LALO LEAL

Lula venceu o silêncio e aqueles que queriam jogá-lo no ostracismo

Com o fracasso da estratégia do conluio golpista no país, ex-presidente voltou às manchetes e ao centro da cena nacional

Ricardo Stuckert
Lula no relançamento do livro 'A verdade vencerá' no Sindicato dos Bancários SP: solto, correndo o país, Lula volta a assombrar as elites brasileiras e a mídia busca socorrê-las

A condenação de Lula ao ostracismo fracassou. Ele voltou às manchetes e aos noticiários eletrônicos, primeiro graças à sua libertação e depois com o retorno dos ataques furiosos. A tática do conluio golpista que o impediu de se candidatar às eleições de 2018 era torná-lo um cadáver político, sepultado numa cela de Curitiba por tempo indefinido e esquecido. Mas a prisão escandalosamente política, deixada clara pelas revelações do Intercept, criou o clima para tirá-lo da cadeia. Fato que aliado à sua indiscutível popularidade e ao seu patrimônio eleitoral frustraram a fase final do golpe, trazendo-o outra vez para o centro da cena nacional.

Antes disso, sofreu uma das mais agressivas campanhas midiáticas da história brasileira. Comparável à que levou o presidente Getúlio Vargas ao suicídio em 1954, agravada agora pela ampliação exponencial do alcance dos meios de comunicação, ocorrida durante o meio século que separa um fato do outro.

Apesar de um espaço tão grande de tempo, as semelhanças são gritantes. Tanto na postura dos dois presidentes, como nos ataques dos meios de comunicação. Basta lembrar as lutas travadas por Getúlio em defesa da soberania nacional afrontando os interesses do império estadunidense. Só uma delas, a batalha do “petróleo é nosso” dos anos 1950, é suficiente para nos transportar para este começo do século 21, quando a descoberta do pré-sal anunciava, no governo Lula, uma nova chance de independência nacional. Não custa lembrar que os recursos advindos da nova descoberta seriam aplicados, prioritariamente, em saúde e educação. A nova potência que surgiria no hemisfério sul seria incompatível com os desígnios do império, daí o golpe de 2016, como fora a tentativa golpista que levou ao suicídio do século anterior.

Cobertura

As semelhanças não se limitaram às causas dos golpes. Elas podem ser vistas com nitidez também na cobertura da mídia. Em primeiro lugar a ênfase na sempre superdimensionada corrupção. Fenômeno que, a bem da verdade, ultrapassa fronteiras, como  lembra o professor Stanley Jason, da Universidade de Yale, em seu livro recente “Como funciona o fascismo”. Diz ele “mascarar a corrupção sob o disfarce da anticorrupção é uma estratégia marcante da propaganda fascista”.

Até a expressão “mar de lama”, cunhada nos anos 1950, foi ressuscitada pelo candidato de oposição à sucessora de Lula, ele sim comprovadamente envolvido em atos ilícitos, explicitando na prática brasileira a afirmação do acadêmico estadunidense. Contra Getúlio a mídia consagrou outra expressão repetida à larga: “República do Galeão”, referência à base aérea onde se desenrolavam os inquéritos sobre o atentado que matou o major-aviador Rubens Vaz e que estava ao lado do jornalista e político Carlos Lacerda, desafeto maior do presidente da República. Inquéritos direcionados para levar o presidente à prisão. Não por acaso, o grupo atual formado por juiz e procuradores no Paraná tornou-se para setores da mídia a “República de Curitiba”.

São expressões simbólicas de fácil assimilação e forte carga emocional, capazes de conquistar adeptos sem muito esforço. Sua desconstrução é mais difícil, requer o uso da razão, além do interesse e do alcance cognitivo do interlocutor. São, na verdade, mensagens publicitárias e não jornalísticas. Buscam conquistar corações e mentes para os seus propósitos políticos. A elas juntaram-se em tempos recentes palavras como “Mensalão” e “Lava Jato”. No primeiro caso, a Folha de S.Paulo chegou a encimar várias de suas páginas com aquela mensagem publicitária sabedora, com certeza, de que nunca existiram pagamentos mensais de propinas a políticos. Mas qual publicitário iria abrir mão de uma palavra tão saborosa para vender seu produto, no caso a destruição de um projeto nacional e popular em fase embrionária?

Publicidade

Essa adaptação do jornalismo à publicidade, imposta pelos controladores da mídia, encontra resistência cada vez mais tênue nos próprios cursos acadêmicos e nos profissionais por eles formados, como mostrava já em 2010 o professor Rogério Christofoletti, da Universidade Federal de Santa Catarina.  Em artigo publicado na revista Líbero, depois de analisar os 100 cursos de jornalismo mais antigos do Brasil, concluía: “O panorama das disciplinas deontológicas nos cursos brasileiros que apresentamos aqui é preocupante pelo reducionismo a que foram confinados”. Mostrando-se a seguir esperançoso com a possibilidade de mudanças nesse quadro o que, até aqui infelizmente não se confirmou.

Os exemplos de desvios éticos são constantes e no caso de Lula gritantes. Casos mais recentes mostram os poucos segundos oferecidos pelo Jornal Nacional da Rede Globo a absolvição do ex-presidente no episódio denominado pela mídia de “quadrilhão do PT”, outra expressão digna de publicitários. No momento da denúncia o tempo dado pelo jornal foi generoso, passando dos 12 minutos. Sem falar no famoso “powerpoint” do Dellagnol, exibido à exaustão numa das farsas mais grotescas do telejornalismo brasileiro.

Solto, correndo o país, Lula volta a assombrar as elites brasileiras e a mídia busca socorrê-las. Manchetes estapafúrdias, contrastantes com o próprio conteúdo da matéria são forjadas rapidamente. É o caso da entrevista esclarecedora de Marcelo Odebrecht para a Folha, sobre a venda de serviços da empresa ao exterior, apoiada pelo governo do PT, como faz qualquer governo e que se transformou numa manchete de capa acusatória: “Lula pediu obra em Cuba, afirma Marcelo Odebrecht”.

Em seguida, num mesmo dia, Estadão, Folha, Globo e Valor destacam no alto de suas capas “novas” revelações da Lava Jato envolvendo o filho do ex-presidente, o sítio de Atibaia e uma empresa de telefonia, numa ação conjunta reveladora de um certo desespero editorial. Há um inconformismo evidente com o inabalável protagonismo político de Lula demonstrando, na verdade, uma derrota da mídia e de seus associados, os integrantes da organização persecutória de Curitiba.