Flávio Aguiar

Esquerdas, volver: cuidado com a avacalhação das palavras e manchetes!

É difícil guardar boas maneiras diante de tanta estupidez. Mas o uso da estupidez como resposta pode nos tornar estúpidos também

Gladson Targa/Arte Digital

Aviso: haverá palavras fortes neste post. Assisto a programa da tevê alemã, sobre debate a respeito do corona-isolamento. Um político de extrema-direita prega o fim “amplo, geral e irrestrito” do isolamento, e arremata: “Se você está com medo, fique em casa!”. Haja estupidez.

Corta.

Assisto a vídeo em prestigiado e bem frequentado site de esquerda no Brasil. Uma mulher bolsonarista anda sem máscara pelo calçadão no Rio de Janeiro, diz que o vírus não é nada, e arremata: “Se você é cagão, apodreça em casa”. Haja estupidez.

Conclusão: o palavreado é diferente, o primeiro é de salão e o segundo é da baixaria, mas a estrutura conceitual é a mesma. Ou seja: cuidar-se, no meio desta pandemia, é problema seu. Danem-se a velhice, a hipertensão, o diabete, o espírito público e a razão.

Já escrevi que o capitalismo financista, ainda dominante, embora não mais hegemônico como já foi, tornou-se pandêmico. O sistema do capital triunfou por sua excepcional plasticidade, adaptando-se aos mais variados contextos. Do empobrecimento do “trabalho livre” no hemisfério norte ao escravismo no hemisfério sul. Do estado de bem-estar social europeu no pós-Segunda Guerra às ditaduras latino-americanas, e outros espaços mais. Mas isso é coisa do passado.

O capitalismo financista está pasteurizando as diferenças, e em nome do individualismo sem freios nem peias vai destruindo as individualidades.

Em resumo, a peste é natural. A crise é social e universal.

Ainda assim, ela transparece com estilos diferentes conforme as circunstâncias.

Avacalhação

E a circunstância brasileira, hoje, é a da avacalhação da semântica política.

O bolsonarismo em todas as suas facetas e facções espelha esta avacalhação em notas de primeira grandeza.

Seu guru filosófico não consegue superar uma fase anal mal resolvida. O presidente só pensa em pênis e arredores. Um general dá um chilique atrás do outro e usa palavreado de fazer corar um cafetão da zona. E por aí se vai. Os encontros de bolsonaristas vão se tornando mais e mais grosseiros e recheados de grossuras sem conta.

Um dos problemas daí decorrente é que este clima está contaminando as esquerdas.

Entendo. É difícil guardar as boas maneiras diante de tanta estupidez. Mas o uso da estupidez como resposta pode nos tornar estúpidos também.

Outro dia li comentário de amigo meu dizendo que Bolsonaro estava “empestado”. Bom, que ele está ou esteve contaminado, também acredito, e que não mostra o tal de exame por esta razão e não por outra.

Mas me lembrei de outro comentário, da primeira-ministra Jacinda Ardern, da Nova Zelândia, quando ela disse que uma das estratégias de sucesso do seu governo foi evitar a estigmatização da doença e dos doentes.

Além disso, se de um lado, usar a palavra “empestado” é inconveniente para chamar um doente, seja ele quem for, em relação ao comportamento político do sr. Messias ela é pouco. Ele não foi “empestado” pelo vírus; pelo contrário, ele é a peste, ele empestou o vírus pela sua politização irresponsável.

Desperdício

Fico também preocupado diante do estardalhaço dado em nossos veículos àquelas baboseiras e bestices dos bolsonaristas. Entendo: há o objetivo de expor como eles estão ficando cada vez mais boçais, e isto é verdadeiro. Por outro lado, engrossam o pânico que assola muita gente de que não há defesa contra eles.

Notícias interessantes acabam não merecendo mesmo destaque. O MST distribui cestas básicas em todo o Brasil. O mesmo faz grupo de teatro sediado na Cracolândia, no centro de São Paulo. Até políticos de direita – seja lá pelo que for – estão tendo que se curvar diante da necessidade de um comportamento público mais responsável.

A cidade de Rio Grande, no extremo sul do Rio Grande do Sul, administrada pelo PT, desenvolveu um dos melhores programas de combate ao vírus. Por que não dar mais destaque a isso, do que às grosserias e estupidezes dos bolsonaristas no chiqueirinho em frente ao Palácio do Planalto ou nos ônibus das grandes cidades?

Enfim, são sugestões de pauta.

A ver.



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