos da sinuca de bico em que nos metemos.

E para quem avaliar que entre Lula e Bolsonaro existe um conflito de extremos, sempre será bom lembrar que o hoje encarcerado ex-presidente saiu do governo com 87% de aprovação, o suficiente para, se quisesse, convocar e ser novamente reeleito, ao estilo chavista.

E ele recusou.

Lula é tão extremista como Pelé foi goleiro.

O que não podemos é seguir adiante com o quadro de intolerância vivido hoje em dia.

A ponto de ontem, numa mesma entrevista com Fernando Haddad, um lado chamar jornalista de golpista e outro de petista. O que prova, cabalmente, que era apenas jornalista.

força para resistir

Desânimo, doença senil do neoliberalismo

A tristeza e seus sintomas não devem levar os indivíduos a abdicar da luta coletiva. Para psicóloga, preservar a saúde emocional e o desejo de prosseguir requer juntar-se. "Se a pessoa se isolar, pira"
por Isaías Dalle, da Fundação Perseu Abramo publicado 31/07/2018 14h04, última modificação 31/07/2018 14h17
Cláudio Kbene e Ricardo Stuckert
publico do festival lula livre

No sábado nos Arcos da Lapa, ou há mais 100 dias na vigília de Curitiba: gestos compartilhados pela resistência

“Nossos inimigos não nos derrotam quando perdemos. Eles nos derrotam quando desanimamos”. Estas frases, parte dos textos que foram lidos durante o Festival Lula Livre, que reuniu mais de 80 mil pessoas nos Arcos da Lapa, Rio de Janeiro, no último sábado, representam muito mais do que um mantra de manual de autoajuda. São a decifração do objetivo premeditado do golpe e dos ataques neoliberais, e a senha para a necessária resistência.

A melancolia produzida pelo golpe se instalou em primeiro lugar entre aqueles que identificavam a manobra perversa tão logo seus defensores exibiram os tridentes, e foi se alastrando até atingir todos os que tradicionalmente sofrem as injustiças e se aprofundou quando o engodo das promessas de melhora de vida ficou evidente.

Caso a tristeza e seus mais diferentes sintomas permaneçam e levem os indivíduos a abdicar da luta coletiva, o golpe e seus arquitetos terão atingido seu propósito máximo.

O diagnóstico de que a tristeza não é apenas uma consequência natural ou abstrata de um momento pessoal ou da conjuntura político-econômica, mas igualmente parte de um projeto elaborado do poder hegemônico, é compartilhado por diferentes pessoas.

Para essas pessoas, ouvidas pela Fundação Perseu Abramo, o antídoto à sensação de falta de sentido ou de perspectiva, produzida de propósito pelo capitalismo que se pretende onipresente, é juntar-se ao coletivo. Fazer festa, até, como ocorreu no Festival do último sábado, mesmo em meio ao que parece apenas escombros e dúvidas.

“Para manter a saúde mental e o desejo de prosseguir, o melhor caminho é juntar-se aos coletivos. Se a pessoa se isolar, adoece mesmo, pira”, comenta Fernanda Lou Sans Mangano, psicóloga e presidente do sindicato da categoria no estado de São Paulo.

José Genoino, ex-presidente do PT, destacou esse aspecto em recente conversa com militantes e dirigentes. “Se desanimarmos, se perdermos a vontade de resistir, aí eles conseguiram o que queriam”, disse o ex-deputado, ex-ministro e ex-preso político por duas ocasiões, a ditadura civil-militar iniciada em 1964 e o pré-golpe de 2016.

Captando esse panorama, o debate “A Luta que Cura: A Função Terapêutica dos Movimentos Sociais”, realizado em junho na cidade de São Paulo, tornou pequeno o salão da livraria Tapera Taperá. Dezenas de pessoas, jovens em sua maioria, sentaram-se no chão dos corredores externos da galeria para participar.

A psicanalista Maria Rita Kehl, que naquela noite lançava o livro Bovarismo Brasileiro, sintetizou a proposta do debate usando o ponto de partida defendido por Freud, o pai da psicanálise. “Ao contrário da medicina, em que o profissional dá instruções, recomenda práticas de cura, a psicanálise não tem fórmulas. Seu princípio é dizer ao paciente: 'Fala. Fala'. E os movimentos sociais são, para muita gente, o primeiro e o único lugar onde elas podem falar e ser escutadas”, afirmou Maria Rita.

No mesmo debate, Guilherme Boulos, liderança do MTST, narrou sua experiência de descoberta do movimento de luta pela moradia. “Senti a energia renovadora de estar com as pessoas e participar daquele processo de troca, de solidariedade, de dividir as tarefas na cozinha, no cuidado com as crianças. É mais forte e transformador do que qualquer experiência acadêmica”.

O assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes, a prisão de Lula sem provas, a seletividade da justiça que prende ex-tesoureiros do PT e nem cita os dos demais partidos, a condenação de 23 ativistas por uma corte do Rio, o desassombro crescente da defesa de teses repressoras e preconceituosas, o desemprego, a queda ou sumiço dos salários, o extermínio de direitos e de políticas públicas, a continuidade da repressão nas periferias e tantas outras tragédias são aspectos em relevo de uma dor que se aprofunda em tempos de golpe e, mais especialmente, da ausência de sinais contrários à crise.

“Essa é a experiência da classe trabalhadora hoje – uma classe expulsa do trabalho, que é expropriada materialmente mas também existencialmente. A expropriação do capitalismo funciona também destruindo nossos vínculos, esgarçando nossas confianças uns nos outros”, comenta a antropóloga Alana Moraes. Tomando como exemplo os movimentos de moradia na capital paulista, Alana destaca que “as pessoas chegam falando que sentem o corpo doído, paralisado”.

“O que é resistir senão ter um corpo que, assumindo sua vulnerabilidade, é capaz de se unir a outros e se refazer, se engajar em si próprio outra vez?”, questiona a antropóloga. E propõe uma outra forma de encarar, como movimento, essa questão: “A esquerda não consegue compreender ainda hoje que as pessoas se mobilizam porque sentem no corpo uma transformação, porque o corpo não consegue mais sustentar uma paralisia quando descobre uma cumplicidade no sofrimento do outro. Elas não saem de uma situação-limite porque 'tomaram consciência', mas porque foram capazes de sentir de outro modo”.

Na opinião de Alana, é preciso recuperar a ideia de formas de vida para a superação da melancolia. “Nossas saídas sempre tiveram a ver com composições de outras relações possíveis: vizinhança, compartilhar cuidados, saberes, receitas, terapias, medicações, nossas estratégias de proteção contra a violência doméstica e outras”. Para ela, sem dúvida, “algo acontece quando as pessoas se juntam, quando percebem que outras pessoas se importam com aquele desespero que antes era solitário”.

Nessa perspectiva, talvez novas formas de luta possam ser encontradas em dispositivos antigos ou anteriores à institucionalização de entidades ou formas de organização havia pouco predominantes. O movimento sindical, por exemplo. Para Artur Henrique, dirigente da Fundação Perseu Abramo e ex-presidente da CUT Nacional, é necessária uma rediscussão das formas de organização. “Em conjunto com movimentos sociais e partidos de esquerda, para atuar junto com os movimentos de cultura, de arte, de lazer, nos bairros, nas periferias, para pensar desenvolvimento local, economia solidária, educação, novas formas de comunicação e de disputa”, comenta.

O sindicato presente nos bairros, onde as trabalhadoras e os trabalhadores moram, não é exatamente algo novo, embora pouco cultivado em períodos recentes. O chamado Novo Sindicalismo, profundamente ligado à essência do PT e da CUT, apostou muito nisso. No início do século 20, o movimento sindical, que foi capaz de construir movimentos como a greve geral de 1917, dedicou muito de sua energia e tempo às atividades comunitárias organizadas a partir dos bairros. Com teatro, bailes e portas abertas fora do horário comercial.

Formas diversas de luta pululam em vários espaços. “Quando as pessoas se mobilizam para não ter um posto de saúde fechado, quando ocupam escolas, quando denunciam a violência policial numa quebrada, quando sustentam um cursinho popular, estamos cercados de experiências que podem indicar novos caminhos para a política institucional se democratizar”, comenta Alana Moraes. E democratização envolve mais gente, amplia coletivos, espanta a tristeza e o desânimo.

De qualquer maneira, a solidariedade deve ser a base de tudo, como força motriz contra a opressão capitalista. Mesmo quando tudo parece perdido. Um testemunho poderoso vem de Sérgio Silva, o Serginho, fotógrafo que foi atingido por uma bala de borracha em seu olho esquerdo pelas forças de repressão enquanto cobria manifestações de rua em junho de 2013. Serginho perdeu a visão. “O que me deu força para continuar foi o apoio que eu recebi de pessoas que eu conhecia e daquelas que eu nem conhecia”, conta ele.

Serginho trabalha atualmente na Fundação Perseu Abramo. Continua acompanhando os movimentos sociais. Durante a Flipei (Feira Literária de Paraty – Editoras Independentes), lançou o livro Memória Ocular – Cenas de um Estado que Cega, junto com Tadeu Breda. Nele, narram a violência das armas oficiais que atinge os cidadãos e buscam energia renovada para manter a resistência.

consciente

Descrença na política, a arma da direita para se manter no poder

Sem capacidade de organizar majoritária quantidade de signatários a seu favor, estratégia é desmobilizar o eleitor, sobretudo o mais crítico, para que proteste por meio do voto branco, nulo ou mesmo a abstenção
por Marcio Pochmann* publicado 30/07/2018 08h51
Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados
Camara impeachment

Formada por representantes das elites, Câmara aprova leis e medidas contrárias aos interesses populares, como foi a derrubada da presidenta eleita legitimamente, Dilma Rousseff

A eleição geral de 2018 – a oitava desde 1989 – apresenta-se circunscrita a uma importante contradição. Não obstante a sua significância para o desbravamento do impasse gerado com o golpe que possibilitou a trágica ascensão do governo Temer, a população indica elevado grau de descomprometimento e descrédito com a política.

Pesquisa realizada no ano passado pelo Instituto Paraná indicou, por exemplo, que quase três quartos dos eleitores brasileiros não repetiriam, em 2018, o mesmo voto concedido a deputado federal nas eleições de 2014. Naquele ano, embora o país possuísse um total de 141,8 milhões de eleitores, somente 97,2 milhões deles votou para deputado federal, ou seja, apenas 68,5% dos brasileiros em condições de votar.

Ao se considerar somente os votos recebidos pelos 513 deputados federais eleitos em 2014 (58,1 milhões), nota-se que a Câmara representa, no seu conjunto, menos de 41% do total dos eleitores. Resta ainda considerar que dos 513 deputados federais, somente 36 deles alcançaram o chamado coeficiente eleitoral, sendo os demais 477 eleitos por meio de votos transferidos de outros candidatos.

Ao se contrastar o perfil da Câmara Federal com a composição da sociedade brasileira pode-se perceber o enorme contraste. Mesmo representando mais de 51,5% do total da população, as mulheres mal alcançam 10% do total dos deputados federais, assim como a população não branca possui menos de um quinto do total do parlamento brasileiro.

No mesmo sentido da sub-representação política, encontra-se, por exemplo, a classe trabalhadora, uma vez que os empresários, por não alcançar nem mesmo 5% da população ocupada, detêm quase 45% do total dos deputados federais. Também os 12,3 milhões de trabalhadores da agricultura familiar não conseguem registrar dez deputados federais, enquanto cerca de 40 mil grandes proprietários rurais alcançam uma bancada com quase 40% do total da Câmara Federal.

A representação política desconexa em relação à composição da população e o descrédito da política decorrem direta e indiretamente da experiência acumulada de duas décadas de forte presença do financiamento empresarial das campanhas eleitorais. A contaminação do poder econômico no processo de escolha da representação política terminou por deslocar o candidato do eleitor em direção ao financiador privado.

Em consequência, o avanço da fragmentação partidária foi imediatamente acompanhado pela formação de burocracias especializadas na formação de verdadeiras máquinas eleitorais – capazes de agenciar campanhas cinematográficas – e de força de trabalho voltada para a conquista mecanicista e sem compromisso com o voto. Com isso, o deputado federal, salvo as exceções, foi gradualmente se tornando uma espécie de vereador federal, comprometido com a agilização de recursos orçamentários aos seus feudos políticos, por meio das emendas, cada vez mais impositivas.

Das antigas candidaturas ideológicas, compromissadas com causas e opinião sobre questões de ordem nacional, passou-se à mediocridade do parlamentar de senso comum, sem cara, nem personalidade que possa colocar em risco a sua releição. Enfim, uma profissão, sem vocação, quase um negócio a serviço do seu próprio interesse, cada vez mais distante do sentido de população e nação.

Expressão disso foi a manifestação de baixo nível e desqualificação verificada durante a votação do impeachment da presidenta Dilma na Câmara Federal. Quanto tempo faz que o parlamento federal se distancia da função de ser a verdadeira caixa de ressonância da população e do sentido de nação?

Essa situação, contudo, não deixa de ser a própria expressão da visão predominante da direita. Sem capacidade de organizar majoritária quantidade de signatários a seu favor, ela trata de desmobilizar o eleitor, sobretudo o mais crítico, para que proteste por meio do voto branco, nulo ou mesmo com a própria abstenção.

Dessa forma, a minoria dos votos da direita cresce em proporção, frente ao avanço da descrença política. Nesta circunstância, o protesto construtiva é escolher melhor e votar, pois do contrário, o voto nulo, em branco, ou a abstenção podem simplesmente favorecer a permanência justamente daqueles que a população mais repulsa.

Pesquisa realizada pelo Diap aponta que as eleições vêm permitindo a renovação cada vez menor para a Câmara Federal. No ano de 2014, por exemplo, a taxa de renovação foi de 44% dos deputados federais, enquanto foi de 62% nas eleições de 1989. Para este ano, por exemplo, a expectativa parece indicar menor renovação, podendo consolidar, inclusive, o perfil parlamentar ainda mais conservador e desconectado do conjunto da população e do sentido de nação.

Professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas

Caminhos

Lula vai até o fim na disputa pelo direito de ser candidato

É o que indica o cruzamento de recentes pesquisas qualitativas e quantitativas com a estratégia jurídica dos defensores de Lula
por Paulo Salvador, da RBA publicado 29/07/2018 09h27
Ricardo Stuckert / IL
Lula candidato

Lula vai manter a candidatura até ter todos os recursos julgados. Essa é a estratégia jurídica dos seus advogados. Isso significa trilhar o caminho jurídico até o final.

O PT registra sua candidatura, com manifestação pública no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília, dia 15 de agosto – que é o último dia para inscrição, mas é também o primeiro dia de campanha eleitoral. Dois dias depois, haverá pedido de impugnação, o que levará o PT a recorrer ao próprio TSE ou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), cujo julgamento pode demorar mais alguns dias e, mesmo impugnada a candidatura, cabem outros recursos da decisão, embargos infringentes, de declaração e de regimento.

A candidatura Lula entra assim no estágio sub judice, ou seja, estará inscrita, mas responderá ao processo de impugnação. A propaganda já estará aberta e, de acordo com o Artigo 16-A, do Código Eleitoral, “o candidato cujo registro esteja sub judice poderá efetuar todos os atos relativos à campanha eleitoral, inclusive utilizar o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão e ter seu nome mantido na urna eletrônica enquanto estiver nessa condição, ficando a validade dos votos a ele atribuídos condicionados ao deferimento de seu registro por instância superior”.

Por essa possibilidade, de estar candidato sub judice, de fazer campanha em rádio e televisão e ter seu nome na urna, é que Lula não antecipará qualquer decisão sobre não concorrer e isso significa que não haverá escolha de seu substituto, mesmo que tenha um vice, isso também não significará que esse vice possa ser o seu sucessor.

É possível prever que, em sendo Lula, toda sorte de maldades será lançada e  é possível desenhar um cenário onde o STJ julgue na primeira hora todos os recursos que receber. Mesmo assim, há prazos para novos recursos. Seus advogados concluem que, mesmo trabalhando aceleradamente, o STJ não conseguirá julgar todos os recursos até a diplomação, prevista para próximo do Natal, já que a posse é em 1º de janeiro.

Resta saber como o STJ vai "sujar as mãos" para abreviar esses julgamentos, lembrando que o TSE diz que em menos de um mês das eleições, em torno de 7 de setembro, não consegue mudar os nomes listados nas urnas.

Referenda essa estratégia o fato de cerca de 1.300 candidatos a prefeitos em 2016 concorreram sub judice e 7 em cada 10 foram empossados porque tiveram os recursos contra suas candidaturas derrubados antes da posse. Se tivessem desistido antes, não teriam apostado na possibilidade de vencerem nos tribunais.

Por que Lula desistiria antes do tempo, como querem Ciro e mesmo parte da direção nacional do PT com argumentos de não jogar tudo ou nada?  Esse exemplo servirá para Lula? Pode ser que não, mas é fato que até o ministro Fux, o mais azedo integrante do STF contra Lula, votou a favor dos prefeitos.

Embora esse exemplo dos prefeitos possa parecer frágil, em se tratando de Lula ganhar de novo a presidência depois do golpe, análise de tendências mostra que, quanto mais perto da votação for a troca de candidato, maior a chance de o substituto indicado tornar-se vencedor, por que carrega a votação.  

Porém, a maior força para essa estratégia é o resultado de pesquisas qualitativas. Há tempos que as pesquisas do PT (e não só desse partido) trabalham com os índices e opiniões de aceitação e rejeição dos candidatos. Para a candidatura Lula, vem de tempos a tradicional conta de que um terço dos eleitores fecha definitivamente com Lula, vota nele em qualquer cenário, assim como outros 30% jamais votariam nele, e entre essas duas opções há um conjunto de eleitores que varia entre “gostar de Lula e poder votar nele” ou “gostar de Lula, mas não votar nele”, sendo que a última pesquisa Vox Populi, de 26 de julho, aponta um crescimento dos 30% para 41%.

Concretamente, cruzadas as diferentes manifestações de apoio ao ex-presidente e exercício do voto, Lula chega a 67%. E aparece de maneira muito sólida que essa população não consegue pensar em outro nome que não o de Lula.

Não é só o PT que está com problemas para definir quem pode substituir o ex-presidente na urna: a dúvida é a mesma que têm seus próprios eleitores e apoiadores, que até agora não trabalham com essa possibilidade e não enxergam outro nome.

Se Lula antecipar a sua substituição e não seguir a estratégia dos recursos jurídicos, parecerá uma sucumbência, uma renúncia, uma fraqueza, o que levará boa parte a votar branco ou nulo. Se mantiver esse caminho jurídico e for impugnado em atos de exceção, estará carregando o imaginário popular consigo. E provavelmente transferirá os votos. Estará também transferindo a decisão para o Judiciário "sujar as mãos", como mais uma etapa do golpe.

Solidariedade

Carta de Lula aos que fazem do jornalismo independente trincheira da verdade

Ex-presidente destaca a peleja da blogosfera progressista contra as mentiras da mídia comercial, capitaneada pela Globo. "Plim-plim"
por Luiz Inácio Lula da Silva publicado 27/07/2018 06h00
ricardo stuckert / lula.com.br
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'Tenho sobrevivido a isso que encaro como uma provação, graças à boa memória, à solidariedade e ao carinho do povo brasileiro'

A história ensina que numa guerra, a primeira vítima é a verdade. Encontro-me há mais de 100 dias na condição de preso político, sem qualquer crime cometido, pois nem na sentença o juiz consegue apontar qual ato eu fiz de errado. Isso porque setores da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário, com apoio maciço da grande mídia, decidiram tratar-me como um inimigo a ser vencido a qualquer custo.

A guerra que travam não é contra a minha pessoa, mas contra a inclusão social que aconteceu nos meus mandatos, contra a soberania nacional exercida pelos meus governos. E a principal arma dos meus adversários sempre foi e continuará sendo a mentira, repetida mil vezes por suas poderosas antenas de transmissão.

Tenho sobrevivido a isso que encaro como uma provação, graças à boa memória, à solidariedade e ao carinho do povo brasileiro em geral.

Dentre as muitas manifestações de solidariedade, quero agradecer o espírito de luta dos homens e mulheres que fazem do jornalismo independente na internet uma trincheira de debate e verdade.

Desde que deixei a Presidência, com 87% de aprovação popular, a maior da história deste país, tenho sido vítima de uma campanha de difamação também sem paralelo na nossa história.

Trata-se, sabemos todos, da tentativa de apagar da memória do povo brasileiro a ideia de que é possível governar para todos, cuidando com especial carinho de quem mais precisa, e fazer o Brasil crescer, combatendo sem tréguas as desigualdades sociais e regionais históricas.

Foram dezenas de horas de Jornal Nacional e incontáveis manchetes dedicadas a espalhar mentiras – ou, para usar a linguagem da moda, fake news – contra mim, contra minha família e contra a ideia de que o Brasil poderia ser um país grande, soberano e justo.

Com base numa dessas mentiras, contada pelo jornal O Globo e transformada num processo sem pé nem cabeça, um juiz fez com que eu fosse condenado à prisão, por “ato indeterminado”, usando como pretexto a suposta posse de um imóvel “atribuído” a mim, do qual nunca fui dono.

Contra essa aliança espúria entre alguns procuradores e juízes e a mídia corporativa, a blogosfera progressista ousou insurgir-se. Sem poder contar com uma ínfima parcela dos recursos e dos meios à disposição dos grandes veículos alinhados ao golpe, esses homens e mulheres fazem Jornalismo. Questionam, debatem e apresentam diariamente ao povo brasileiro um poderoso contraponto à indústria da mentira.

Lutaram e continuam a lutar o bom combate, tendo muitas vezes apenas o apoio do próprio povo brasileiro, por meio de campanhas de financiamento coletivo (R$ 10 reais de uma pessoa, R$ 50 reais de outra).

Foram eles, por exemplo, que enfrentaram o silêncio da mídia e desvendaram as ligações da Globo com os paraísos fiscais, empresas de lavagem de dinheiro e a máfia da Fifa. Que demonstraram a cumplicidade de Sérgio Moro com a indústria das delações. Que denunciaram a entrega das riquezas do país aos interesses estrangeiros. Tudo com números e argumentos que sempre são censurados pela imprensa dos poderosos.

Por isso mesmo a imprensa independente é perseguida por setores do judiciário, por meio de sentenças arbitrárias, como vem ocorrendo com tantos blogueiros, que não têm meios materiais de defesa. Enfrentam toda sorte de perseguições: tentativa de censura prévia, conduções coercitivas e condenações milionárias, entre outras formas de violência institucional.

E agora, numa investida mais sofisticada – mas não menos violenta – agências de "checagem" controladas pelos grandes grupos de imprensa "carimbam" as notícias independentes como "Fake News", e dessa forma bloqueiam sua presença nas redes sociais. O nome disso é censura.

Alguns desses homens e mulheres que pagam um alto preço por sua luta são jornalistas veteranos, com passagens brilhantes pela grande imprensa de outrora, outros sem qualquer vínculo anterior com o jornalismo, mas todos movidos por aquela que deveria ser a razão de existir da profissão: a busca pela verdade, a informação baseada em fatos e não em invencionices. Lutaram e lutam contra o pensamento único que a elite econômica tenta impor ao povo brasileiro.

Quantas derrotas nossos valentes Davis já não impuseram aos poderosos Golias? Quantas notícias ignoradas ou bloqueadas nos jornalões saíram pelos blogues, muitos deles com mais audiência que os sites dos jornalões?

Mesmo confinado na cela de uma prisão política, longe de meus filhos e amigos, impedido de abraçar e conversar com o povo brasileiro, tenho hoje aprovação maior e rejeição menor que meus adversários, que fracassaram no maior dos testes: melhorar a vida dos brasileiros.

Eles, que tantos crimes cometeram – grampos clandestinos no escritório de meus advogados, divulgação ilegal de conversas entre mim e a presidenta Dilma, todo o sofrimento imposto à minha família, entre muitos outros –, até hoje não conseguiram contra mim uma única prova de qualquer crime que seja.  A cada dia mais e mais pessoas percebem que o golpe não foi contra Lula, contra Dilma ou contra o PT. Foi contra o povo brasileiro.

Mais do que acreditar na minha inocência – porque leram o processo, porque checaram as provas, porque fizeram Jornalismo – os blogueiros e blogueiras progressistas estão contribuindo para trazer de volta o debate público e resgatar o jornalismo da vala comum à qual foi atirado por aqueles que o pretendem não como ferramenta capaz de lançar luz onde haja escuridão, mas apenas e tão somente como arma política dos poderosos.

A democracia brasileira agradece, eu agradeço a vocês, homens e mulheres que fazem da luta pela verdade o seu ideal de vida.

Hoje a (in)justiça brasileira não só me prende como impede sem nenhuma razão que vocês possam vir aqui me entrevistar, fazer as perguntas que quiserem. Não basta me prender, querem me calar, querem nos censurar.

Mas assim como são muitos os que lutam pela democracia nas comunicações e pelo jornalismo independente, e não caberiam aqui onde estou, essa cela também não pode aprisionar nem a verdade nem a liberdade. Elas são muito mais fortes do que as mentiras mil vezes repetidas pelo plim-plim, que quer mandar no Brasil e no povo brasileiro sem jamais ter tido um único voto. A verdade prevalecerá. A liberdade triunfará.

Forte abraço,

Lula