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O novo ‘custo Brasil’ para as velhas mentes europeias

Publicado por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual
08:58
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©yannis behrakis/reuters/arquivo rba
Crise na Europa

Pedintes nas ruas de países da Zona do Euro, visto cada vez em maior número, por conta das ‘austeridades’ econômicas

O custo-Brasil é muito alto. Não se trata daquele “custo” sempre marretado pelo ortodoxos da superstição neoliberal, que se refere a impostos muito altos, salários aumentando além da conta, intervencionismo estatal, etc. etc. etc. Não, o custo Brasil a que me refiro é outro. Trata-se do custo de ver-se um país deste tamanho fazendo sombra para aquela ortodoxia. Esta vem devastando a Europa em todos os sentidos. O último destes sentidos a vir à tona de modo dramático está na sua juventude.

Os números do desemprego entre aqueles de 18 a 25 anos na Zona do Euro são o mais recente índice da catástrofe. Os dados são de estatísticas da própria União Europeia:

Alemanha,  7,9%; Áustria, 9,9%; Holanda, 10,3%; Malta, 16%; Luxemburgo, 18,5%; Estônia, 19,4%; Finlândia, 19,5%; Bélgica, 19,6%; França, 26,9%; Eslovênia, 27,1%; Chipre, 28,4%; Irlanda, 30,9%; Eslováquia, 35,9%; Portugal, 38,6%; Itália, 38,7%; Espanha, 55,5% e Grécia, 59,4%.

O aspecto mais assustador destes números está na formação de uma geração inteira de desiludidos com tudo: os “sem-esperança”.

A Suécia não está na Zona do Euro, mas tem um número elevado de desempregados entre os jovens filhos de imigrantes estrangeiros.  Especialistas vêm apontando este alto indíce como a moldura das arruaças que tomaram conta dos bairros onde estes vivem e mesmo de outros na capital, Estocolmo, durante a semana que ora termina. Centenas de carros foram queimados, delegacias de polícia foram apedrejadas, lojas tiveram vitrines espatifadas em pelo menos cinco noites seguidas de enfrentamentos.

A avaliação de acontecimentos como este e dos números do desemprego acima relatados varia muito conforme a posição do avaliador. Mas a maioria das análises correntes ressalta algum extremismo político como ponto de chegada deste descontentamento. Há os que apontam o extremismo de esquerda como o perigo subjacente; outros, o de direita. Fico entre estes.

Por mais que a desesperança desta nova “juventude transviada”(título brasileiro do filme “Rebel without a cause”, de Nicholas Ray, que consagrou James Dean, filmado em 1955) possa motivar contestações ao desarranjado sistema econômico atual, a espinha dorsal deste desespero permanece sendo a descrença na política.

É certo que é difícil manter um interesse pela atual política predominante em grande parte dos países europeus, em que as diferenças entre os social-democratas e os conservadores se reduziu a quase zero durante as décadas que se seguiram à queda do muro de Berlim e ao fim da União Sovíética.

Em muitos países, como na Alemanha, os social-democratas (no caso aliados aos Verdes) foram os introdutores das reformas neoliberais mais radicais, caso também da Espanha; ou seguiram o modelo inaugurado na Europa por Margareth Thatcher, como no caso do Reino Unido, do trabalhista Tony Blair.

Durante este tempo a esquerda foi sendo reduzida muitas vezes a uma situação quase de “reserva ecológica”, de que apenas começa a sair recentemente, como no caso da campanha de Mélenchon na França, que ajudou a “puxar” o programa de François Hollande mais para a esquerda, embora este venha zigue-zagueando agora que está no governo.

Na Alemanha, a Linke – partido de egressos do Partido Social-Democrata e militantes socialistas de diferentes procedências na antiga Alemanha Oriental – oscila entre os 6% e os 10% na preferência da maior parte do eleitorado tendo, entretanto, conseguido algumas votações expressivas em alguns casos, como em Berlim, onde chegou a participar do penúltimo governo da cidade-estado, e em estados do leste.

Enquanto isto o Brasil vai puxando a América Latina mais para a esquerda e para o otimismo em relação ao futuro, o que mostram recentes pesquisas como a publicada pelo jornal Valor, em que 59% avaliam positivamente a situação econômica do país e 88% afirmam que 2014 será melhor do que 2013. Recentemente um jornal britânico sentenciou que este é um otimismo “de fachada” e que ele disfarça o verdadeiro “mal-estar” por detrás, graças a uma taxa de investimento muito baixa.

A crítica deste jornal ao governo de Dilma Rousseff, apontados ambos  como “o” e “a” responsáveis  pelo “mal-estar” aludido, mostra o quão incômoda se tornou a sombra que o Brasil projeta sobre as políticas neoliberais que hoje são moeda corrente em solo europeu, conquistando e ao mesmo tempo devastando corações e mentes no Velho Continente, que, se continuar assim, se tornará de fato cada vez mais velho e destituído de um senso de futuro.

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