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Tapetão

O Brasil e suas duas Copas: a real e a surreal

Mais um jogo desta "Taça Lawfare contra Lula", foi disputado neste 8 de julho. Foi o duelo do Direito contra o Arbítrio e, infelizmente, este último saiu ganhando por 3 x 1
por Flavio Aguiar publicado 09/07/2018 10h17
Mais um jogo desta "Taça Lawfare contra Lula", foi disputado neste 8 de julho. Foi o duelo do Direito contra o Arbítrio e, infelizmente, este último saiu ganhando por 3 x 1
Valter Campanato/ABr - APT
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Eu me preparava, no domingo, para escrever um artigo sobre a participação brasileira na Copa do Mundo que está sendo disputada na Rússia (a "real") quando uma outra Copa (a "surreal") invadiu meu espaço de observação e criatividade.

Trata-se da "Copa" arduamente disputada em nosso país e que chamo de "Taça Lawfare contra Lula", ou seja, a perseguição judicial, policial e midiática contra o ex-presidente.

Mais um jogo desta Copa surreal foi disputado neste 8 de julho, em torno da libertação ou não do prisioneiro político número 1 do Brasil. Foi o jogo do Direito contra o Arbítrio, e infelizmente este último saiu ganhando por 3 x 1.

O gol do Direito foi marcado por Favreto, de cabeça, logo no começo do jogo, depois de um centro de Damous. Mas a reação do time do Arbítrio não se fez por esperar. Começou com a pertinácia do zagueiro Roberval, que, dando de bico, fechou a área e não deixou ninguém passar, nem para dentro nem para fora.

Moro fez o primeiro gol do Arbítrio, em impedimento, pois estava pra lá de Marrakesh, muito adiante da linha de zagueiros, aparentando um descanso. Em seguida Gebran fez o segundo gol do Arbítrio, entrando de sola em Favreto e cometendo falta. Thompson Flores completou o placar, com gol marcado com a mão (na caneta) – 3 x 1 em favor do Arbítrio.

Enquanto isto, a Suprema Juíza olhava para os lados, ara cima, para baixo, falando de platitudes como "ordem democrática", "hierarquia", "rigor absoluto no cumprimento das normas vigentes", etc. Nem mesmo se deu o trabalho de conferir os gols na TV. Bem, não adiantaria nada, uma vez que a TV seria a da Globo.

Por ora, voltemos à Copa real. Passada a derrota do Brasil para a Bélgica, começou a sempiterna ladainha das observações de que "agora o povo brasileiro" (essa malta de babacas que adora futebol) "acordaria do estupor da Copa e começaria a ver a realidade". Nesta ladainha o sacerdote que a entoa está de fora; os babacas são sempre outros, que gostam de torcer pelo seu time com ardor. Mas enfim, a ladainha prossegue.

Pelo meu lado, de quem gosta de futebol e de ver o Brasil campeão, anotei uma observação em meu arquivo de favoritos.

A equipe organizada por Tite jogou bem; foi a melhor desde 2002, quando ganhamos a Copa pela última vez. Mas faltou algo - alguém - nela. Trata-se do líder em campo. Toda vez em que o Brasil ganhou ou jogou muito bem, havia um grande líder em campo (ou até dois). O líder não é necessariamente o goleador. Trata-se daquele que "arma" o time, que o organiza na adversidade e impõe o ritmo que leva à vitória, ou pelo menos quase.

Em 50 perdemos, mas havia Zizinho. No desastre de 54, que eu me lembre, o líder não se fez presente. Em 58 ele voltou: Didi (o da célebre caminhada solene depois do gol da Suécia que abriu o placar na final), o Valdir Pereira, o "Príncipe Etíope", o que, quando corria, segundo Nelson Rodrigues, "levava um manto de arminho invisível mas presente nos ombros". O mesmo Didi permaneceu até 62, com a ajuda de Zito.

Em 70 tivemos Gerson e o capitão Carlos Alberto. Em 82, quando não ganhamos, mas jogamos muito bem, havia Falcão no meio campo. Depois, em 94, contamos com Dunga que, com Taffarel, foi mais valioso para ganharmos a Copa do que o próprio Romário, embora as câmeras só quisessem saber deste. Em 2002 havia Cafu.

Todo grande time com grande atuação teve seu líder no passado. O Internacional dos anos 70 e Dom Elias Figueroa, na época considerado o melhor zagueiro central do mundo. Depois veio Falcão neste papel, que ele estendeu ao Roma, na Itália. O Palmeiras e o zagueirão Luís Pereira, além de Ademir da Guia. O São Paulo e Rogério Ceni. O também zagueirão Pinheiro, do Fluminense. A dupla Elton e Milton no meio do campo do Grêmio. E mais: Fritz Walter, Beckenbauer, Puskas, Di Stefano, Kopa, Yashin, o Uruguai em 50 tinha Obdulio Varela. A Argentina, mais que Maradona, teve Kempes. E assim por diante. Até o meu Inter de 2006, quando derrotou o Barcelona, teve Fernandão. Estou esquecendo meio mundo, certamente.

Pois bem, esta figura do líder entrou em declínio no futebol pós-moderno, comandado por superstars. Os times jogam para eles, não eles para seus times. Cristiano Ronaldo, Messi, Neymar, são grandes jogadores, mas não são líderes. Desta vez, o Neymar começou a tentar, mas sucumbiu à tentação no jogo contra a Bélgica. Não vi, até o momento, lideranças de destaque em nenhum time desta Copa. A Alemanha de 2014 teve Kroos. Disse bem: teve. O líder foi devorado pelo apetite das câmeras, que só querem saber de goleadores, de caretas e penteados.

Bem, não sei aonde isto vai dar. Mas não estou gostando do percurso.

Voltemos à Copa surreal. Nesta, há um líder, o óbvio. Um grande líder. Mas ele está encantado, preso nas cavernas do Califado de Curitiba, mais intrincadas do que as da Tailândia, e os feiticeiros que o vigiam vão usar de todos os feitiços, despachos e faltas nos jogos para mantê-lo prisioneiro.

Vai ser preciso muita mandinga para libertá-lo.