Aliado do crime

Madeireiros procuraram Ricardo Salles para ‘resolver o problema’ e tirar PF do caminho da extração ilegal

Após apreensão maior apreensão de madeira extraída ilegalmente da Amazônia, fazendeiros queriam ajuda do ministro para interceder na condução de operação da Polícia Federal (PF) que os deixava “indignados”

Marcos Corrêa/PR
Ricardo Salles recebeu os madeireiros duas vezes em seu gabinete antes de visitar a fazenda investigada

São Paulo – Fazendeiros acusados de grilagem e envolvidos em extração ilegal de madeira acionaram o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles “para resolver o problema”. Foi o que revelou o empresário catarinense Rafael Dacroce à Agência Pública, segundo reportagem publicada nesta sexta-feira (30). O objetivo era obter ajuda do ministro para interceder na condução de operação da Polícia Federal (PF), o que os estava deixando “indignados”. A indignação era contra o ex-superintendente da PF no Amazonas, o delegado Alexandre Saraiva. Segundo Dacroce, os fazendeiros envolvidos na operação que levou à maior apreensão de madeira ilegal queriam alguém que permitisse “cada um na sua esfera, cada um na sua competência, ninguém fazendo pré-julgamentos, para ajudar”.

Vereador no município catarinense de Palmitos pelo PP, Dacroce é irmão da médica da prefeitura de Chapecó, Francine Cella Dacroce, proprietária da Fazenda Francine II, alvo da operação da PF.

Salles desconhecia os madeireiros

Segundo a reportagem, em 17 de março Salles recebeu em seu gabinete uma comitiva de empresários, entre eles Dacroce. O encontro foi intermediado pela deputada federal Caroline de Toni (PSL-SC) e o senador Jorginho Mello (PL-SC). Caroline é seguidora do guru do governo Bolsonaro, Olavo de Carvalho e, assim como Salles, militante de extrema direita, orgulhosa de ter estado “na vanguarda dos movimentos que levaram ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff”.

No dia 25, Salles se reuniu novamente com “madeireiros”, conforme sua agenda oficial, e já organizou sua primeira visita à região. No dia 31, menos de duas semanas após o primeiro encontro com fazendeiros até então desconhecidos, o ministro voou para Cachoeira do Aruã, na fazenda Francine II, onde a PF havia feito as apreensões de madeira retirada de maneira ilegal da floresta. Foi naquela primeira visita que Salles disse ter analisado o rastreamento da madeira extraída e já saiu em defesa dos madeireiros. “Há gente séria fazendo o trabalho direito. Não é correto demonizar todo o setor madeireiro. É preciso identificar os criminosos e puni-los duramente, mas sem generalizar”, afirmou em suas redes sociais.

Em 7 de abril o ministro se encontrou pela quarta vez com os madeireiros investigados. Participou do encontro a deputada Carla Zambelli (PSL-SP), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara. Na ocasião, ela afirmou que a comissão tem uma parceria com o Ministério do Meio Ambiente.

Carla Zambelli disse que comissão que preside é parceira do Ministério de Salles (Twitter)

Suspeita de elo entre Salles e grileiros

A atuação do ministro do Meio Ambiente motivou a queixa-crime apresentada em 14 de abril ao Supremo Tribunal Federal pelo delegado Alexandre Saraiva. Para a relatora, ministra Cármen Lúcia, os fatos narrados são de “gravidade incontestável” e envolvem “tema de significação maior para a vida saudável do planeta, como é a questão ambiental”. A petição aguarda pronunciamento da Procuradoria-Geral da República.

Nesta quinta-feira (29), reportagem da revista IstoÉ informou a Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF) estão investigando possíveis ligações entre Ricardo Salles a família de Walter Dacroce. Avô de Francine e Rafael Dacroce, é considerado grileiro profissional, que atuaria na identificação de terras devolutas, aldeias indígenas inclusive, viabilizando a grilagem junto a familiares e a exploração ilegal de madeira nessas áreas. 

Um pedido de CPI da devastação foi protocolado nesta quarta-feira por deputados federais do PT, PSB, PDT, PSOL, PCdoB, Rede e PV. O objetivo é investigar as denúncias de crimes atribuídos ao ministro, o desmonte da fiscalização e o desmatamento descontrolado.

Redação: Cida de Oliveira