Balanços

Uma possível queda de Bolsonaro e o tombo, já em andamento, do país

Por ora, o alto clero da Caserna se mantém arregimentado em torno de Bolsonaro, além de outras hipóteses sustentarem esta disposição. Em especial as que mantêm a direita sem princípios em torno da manutenção de seus privilégios

Carolina Antunes/PR
Nos paços oficiais da política brasileira o que impera é uma luta caótica pela manutenção de posições conquistadas

Faz muito que defendo a hipótese (olhem minha cautela: nem escrevo “tese”…) de que os eleitores brasileiros são muito mais antenados na situação internacional do que pensa nossa vã filosofia… inclusive a das esquerdas.

Isto não quer dizer que eu defenda a tese (agora sim, tese, para nega-la) de que milhões de brasileiros, dos igarapés na Amazônia ao pampa gaúcho, dos quase contrafortes da Cordilheira dos Andes, no Acre, à Ponta do Seixas, na Paraíba, leiam regularmente o New York Times, o Financial Times, o The Guardian, ou o Granma cubano, e assim orientem seus votos.

O que quero dizer é que os problemas estruturais brasileiros são muito semelhantes aos do resto do mundo, e também as respostas de seu povo. No neoliberalismo imperante, deu FHC. Houve um incitamento reativo um pouco mais à esquerda no mundo: começou, em parte, com Lula, eleito em 2002. Que continuou, com a inclinação do restante da América Latina, iniciada já antes, com a eleição de Chaves, na Venezuela, em 1999.

Depois vieram ainda as vitórias dos Kirchner, na Argentina, Evo, na Bolívia, Rafael Correa, no Equador, Tabaré Vazquez e depois Pepe Mujica, no Uruguai, sendo que “nas Europas” havia governos como os da Alemanha, do Reino Unido, da França, digamos, “falsos esquerdistas”, mas que assim apareciam. No Brasil ainda aconteceu Dilma, antes da catástrofe Temer. Daí veio a rebordosa. Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro no Brasil.

Não tenho nenhum dado estatístico para estas considerações, exceto o “DataFlávio”: consultados, pelo interfone, 1. Margem de acerto e de erro, 100%.

Mas sei que no Brasil impera, tanto à direita, quanto ao centro e à esquerda, o “complexo de Império”. Que quer dizer: o Brasil é um mundo único. Sem paralelo. “As coisas” só acontecem no Brasil…

Por esta razão, faço uma aposta: o destino de Bolsonaro está ligado ao de Trump. Se ele não for reeleito, Bolsonaro cai.

Não tenho a menor confiança no establishment do Partido Democrata nos EUA.

Mas eles (os democratas, se eleito seu representante para a Casa Branca) não vão tolerar esta promiscuidade entre Bolsonaro e Trump. Vão fritar o hambúrguer do clã que ora usurpa o Palácio do Planalto. A retaliação vai atingir o estamento superior da Caserna.

Se Trump for reeleito, Bolsonaro continua, embora em voo raso. Talvez venha a ser abatido pelo fogo ex-amigo, de Moro e Doria.

Pode ser igualmente que as direitas se dividam tanto que, na hipótese de haver eleições, elas estejam muito divididas e não emplaquem um candidato num eventual segundo turno. Embora as direitas pratiquem mais celeremente o voto útil do que as esquerdas.

Nestas, imperam as divisões, por questões de princípio. Naquelas, a união, também por questões de princípio: aos nossos privilégios, tudo; aos direitos dos demais, o rigor do lixo.

Por ora, o alto clero da Caserna se mantém arregimentado em torno de Bolsonaro. Algumas outras hipóteses podem sustentar esta disposição.

1 – O presidente foi um mau militar, mas é um militar.

2 – O alto clero teme uma desavença séria com amplos setores do baixo clero. Este poderia ser neutralizado, mas o custo político interno para a Caserna seria enorme. Disciplina e hierarquia são tudo para os fardados. E estes ainda alimentam muitos preconceitos contra os “paisanos (os civis)”, termo pejorativo no jargão Caserneiro.

3 – Como em outros setores da vida política nacional, não sabem o que fazer com Bolsonaro, mas também não sabem o que fazer sem ele. Para a Caserna, Mourão também é uma opção duvidosa. Ele pode saber comer com garfo e faca à mesa, como já disse um outro comentarista político, mas o que fará com a faca de trinchar a carne é uma dúvida.

4 – É melhor preservar Bolsonaro agora para fritar Guedes mais tarde; agora é impossível descartar o incompetente Chicago’s Old Boy. Um terceiro desembarque tempestuoso em tão pouco tempo, depois de Mandetta e Moro, equivaleria a um tiro de bazuca no governo. Este vem perdendo apoio a olhos vistos na classe média oportunista e coió que votou em Bolsonaro. Com a queda (ou ascensão ao céu dos beatos Tartufos, Mandetta e Moro) de Guedes, cresceria o “desapoio” entre os rentistas, a alta e a baixa finança, e o lumpen-empresariado brasileiro.

Para a Caserna, portanto, o governo de Bolsonaro ainda parece uma Arca de Noé. De momento, après lui, le déluge – depois dele, o dilúvio –, frase atribuída ao rei Luís XV, já que Bolsonaro se comparou a Luís XIV, com “a Constituição sou eu”. Na verdade parece que quem disse a frase, com “nous”, ao invés de “moi”, teria sido Madame Pompadour, amante do rei, para ele.

Estou entre os (poucos) que pensam que nos paços oficiais da política brasileira não impera nenhum plano B, C, ou D, muito menos A ou Z. O que vige é uma luta caótica pela manutenção de posições conquistadas, pelos representantes da Caserna, das Cavernas (os milicianos Bolsos), do submundo político que ascendeu ao primeiro plano (da goiabeira Damares ao maligno Salles, passando pela terraplanície mental da ex-Namoradinha do Brasil, hoje candidata ao título de mais inepta ministra do lupanar desgovernado em que o governo vai se transformando), em nome das benesses imediatas ou de médio prazo que se seguirão.

A escória do empresariado recompensará Salles, Guedes etc., haja o que houver. A Caserna será poupada das “reformas” que se seguirão. O desabamento das expectativas políticas acompanha o desabamento da semântica política brasileira, que nunca dantes foi navegada por tal enxurrada de palavrões e chulices.

Aguardemos os próximos capítulos.