Flávio Aguiar

Na Alemanha, o perigoso flerte com o neonazismo

Política europeia está continuamente caminhando sobre o fio da navalha e, na Alemanha, repete suicídio de proporção continental, como o que ocorreu em 1933

Bündnis 90/Die Grünen Nordrhein-Westfalen
Extrema-direita, representada pelo partido AfD provocou "terremoto" nas últimas eleições locais na Alemanha

Outro dia uma pessoa minha amiga contou-me um episódio bizarro mas significativo de sua vida profissional. Essa pessoa trabalha como guia para grupos de turistas brasileiros numa cidade europeia. Estou ocultando toda e qualquer forma de identificar a pessoa porque não quero arriscar-me a prejudicá-la. A certa altura do passeio, uma das turistas perguntou sobre como se apresentava a imagem do Brasil. A pessoa respondeu: “É a pior possível, com este governo do Bolsonaro”. Retrucou a turista: “É, eu sabia. Mas tivemos de elegê-lo para acabar com a roubalheira do PT”. “Aí”, continuou a pessoa minha amiga, “eu desisti. Era como conversar com uma parede.”

O diálogo truncado mostra o grau de alienação a que se pode chegar para provocar a queda ou impedir a posse de um (possível) governo de esquerda. O PT cometeu erros? Cometeu. Pode ter havido casos de corrupção durante seus governos? Pode – embora reconheçamos que a Lava Jato ou o processo do chamado mensalão nunca provaram coisa nenhuma, a não ser sua própria inconsistência.

Mas a frase da turista embasbacada pela feroz campanha antipetista na mídia e nas redes revela o grau de leniência a que se pode chegar para dar vazão – e razão – aos próprios preconceitos. Mutatis mutadndis lembra aquela falácia segundo a qual a ditadura de 1964 foi um “mal” (ou um “bem-vindo bem”) necessário para evitar “a implantação da ditadura do proletariado que estava em curso”…

Às vezes parece para brasileiros que essas aberrações mentais são uma exclusividade nossa. Ledo e ivo engano, como se dizia antigamente. Para provar a afirmação, detalhemos o terremoto político que ora varre a Alemanha. O abalo sísmico teve efeitos colaterais em vários outros países europeus.

Eleições regionais

Seu epicentro aconteceu no dia 5 passado, no Parlamento do estado da Turíngia, sito na cidade de Erfurt, terra natal da família de Johan Sebastian Bach, embora este viesse a nascer na qual vizinha cidade de Eisenach.

Mas seus antecedentes remontam a outubro do ano passado. Nesse mês realizaram-se as últimas eleições estaduais. O resultado confirmou algumas expectativas e registrou “esperadas surpresas”. Como era de se esperar, o partido Die Linke (A Esquerda) teve o maior número de votos, 31%, crescendo 2,8% e conquistando o maior número de deputados no Parlamento: 29, de 90.

Os partidos que compõem uma rara coligação com ele, o Partido Social Democrata (SPD) e os Verdes, ficaram com 8,2% (oito deputados) e 5,2% (cinco), respectivamente. Ambos registraram perdas na votação: SPD, menos 4,2 pontos percentuais, Verdes, menos meio ponto, em relação ao sufrágio anterior. Do lado das oposições, a União Democrata Cristã (CDU) registrou uma perda fragorosa, de 11 pontos, caindo para 21,8% e 21 cadeiras; o FDP, partido liberal, uma espécie de DEM sem coronéis nordestinos, subiu 2,5 pontos percentuais, conseguindo 5% e assim ultrapassar a cláusula de barreira, ficando com cinco deputados. Quem cresceu mesmo foi a extrema-direita, o Alternative für Deutschland, AfD, indo de 10,6% para 23,4% e 22 cadeiras, tornando-se o segundo partido no Parlamento.

Seguindo a lógica da tradicional política alemã, aconteceria o seguinte: Bodo Remelow, o atual primeiro-ministro do estado, d’A Esquerda, manteria o cargo com um governo minoritário, com os Verdes e o SPD. Essa é uma aliança rara na Alemanha e na Europa. No momento, por aqui, ela só se repete em Berlim e Bremen.

Por que terremoto?

E a Turíngia é o único estado em que a coligação é liderada pela Esquerda (Die Linke). Nas outras duas a liderança cabe ao SPD. A CDU e o FDP apresentariam um candidato alternativo. E o AfD, partido com que todos os outros, mesmo os conservadores, sempre se recusaram a fazer coligação, teria seu próprio candidato.

Assim aconteceu. Apresentaram-se o atual governante, Bodo Remelow, pela Linke + SPD + Verdes; Thomas Kemmerich, do FDP, apoiado pela CDU; e o AfD apresentou um candidato-laranja (na Alemanha dito “Strohmann”, “testa-de-ferro”, Christoph Kindervater, que sequer pertence ao quadro partidário e, aparentemente, nem mesmo ao  Parlamento, sendo prefeito sem partido da cidade de Sundhausen.

Se vencesse, Ramelow encabeçaria um governo minoritário, mas não ingovernável, contando com 42 votos para uma maioria de 46. No primeiro escrutínio ele obteve 43 votos; no segundo, 44 votos. Em ambos, Kindervater obteve os mesmos 22 votos dos deputados do AfD. No terceiro escrutínio, em que se dispensa a necessidade de maioria absoluta, veio a surpresa e junto o terremoto: os deputados do AfD votaram todos em Kemmerich que, com os votos do seu partido e da CDU, ficou com a maioria, 48 votos.

As reações imediatas foram: Kemmerich, eufórico, aceitou a vitória; Alice Weidel, líder do AfD no Bundestag, onde o partido é a terceira força, enviou-lhe cumprimentos. Por que o terremoto?

Porque, pela primeira vez não só na Alemanha, mas em toda a Europa a oeste da Polônia um partido de extrema-direita, que tem vários membros acusados de serem neonazistas, decidiu uma eleição. E na Turíngia, estado que em janeiro de 1930, há 90 anos, elegeu pela primeira vez um governo liderado pelo Partido Nazista de Adolf Hitler!

Foto de Hitler

O governante então eleito, Wilhelm Frick, numa coligação com mais quatro partidos, três declaradamente conservadores e um liberal, acabou sendo condenado e enforcado em Nuremberg, em 1946, como criminoso de guerra.

Os cabelos se eriçaram. Remelow divulgou no Twitter duas fotos patéticas no seu conjunto: a primeira, de Hitler cumprimentando o presidente alemão, Marechal Paul von Hindenburg; a segunda, do líder do AfD na Turíngia, Börn Höcke, cumprimentando o vencedor Thomas Kemmerich, do minúsculo FDP. O paralelo coreográfico entre ambas é evidente, como no caso da coreografia da apresentação do “nosso” Roberto Alvim em relação a de seu “inspirador” Josef Goebbels. Foi demolidor.

Inicialmente, Kemmerich e a CDU local se aferraram ao resultado. Disseram que não houve combinação anterior, embora haja indícios de que Höcke tivesse sinalizado a ambos o que iria acontecer. Höcke é conhecido por suas posições de extrema-direita, xenofobia, tendo declarado que o monumento lembrando o Holocausto em Berlim é um “Memorial da Vergonha”. Há até uma decisão judicial contra ele, dizendo que ele pode ser considerado um “neo-nazi”.

Mas as reações negativas começaram a se acumular. Imediatamente houve manifestações de rua contrárias, em Erfurt e em outras cidades da Turíngia e da Alemanha, inclusive em Berlim. A líder da CDU no Bundestag, Annegret Kramp-Karrenbauer, disse que o resultado era inaceitável. A chanceler Angela Merkel,, em visita oficial à África do Sul, corroborou a declaração da líder de seu partido. O líder do FDP, Christian Lindner, também condenou o resultado.

Houve manifestações de espanto e repúdio em outros países da Europa, como na França, na Bélgica e na Holanda, na Espanha (onde a direita tradicional flerta com o Vox, herdeiro das Falanges Franquistas e até, dizem seus membros, dos Cavaleiros Templários da Idade Média…)

Depois de uma reunião com Lindner, Kemmerich apresentou sua renúncia. Caiu atirando: disse que a culpa de tudo era da Linke e sua intransigência. Resta saber o que vai acontecer: nova votação no Parlamento? Nova eleição no estado? A ver.

O que ficou claro é que a política europeia está continuamente caminhando sobre o fio da navalha. Desta vez o escorregão cortou a sola do pé. Kemmerich queimou-se. No caso do Brexit e da eleição do intragável Boris Johnson, houve uma amputação. Mais adiante pode haver um suicídio de proporção continental, como o que ocorreu em 1933.

Por mais que crescesse e se afirmasse como força política enraizada no cenário político de então, sozinho o Partido Nazista não teria chegado ao poder. Chegou com coligações, como houve no caso da Turíngia, em 1930, graças à colaboração de Hindenburg (que morreu logo depois, em 1934), dos remanescentes da aristocracia alemã e europeia, da passividade das Forças Armadas, do apoio da burguesia alemã, dos banqueiros do país e de alhures, todos obcecados em deter o “perigo vermelho”, fosse o dos bolcheviques, fosse o dos social-democratas e socialistas que, aliás, enquanto isto se engalfinhavam ferozmente entre si. Políticos alemães e de outros países consideraram Hitler um político “normal”, ou até mesmo como um “mal passageiro” e “controlável”, para deter a esquerda.

Como se vê, a goiabice da turista que abriu este comentário tem fino pedigree histórico.