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Com sobreviventes de Fukushima, Cúpula dos Povos repudia opção nuclear

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20:06
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Região atingida por material nuclear por conta do vazamento de usina de Fukushima, no Japão (Foto: Joe Chan/Reuters)

Rio de Janeiro – O repúdio à opção nuclear como fonte de produção energética marcou nesta sexta-feira (15) o primeiro dia da Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20 e protagonizado por redes, organizações e movimentos sociais de todo o mundo. Diversas atividades antinucleares ocorreram durante todo o dia no Aterro do Flamengo e contaram com as presenças de sobreviventes da tragédia de Fukushima, em março do ano passado no Japão, e do acidente com a pastilha de Césio-137, ocorrido na cidade brasileira de Goiânia em 1987.

O ponto alto da discussão foram os depoimentos da estudante Takako Shishido e do fotógrafo Ryo Suzuki, japoneses que vivenciaram de perto o triplo drama de Fukushima (terremoto, tsunami e vazamento radioativo) e também as ações que se seguiram no atendimento às pessoas atingidas. Suzuki falou sobre as imagens que vem registrando no entorno da usina desde o dia do acidente, e Takako fez um emocionante relato das dificuldades de convívio social entre os atingidos pela tragédia.

 “Com meu trabalho, procuro mostrar toda a agressão nuclear ao meio ambiente. O vazamento de Fukushima atingiu não somente a vida dos seres humanos, mas também as plantas e os animais. Temos de levar em conta o valor todas as formas de vida”, disse Suzuki, que é budista. Ele mostrou fotos de animais que foram abandonados por seus proprietários e de cabeças de gado sendo sacrificadas após a contaminação pela radiação. 

Outro trabalho impactante do fotógrafo mostra os escombros de casas próximas à usina de Fukushima onde pessoas morreram ou foram abandonadas para morrer após o vazamento radioativo: “Houve gente que conseguiu sobreviver ao terremoto e ao tsunami, mas que acabou sendo abandonada pelos próprios familiares após a contaminação”, disse Suzuki. Outras fotos mostram plantações de arroz, abandonadas e já tomadas pelo mato, um ano após o acidente nuclear. 

Takako Shishido se apresentou como “refugiada de Fukushima”. Mesmo não tendo sua casa incluída no perímetro em torno da usina onde o governo japonês promoveu a evacuação forçada da população, a destruição generalizada e o impacto na economia fizeram com que ela não conseguisse permanecer morando na cidade natal. De sua janela, distante 50 quilômetros do local do acidente, disse, enxergava a usina e todo o caos ao seu redor: “Era impossível conviver com tanta perda e dor. Eu nadava desde pequena na praia onde fica a usina”, disse.

Consequências

Frente à sensação de medo, a estudante decidiu se mudar para outra cidade, mais ao Norte do Japão, acompanhada pelo filho pequeno. Sua decisão, no entanto, custou a censura e a crítica de amigos e a perda de quase todas suas relações sociais: “Um acidente nuclear como o de Fukushima provoca graves danos, mesmo em quem não foi fisicamente atingido. O vazamento destruiu a confiança que meus amigos sentiam em mim e a confiança que eu sentia neles. Vou ter de conviver com essa tristeza por toda a minha vida, assim como com o medo de doenças que podem se desenvolver por causa da radiação,” resumiu. 

Outras vítimas de acidentes nucleares também participaram dos debates. Trazendo na mão deformada a consequência do contato direto com a pastilha de Césio-137 em Goiânia, Odesson Alves Ferreira falou sobre as duradouras consequências dos acidentes radioativos: “Desde o acidente, cem pessoas já morreram em consequência da contaminação radioativa, mas as autoridades não fazem esse nexo causal porque nem a ciência nos dá essa garantia”, diz.

Mitos

O programa de atividades antinucleares no primeiro dia de Cúpula dos Povos foi promovido pelas organizações Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares, Articulação Antinuclear Brasileira, Rede Brasileira de Justiça Ambiental e Oilwatch. “Além dos testemunhos que mostram as consequências negativas que podem advir da opção nuclear, vamos discutir todo o modelo energético e derrubar alguns mitos, como o que diz ser a energia nuclear uma alternativa limpa e econômica”, afirma Chico Whitaker, um dos maiores ativistas antinucleares do Brasil. 

Whitaker afirmou que até o final da Cúpula as atividades sobre energia nuclear pretendem responder a pergunta “energia para quê e para quem?”, além de analisar as resistências e alternativas à opção nuclear no Brasil e no mundo: “Vamos preparar uma alternativa popular de lei e também organizar a luta contra a construção de Angra 3. O lobby nuclear está sofrendo restrição de mercado no mundo inteiro e quer forçar a barra para se fortalecer no Brasil”.