Primavera da mobilidade no Brasil

Manifestações contra reajuste das passagens do transporte público espalham-se pelo Brasil e escancaram a insatisfação acumulada por anos de problemas urbanos

Ninja/CC
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Tarifas simbolizam a falta de direitos que atinge principalmente os mais pobres, mas também outras classes

O dia de hoje pode entrar para a história do país como o momento em que o copo transbordou. Até agora são nove manifestações contra os preços das tarifas do transporte coletivo marcadas em cidades de todo o Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro, Santos, Porto Alegre, Maceió, Santarém, São Carlos, Sorocaba e Natal verão marchas de cidadãos fartos de sofrer para pagar o ônibus. Se esse movimento tornar-se de fato nacional vai ficar difícil para os prefeitos, governadores e, principalmente, empresários, deixar de abrir a caixa preta do financiamento do transporte coletivo e colocar a questão em pratos limpos.

Entretanto, apesar de o tema das marchas ainda ser único, é muito difícil acreditar que tanta gente tenha motivação para sair de casa apenas por conta dos reajustes das tarifas. Eles acontecem todos os anos, mas nunca houve um movimento tão forte contra isso. Ainda não é possível cravar a motivação das pessoas que se expõem à violência policial para estar nesses protestos, mas o sentimento de que algo está errado cresce.
Talvez inspirados nos jovens árabes e, mais recentemente, nas revoltas da Turquia, os brasileiros não reclamam só das tarifas. Elas são o símbolo da falta de direitos que atinge principalmente os mais pobres, mas também as classes média e alta. A sensação de que as cidades brasileiras estão prestes a explodir é palpável. O aumento da tarifa virou mais um elemento; os problemas são mais profundos.
É claro que ainda não há uma pauta de reivindicações que extrapole a mobilidade; o direito à locomoção tornou-se um símbolo. Todos sentem-se acuados. Os que são um pouco mais ricos morrem de medo da violência que, para eles, vêm da periferia. Tentam proteger-se dentro de muros e de carros, mas sabem que isso não adianta. Sem entrar em análises profundas das causas da insegurança e do medo, essas pessoas sabem que algo está errado e deve ser consertado.
Já aqueles que de fato sofrem com um aumento aparentemente pequeno no ônibus são historicamente tão oprimidos que causa espanto que só agora tenham vindo às ruas. São moradores da periferia, que têm seu direito de ir e vir cerceado todos os dias não apenas porque não podem pagar o ônibus, mas também por conta da violência do próprio estado contra eles. A violência policial que acontece nas passeatas está presente todos os dias nos bairros pobres. Lá, jovens negros não têm o direito de andar na rua sem serem questionados. São ensinados a responder de cabeça baixa a qualquer pergunta da polícia, mesmo as mais descabidas. São humilhados publicamente. Podem ser mortos sem ter qualquer ideia do motivo.
Essas duas realidades estão ligadas. As passeatas que juntam realidades distintas podem ajudar a criar empatia entres os grupos e conceber um objetivo comum que vá além da mobilidade, ainda que isso leve algum tempo.
Mas ainda que apenas a mobilidade seja discutida, a mudança pode ser extraordinária. Seria revolucionário encontrar uma maneira de diminuir as tarifas do transporte, aumentar as possibilidades de gratuidade e criar novas conexões das pessoas com o espaço urbano da própria cidade. Quantos moradores de São Paulo nunca foram ao Ibirapuera? Quantos cidadãos do Rio e de outras cidades litorâneas não podem se dar o luxo de ir à praia no final de semana? Esse muro precisa cair. Nossas cidades são partidas e os sistemas de transportes mostram isso. A oportunidade de mudança é única.
Resta saber se essa oportunidade será percebida em toda a sua potencialidade pelos governantes em todos os níveis. O ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, em vez de pedir uma investigação sobre a violência policial contra os manifestantes em São Paulo, ordenou à Polícia Federal (!) que analise os atos cometidos durante as passeatas. É evidente que não sou contra a investigação dos atos de vandalismo, sempre isolados, mas o discurso governamental deixa claro que a polícia poderá agir como bem entender, enquanto todo o movimento poderá ser penalizado por conta de alguns atos individuais.
Uma declaração desse tipo de um integrante do maior partido de esquerda do país é uma mostra de que a política tradicional perdeu o pulso dos problemas atuais. Se até o PT, partido que junta grande quantidade de pessoas que lutaram contra a ditadura nas ruas, não consegue ver pertinência nos protestos de São Paulo é porque envelheceram na prática da política. Até agora, na verdade, nenhum partido conseguiu canalizar a força dessas manifestações.
Há uma triste consonância de discursos entre governos federal, estadual e municipal em alguns aspectos desse caso. Todos afirmam que os atos de vandalismo são inaceitáveis. Pode até ser, mas a inoperância dos meios de transportes na cidade superam e muito qualquer prejuízo com ônibus queimados. Prejuízos financeiros, sociais e de saúde. Se o vandalismo acabou sendo usado como meio de protesto é porque a violência da situação da mobilidade é muito maior.