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Primavera árabe: passos e impasses (3)

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07:00
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Contra Turquia, Irã, Rússia e Al-Qaeda, a Arábia Saudita, do rei king Abdullah bin Abdulaziz, tenta ter uma influência crescente na região, ajudando a derrubar o governo sírio (CC/ Ammar Abd Rabbo/Flickr)

A desarticulação progressiva de vários regimes na região, com quedas ou trocas sucessivas de governos, abriu uma nova frente de disputa por geoinfluência no Oriente Médio e proximidades. Dentro dos países da própria região a maior disputa por influência no espaço aberto vem se dando entre a Turquia e a Arábia Saudita.

A Turquia vem interferindo de modo sistemático na guerra civil na Síria. Há informações de que o chamado Exército Livre da Síria, formado basicamente por dissidentes do Exército que apóia o regime de Bashar al Assad, vem sendo treinado pela inteligência turca, além do governo de Ankara dar apoio de fronteira aos refugiados. O interesse turco tem a ver também com a situação dos curdos, que fazem parte do grupo rebelde e têm uma posição majoritariamente contrária ao governo da Turquia.

No outro polo, a Arábia Saudita e o Qatar anunciaram recentemente que vão começar a ajuda (se é que já não tinham começado antes) militar – sob a forma de fundos e armamentos – aos rebeldes. Há também um interesse evidente em neutralizar a presença e apoio da Al Qaeda aos dissidentes, neutralização que, é claro, tem o apoio dos Estados Unidos e das potências ocidentais.

Outro objetivo desse apoio, além da derrubada de Assad, está em diminuir a influência turca na regiào, uma vez que a Turquia abriga, entre outros refugiados, um dos comandantes desse Exército Livre da Síria, o Coronel Riad al Assad. E a Turquia apoia abertamente o braço civil da rebelião, O Conselho Nacional Sírio, que também recebe fundos internacionais do Ocidente, sem o que, diz-se, ele não sobreviveria.

A intervenção saudita no conflito sírio tem também o objetivo de isolar o Irã. O governo da Arábia Saudita é dos que mais pressionam os Estados Unidos para que façam um ataque militar ao Irã.

Um objetivo não desprezível do governo de Riyad é também o de neutralizar a influência soviética na região. A Rússia está na defensiva, e um de seus objetivos maiores, antes de concordar abertamente com a saída de cena de Bashar al Assad, é o de garantir a permanência de sua base naval no porto de Tartus.

Essa base é a única que resta a ela, dentre as mantidas pela antiga URSS, fora de seu território. Ela é estratégica tanto do ponto de vista militar quanto econômico, pois garante que os navios russos que operem no Mediterrâneo possam se reabastecer sem ter de ir a portos russos através do Mar Negro, passando por águas e estreitos (Bósforo e Dardanelos) controlados pela Turquia, que é membro da OTAN, ainda que sejam abertos à navegação internacional.

O maior apoio que a Rússia tem na questào é o da China, mas este restringe-se à frente diplomática, graças à proximidade que a China quer manter com Moscou no Conselho de Segurança da ONU.

A ofensiva saudita visa também garantir uma liderança e posição hegemônicas na sua área mais próxima de influência, a região que margeia o Golfo Pérsico, que perfaz a sua fronteira natural com o Irã. Em nome disso, o governo do rei Abdullah bin Abdul Aziz, um dos mais autoritários do mundo, comandou a invasão do vizinho Bahrain, quando a onda de contestações chegou até ele, por tropas em nome do Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo [Persa].

De um modo geral, os sauditas são os mais ecarniçados inimigos do que se convencionou chamar de “Primavera Árabe”. Não só invadiram o Bahrain, como deram asilo ao ex-ditador da Tunísia (Zine El Abidine Ben Ali), que para lá fugiu com uma fortuna em ouro sacado dos cofres do seu país,  e apoiaram Hosni Mubarak no Egito enquanto isso foi possível.

O governo de Riyad forneceu proteção e tratamento médico ao presidente Ali Abdullah Saleh (que estava no poder há 33 anos), do Iêmen, quando houve um atentado contra ele que o deixou gravemente ferido – uma tentativa de consolidar uma nova relação com este país, que era visto como possível área de influência do Irã.

Riyad também ajudou a patrocinar o acordo que permitiu a subsituição de Saleh pelo seu vice-presidente, em troca de sua imunidade e permissão para seguir para os Estados Unidos,  para tratamento médico, embora no momento ele esteja de retorno a seu país.

A situação interna da Arábia Saudita será objeto de futuro artigo.

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