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Tiago Araripe acerta em CD lançado após ausência de 30 anos

Publicado por guibryan1
01:25
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Tiago Araripe e o delicioso Baião de Nós (reprodução)

“Trinta anos de abstinência fonográfica não me fizeram perder o apetite”, garante o cantor e compositor cearense Tiago Araripe, no encarte do ótimo e recém-lançado álbum Baião de Nós. O artista havia chamado atenção no início da década de 1980, com o disco Cabelo de Sansão, lançado pelo selo alternativo da casa noturna Lira Paulistana, e rapidamente foi incluído na denominada “vanguarda paulista”, na qual também foram incluídos Rumo, Premeditando o Breque, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, entre outros. Mas andou longe dos estúdios até que, em 2008, o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro resolveu relançar aquele trabalho, pelo selo Saravá Records.

Agora Zeca Baleiro é o produtor, junto com Araripe, do novo álbum, no qual também participa da dançante e irresistível faixa-título do novo disco, da qual é compositor: “Baião de dois / é mais que feijão-com-arroz / baião do Braz / de Marinês / baião de nós / Zabumba, triângulo, sanfona / baião de três / digo outra vez / nunca é demais”. O artista reaparece na autoria de Esfinge: “Eu no Polígono das Secas / você no Delta do Nilo / eu sou o aro da roda / você, tangente do círculo / eu sou o rei do agreste / você, rainha do Egito”.

Baião de Nós começa com o ótimo forró A quantas anda você? – título mais apropriado impossível! A letra-resposta é de uma contundência irresistível: “Se está longe em uma sonda espacial em Marte / além do que os olhos podem ver / ou no deserto esperando a próxima miragem / sem ter alguém ou pra onde correr / ou por aí, em qualquer parte / vendo a Sessão da Tarde na TV”. Em seguida, vem o rock Feito Beatles. Uma das canções mais bonitas do disco é a balada Dois Lados, parceria com Paulo Costa, que também é um dos autores da doce Ideias e da inventiva Click zap, tanto em termos sonoros, pontuados pelo sax barítono de Ivan do Espírito Santo, como de letra: “Eu estou bem na Serra no Araripe / pra ser feliz eu não preciso claque / não adianta vir com dedo em riste / a sua raiva, eu sei, é de araque / Eu tenho dito…”.

Outras ótimas canções são No centro do furacão (que seria lindamente cantada por Ney Matogrosso – fica a sugestão!), Canção do Silêncio, a versão atualizada de 2006 para a delicada Nós (com fortes toques de tango) e a fantástica e inventiva crônica Gregório: “Gregório / não vale ter no calendário / apenas o aniversário / do seu amigo imaginário / Bote a cara / siga em frente, vá à luta / vê que a vida espera você / Mexa o corpo / saia fora dessa zona de conforto / é assim que vale a pena viver”. Nesse sentido, há certo clima “tomzeniano”, artista, aliás, com quem Tiago Araripe dividiu o primeiro compacto na década de 1970.

Tiago Araripe é acompanhado por ótimos músicos, como Ivan do Espírito Santo (saxofone), Tuco Marcondes (violões, gaita, piano, banjo, samplers e synth), Fernando Nunes (baixo), Juliano Holanda (guitarras), Rapha B (bateria), Esdras dos Anjos (teclados), Beto Hortiz (acordeon), Rodrigo Sarrico (violão de 7 cordas e cavaquinho), Adriano Magoo (teclados), Bilu (percussão), Roque Netto (trumpete) e Gilsinho Amarante (trombone), entre outros. Há também as vocalistas Clarissa Araripe e Paula Machado.

O novo álbum é um importante alento para a música popular brasileira e comprova que, se parece muito absurdo que Tiago Araripe ficou tanto tempo longe dos estúdios, agora ele retorna com muita garra e confirmando a imensa qualidade que já se percebia no inesquecível Cabelo de Sansão. Que venham novos álbuns, mas que eles não levem tanto tempo, pois precisamos de artistas como esse cearense bastante inventivo, mas que sabe valorizar o que há de melhor nas tradições musicais.

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