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Na Alemanha, autoridade que pisa na bola, dança

No país europeu, autoridade abusou, dançou. Ao contrário do Brasil, em que, por exemplo, juiz, que abusa de seus poderes, recebe um ministério como recompensa
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13:58
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Hans-Georg Maassen minimizou manifestações nazistas, fez acenos à extrema-direita e foi obrigado a se retirar da vida pública

Hans-Georg Maassen era o todo-poderoso chefe da Verfassungsschutz, serviço de inteligência para a proteção (ou garantia) constitucional. Era? Era. E já era. Por quê? Porque pisou na bola. Dançou. Pisou de novo. Dançou de novo.

O caso começou com as manifestações de extrema-direita, recentemente, na cidade de Chemnitz, na província da Saxônia, perto da fronteira com a Polônia e a República Tcheca. Depois de uma briga em que um jovem alemão morreu esfaqueado e o suspeito do crime era um estrangeiro, manifestantes de extrema-direita se reuniram e começaram a hostilizar, perseguir e até espancar quem pensassem que não fosse alemão.

Na maior destas manifestações, que duraram alguns dias, 5 mil pessoas acorreram. Enquanto desfilavam pela cidade, muitos faziam a saudação nazista, coisa que é crime na Alemanha. 

O caso escandalizou muita gente, à esquerda, ao centro e à direita. A própria chanceler Angela Merkel lamentou os acontecimentos. Houve reações imediatas. Passeatas anti-nazistas e anti-extrema-direita reuniram centenas de milhares de pessoas pelo país. Na maior delas, em Berlim, 240 mil pessoas compareceram, enquanto os organizadores esperavam 40 mil.

Pois Hans-Georg Maassen, como chefe daquela agência, minimizou os episódios da extrema-direita, apesar de haver vídeos, além de testemunhas, das violências e crimes cometidos. Disse que não havia evidências  dos desmandos, contrapondo-se à chanceler. Chegou a sugerir que os vídeos poderiam ser fake news

Dançou. A chanceler exigiu que deixasse o cargo. Instalou-se uma crise na já complicada coalizão de seu governo, composta pelo seu partido, a União Democrata Cristã, a União Social Cristã da Baviera e o Partido Social-Democrata, respectivamente CDU, CSU e SPD, nas siglas em alemão.

Na ocasião, Horst-Seehofer, líder da CSU e Ministro do Interior (encarregado da segurança) do governo, acolheu o demitido Maassen em seu ministério. Por quê? Porque seu partido na Baviera, enfrentaria eleições na província a seguir, e vinha perdendo pontos para o Alternative für Deutschland, AfD, de extrema-direita, crítico da política de Merkel de abertura para refugiados, é óbvio.

A propósito: o AfD abriu um site/disque-denúncia para que estudantes denunciem professores que supostamente façam proselitismo político em sala de aula, no melhor estilo Bolsonaro/Ana Carolina Campagnolo/Escola Sem Partido.

Surgiram comentários de que Maassen mantivera contatos com políticos do AfD anteriormente. Isto não deteve Seehofer. Ofereceu àquele um cargo que inclusive lhe aumentava o salário. Diante do estremecimento da coalizão, com protestos por parte do SPD, chegou-se a uma solução salomônica. Maassen ficaria no ministério dirigido pelo político bávaro, mas sem aumento de salário… O caso parecia resolvido, pois até o SPD, em nome da governabilidade, se aquietou.

Entretanto, o irrequieto Maassen não se deu por satisfeito. Inconformado com a perda do cargo na Verfassungsschutz, pôs-se a fazer publicamente críticas à política liberal de Merkel quanto aos refugiados, inclusive no exterior.

Chegou a chamá-la de “ingênua”, em encontro de chefes de inteligência em Varsóvia, quando se despedia de seus colegas. E foi mais longe: acusou-a de ter em seu governo elementos de “esquerda radical” (o SPD…). Seu discurso foi publicado na mídia alemã e repercutiu em outros países.

Foi demais da conta. Nem Seehofer aguentou. Retirou-lhe o prometido cargo no ministério. Em consequência, Maassen, de 55 anos, foi forçado a uma aposentadoria compulsória e antecipada (a idade de aposentadoria na Alemanha é de 67 anos), Diz ele que agora vai dedicar-se a negócios privados.

Na Alemanha é assim (pelo menos esta é a tendência dominante): autoridade abusou, dançou.

Ao contrário de casos escandalosos no Brasil, em que autoridade, por exemplo, juiz, que abusa de seus poderes, recebe tapinha nas costas e ganha não só cargo no ministério, mas o próprio ministério como recompensa.

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