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Aplauso à estupidez

O duplo perigo da candidatura de Jair Bolsonaro

Além de ele ser um perigo em si, oferece o perigo colateral: de, numa eleição sem a esquerda coesa, tornar a direita liberal uma 'solução menos pior', como tem ocorrido na Europa
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12:32
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Reprodução/Intercept
Bolsonaro EUA

Bolsonaro bateu continência à bandeira norte-americana em giro pelo país, saudado por brasileiros que vivem em Miami

São Paulo – Várias das recentes eleições europeias aconteceram marcadas por um ritmo repetitivo: movida pelo descontentamento de grande parte do eleitorado com os partidos tradicionais, a extrema-direita cresce. As esquerdas, fragmentadas, obtêm a maioria dos votos. Isto é, se conseguissem se reunir. Não conseguem. Ganha, ou leva, o partido de direita. E todos respiram aliviados: para este, grande vitória; para aqueles, dos males o menor.

Este foi o tom das eleições nacionais na Espanha (onde o Podemos e o Partido Socialista não conseguem se entender), na França (onde o conservador Macron derrotou Marine Le Pen no segundo turno, e os votos dos partidos mais à esquerda, somados, teriam posto um de seus candidatos na disputa final) e até mesmo na Alemanha, onde a dupla CDU/CSU da chanceler Angela Merkel saiu enfraquecida, mas liderando a votação e se candidatando para fazer uma aliança (ainda não formalizada) com o FDP liberal e os Verdes à deriva.

O resultado germânico ilustra a tendência: CDU/CSU se dispõem a fazer concessões mais conservadoras, o FDP já é conservador e os Verdes seguirão provavelmente atrás, como já o fizeram quando as grandes reformas neoliberais foram introduzidas pela coalizão liderada pelo neo-converso SPD (em tese, a social-democracia). Uma ressalva: o FDP é conservador política e economicamente. Mas assim como os Verdes e as esquerdas, é liberal no que toca a costumes, longe da direita hidrófoba brasileira.

A exceção dentro deste quadro repetitivo foi Portugal, onde as esquerdas conseguiram se unir e organizar um governo que está fugindo ao catecismo neoliberal. Outra exceção é o bimilenar Vaticano, mas assim mesmo somente depois das décadas dominadas pela dinastia arqui-conservadora de João Paulo II e Bento XVI. O próximo capítulo deste drama ou comédia de costumes da Europa será jogado na Áustria, no próximo domingo, em eleições em que o Partido da Liberdade, fundado por um nazista ex-SS, onze anos depois do fim da Segunda Guerra, cresce em meio ao vácuo aberto pelo engalfinhamento dos partidos tradicionais uns contra os outros.

Pois o golpe de 2016 abriu as comportas para algo semelhante acontecer no Brasil, no futuro próximo. A candidatura de Jair Bolsonaro à presidência representa um duplo perigo. O primeiro é ela, em si mesma. Levando a cabo seu programa, conforme especificado nas grotescas cenas de sua campanha estadunidense, Bolsonaro transformaria o Brasil em: 1) um imenso presídio, ou campo de concentração, com base na transformação da polícia em esquadrões da morte, estilo Duterte/Filipinas ou pior; 2) cercado de casernas militares por todos os lados; 3) apoiadas por uma infusão americanófila em todas as frentes, na economia, na política, na concessão de tudo, na educação, na cultura, etc.

A cena de sua continência à bandeira norte-americana é eloquente, além da promessa de que ele dará licença para “policial matar”. Também é eloquente o aplauso entusiasmado dos e das Miami panaca boys and girls em frente ao Brazilian Bar onde esta chacina da inteligência aconteceu.

Este é o perigo em si. Mas existe também um perigo colateral. Este é o de que sua ascensão, acompanhada pela também grotesca caçada a Lula e às esquerdas, pode tornar palatável para muita gente uma solução “intermediária”, que consistiria na “aceitação aliviada” de um Alckmim, um Serra, um Rodrigo Maia, um Meirelles, até mesmo de um cada vez mais decadente Doria. 

Ainda não sei se as propostas do general Mourão (que foram suficientemente difusas para ameaçarem todo mundo e ninguém em particular) poderiam também ser alistadas nestas soluções de uma “terceira via”, entre as esquerdas odiadas pelos ressentidos graças à política de favorecimento dos pobres promovida pelos governos liderados pelo PT.

Mas nada é impossível neste mundo desvairado em que nos é dado viver hoje.